Um ano após explorar a mistura de funk-soul com samba e ritmos latinos no solar “Baile à la Baiana” (2025), Seu Jorge caminha na direção oposta em um álbum que destaca o seu lado interprete. The Other Side, apresenta o que indica seu título, outro lado do canto e compositor carioca, imerso em uma atmosfera mais intimista, minimalista, porém grandiosa em beleza e emoção.

O disco foi produzido ao longo de 16 anos. As primeiras gravações começaram em 2009 e foram seguindo de forma esporádica, conciliando com a agenda do artista. A obra só ficou pronta em 2018, porém só agora, em 2026 ela veio a público e o tempo de espera valeu muito a pena. A maturação das canções pode ser notada na riqueza de detalhes dos arranjos orquestrais de Miguel Atwood-Ferguson e produção de Mario Caldato Jr, na maturidade do canto e das interpretações de Jorge e na unidade do álbum na totalidade.
São 11 faixas, a maior parte delas pescada do repertório de grandes nomes da música brasileira, outra parcela de canções em inglês e uma composição autoral inédita. A seleção feita a dedo permite que Seu Jorge explore suas habilidades de intérprete de uma maneira até então pouco vista pelo público. Aqui, o artista consegue trafegar por territórios complexos e desafiadores, em uma sonoridade que se volta para o jazz, a Bossa Nova, o samba e uma atmosfera mais próxima da mpb da década de 1960, com a mesma segurança e fluidez com a que apresenta os hits com os quais é consagrado como um dos nomes mais populares da atualidade.

O álbum abre com “Crença”, composição de Milton Nascimento e Marcio Borges lançada originalmente no disco de estreia do primeiro, “Travessia” (1967) e funciona como a abertura perfeita para mergulhar o ouvinte no universo construído por Jorge e seus parceiros. Em seguida vem um dos momentos mais impressionantes do disco, “Vento de Maio”, canção interpretada originalmente por Lô Borges e Elis Regina, é refeita aqui em um dueto entre Jorge e Maria Rita. Um encontro de duas grandes vozes em alta voltagem emocional.
“Girl you move me”, música da banda canadense Cane and Able, ganha uma versão puxada para a Bossa Nova. “Luz na escuridão”, é um samba inédito de Cezar Mendes e José Carlos Capinan. Da mesma dupla também é o clássico “Flor de Laranjeira”, interpretada lindamente aqui, em uma versão simples e elegante. “Caboclo”, de Arthur Verocai e Vitor Martins, ganha uma versão grandiosa aqui, com o peso do arranjo atmosférico.
“Quando Chego” é a composição inédita de Seu Jorge, Marisa Monte, que também canta na faixa, e Arnaldo Antunes. A faixa tem clima de Tribalistas e é um dos momentos mais leves e alegres da obra. “Far From The Sea”, música lançada por Bebel Gilberto em 2009, também aparece no repertório, com a participação do quarteto belga Zap Mama. Já, “River Man”, música do britânico Nick Drake, marca o encontro de Jorge com o também britânico Beck. “Beleza Barbara”, de Leo Tomasini e Joey Altruda, encerra lindamente com um pezinho no bolero.
Seu Jorge apresenta em The Other Side o seu trabalho mais ousado e maduro. Com um repertório de peso, o carioca mostra que sua versatilidade vai ainda mais além do que já era conhecido em um disco que já nasce como um dos melhores da sua carreira e reafirma o artista como uma das grandes vozes masculinas no Brasil deste século.
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