Crítica | O Outro Lado das Redes: a máquina do ódio e a política reduzida a um duelo moral
Sony Pictures/Divulgação

Crítica | O Outro Lado das Redes: a máquina do ódio e a política reduzida a um duelo moral

O Outro Lado das Redes nasce de uma pergunta que o título já carrega como isca: o que existe do lado de lá de uma interface amigável? Aaron Sorkin, que em 2010 escreveu o retrato de um garoto de Harvard fundando um império, volta agora ao universo do Facebook para olhar o que aquele império fez com o mundo. O filme sai da gênese e vai à consequência, e é nessa mudança de ponto de vista que o debate começa.

A tese que o longa defende é incômoda por dispensar vilões de desenho animado. Plataformas vivem de atenção, atenção se mede em tempo de tela, e a emoção mais barata de produzir, a indignação, costuma render mais tempo de tela do que a ponderação. Nenhum algoritmo precisa de ideologia para impulsionar o extremismo; basta que o sistema premie o que prende. É um mecanismo, não uma conspiração, e por isso seja tão difícil dramatizá-lo.

O filme tenta resolver esse impasse com uma estrutura em duas pistas. Numa, Frances Haugen (Mikey Madison), funcionária da empresa, e o jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White) montam a denúncia que ficou conhecida como “The Facebook Files“. Na outra, Mark Zuckerberg (Jeremy Strong) é preparado para depor no Congresso. A montagem alterna bastidores de redação e de sala de reunião, e a ideia tem lógica: de um lado quem revela, do outro quem se defende.

O problema é que o roteiro, assinado também por Sorkin, aposta tudo no velho ping-pong verbal. Os diálogos são rápidos, referenciais, cheios de réplica espirituosa, e em vários momentos todos soam parecidos, como se executivos, jornalistas e delatora falassem a mesma língua. A velocidade que em “A Rede Social” parecia retrato de mentes aceleradas aqui arrisca virar tique. Quando uma conversa corriqueira exige citar Dickens, nos questionamos se o texto serve às personagens ou às frases.

Sem a mão seca de David Fincher na direção, que em 2010 deu ao texto um peso sombrio e uma geometria rigorosa, a encenação conduzida por Sorkin tende ao funcional. Os planos organizam as conversas, mas raramente as intensificam. O ritmo das falas pede uma energia de câmera que acompanhe o timing, e nem sempre a recebe. Há quem veja nisso sobriedade; há quem veja ausência de ponto de vista visual.

Essa uniformidade afeta a construção das relações humanas. A interação entre Frances e Jeff procura introduzir uma cumplicidade que flerta com a comédia romântica, mas a dinâmica soa mais dependente de tiradas ensaiadas do que de uma intimidade desenvolvida pela experiência compartilhada.

Crítica | O Outro Lado das Redes: a máquina do ódio e a política reduzida a um duelo moral
Sony Pictures/Divulgação

Referências literárias e jogos de palavras aparecem como marcas de personalidade, embora frequentemente revelem o mesmo repertório autoral por trás de figuras que deveriam pensar e falar de maneiras distintas. A tentativa de produzir leveza em meio à gravidade dos acontecimentos tampouco encontra um ritmo consistente. O humor, nesse caso, curiosamente, expõe a artificialidade dos diálogos.

A representação de Zuckerberg concentra outra contradição. O personagem aparece associado a uma estrutura empresarial que precisa responder pelos efeitos de suas decisões, mas sua caracterização oscila entre a caricatura do dirigente insensível e a figura de alguém que ainda se considera bem-intencionado. Esse retrato parece hesitar diante da necessidade de aprofundar essa distância. A empresa se torna alvo de uma acusação contundente, enquanto o homem que a representa recebe um tratamento que simultaneamente simplifica sua responsabilidade e preserva uma parcela de complacência. Para além dessa dificuldade de Sorkin em conduzir seus personagens centrais, a atuação de Strong me lembrou a caricatura que Tom Cavalcante fazia de Roberto Justus (Tompete Justus) na esquete “O Infeliz”.

Crítica | O Outro Lado das Redes: a máquina do ódio e a política reduzida a um duelo moral
Sony Pictures/Divulgação

A fotografia e a trilha, por sua vez, oscilam entre a limpeza corporativa e o solene. A fotografia, sem uma identidade expressiva suficientemente marcada, acompanha essa postura funcional. Tudo é “limpo”, perfilado e escuro. Tudo parece artificial e até mesmo o instante do longa em que ele sai dos Estados Unidos, as paletas seguem a mesma dinâmicas de um azulado escuro.

Crítica | O Outro Lado das Redes: a máquina do ódio e a política reduzida a um duelo moral
Sony Pictures/Divulgação

Já a trilha sonora recorre a uma ênfase melodramática que orienta o espectador sobre a importância dos acontecimentos, como se o peso político de cada situação precisasse ser sublinhado musicalmente. A música, em especial, anuncia a gravidade dos momentos com tamanha antecedência que dispensa o espectador de senti-la sozinho.

Existe também a questão do tom. O filme é, no fundo, uma narrativa de redenção. A boa ação individual contra a máquina. Sorkin sempre foi um romântico das instituições e dos indivíduos íntegros, e esse traço rende cenas de convicção genuína, mas também reduz um problema estrutural a um duelo moral. Quando a denúncia sugere que alguns homens e mulheres de bem, armados de eloquência, poderiam destravar a engrenagem, ela parece contradizer o próprio diagnóstico, que fala de incentivos econômicos, não de caráter. A figura de Zuckerberg, nesse arranjo, oscila entre a caricatura e certa complacência, e o desfecho que lhe cabe levanta dúvidas sobre quanto o filme quer realmente responsabilizar.

Se o diagnóstico já circula há anos, em documentários, audiências e manchetes, o que um longa-metragem acrescenta? A resposta possível é que repetir pode ser uma forma de resistir ao esquecimento, e que o cinema sabe encarnar o que relatórios técnicos deixam abstrato. A resposta contrária é que reencenar o já sabido sem o aprofundar pode confortar mais do que provocar. O filme habita, inquieto, o espaço entre as duas.

Para o público brasileiro, a discussão tem endereço. Estamos em plena disputa presidencial, com Lula e Flávio Bolsonaro na urna, num país em que o WhatsApp é canal primário de informação e a mensagem de um parente tem mais credibilidade que qualquer manchete. O que a tela mostra em inglês acontece em português, nos grupos de família, nas correntes, nas recomendações que levam do moderado ao radical em poucos cliques. A obra fala de uma empresa americana, mas o objeto é o ambiente em que decidimos em quem acreditar.

O Outro Lado das Redes sugere, desde seu título uma realidade escondida atrás das interfaces amigáveis, mas esse outro lado não se resume a segredos corporativos ou intenções perversas. Ele também está nas regras de distribuição, nas escolhas de investimento e nos mecanismos que transformam atenção em receita. Ao dramatizar esse universo, Sorkin coloca em circulação perguntas incontornáveis, embora sua insistência em personagens moralmente legíveis e diálogos ostensivamente brilhantes restrinja parte do debate que pretende provocar.

É entre a urgência da denúncia e a necessidade de compreender suas engrenagens, permanece a dificuldade de representar um sistema que não depende de um único culpado para produzir danos. Afinal, quando a lógica comercial premia aquilo que divide, quem consegue alterar as regras sem continuar submetido ao mesmo jogo?

Leia também:

Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.