Crítica | Hotel Amor transforma a correria do trabalho em linguagem cinematográfica
Imovision/Divulgação

Crítica | Hotel Amor transforma a correria do trabalho em linguagem cinematográfica

Um time de futebol se preparando para uma final de campeonato, hospedes chegam acompanhados de uma movimentação suspeita, senhoras polonesas em excursão, um comediante brasileiro interpretando uma versão de si e uma gerente que atravessa o hotel como se o prédio inteiro dependesse de seus passos. Em Hotel Amor, essas situações não esperam umas pelas outras, elas acontecem ao mesmo tempo, se atropelam e parecem exigem que alguém mantenha as portas abertas enquanto tudo ameaça sair do controle.

É com nessa sensação de urgência permanente que Hermano Moreira encontra a principal ferramenta de sua direção. O filme acompanha um dia particularmente atribulado no Hotel Amor, em Lisboa, quando uma representante da nova administração está prestes a avaliar o funcionamento do estabelecimento recém-adquirido. Para Catarina, gerente interpretada por Jéssica Athayde, a visita acontece no pior momento possível – embora, para alguém acostumada a trabalhar como se o hotel fosse uma extensão do próprio corpo, talvez nenhum momento fosse realmente tranquilo.

A escolha formal é imediatamente perceptível. Moreira constrói a ação como se fosse uma longa tomada contínua (plano-sequência), aproximando o espectador da exaustão de Catarina e da desordem crescente dos corredores. A câmera acompanha personagens, atravessa ambientes, muda de direção e se enfia em espaços apertados enquanto novas situações aparecem antes que as anteriores tenham sido resolvidas. A impressão é de que o expediente nunca oferece uma pausa, nem para quem trabalha ali, nem para quem observa.

Crítica | Hotel Amor transforma a correria do trabalho em linguagem cinematográfica
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Além de criativamente instigante, é uma decisão coerente mostrar que a vida de um hotel depende justamente da capacidade de administrar acontecimentos simultâneos. Um hóspede reclama, outro pede ajuda, a cozinha precisa funcionar, alguém desaparece, uma reserva dá errado e, ainda assim, a recepcionista precisa continuar sorrindo. O quase plano-sequência transforma essa lógica operacional em linguagem cinematográfica. A câmera também parece trabalhar em turno dobrado.

O problema, ou ao menos a questão que o recurso coloca, está no momento em que a técnica deixa de servir à narrativa e passa a pedir atenção para si. Os cortes ocultos necessários para sustentar a ilusão aparecem em transições que envolvem paredes, colunas, chão e outros elementos do cenário. A coreografia dos atores e da câmera é considerável, mas a costura nem sempre desaparece. Quando percebemos a engrenagem, a sensação de caos que deveria envolver Catarina pode ser substituída pela curiosidade diante da maneira como determinada cena foi montada.

Catarina está sempre em movimento, e Athayde acompanha essa exigência com uma atuação que combina velocidade, irritação e uma espécie de obstinação profissional. A personagem parece incapaz de simplesmente assistir a um problema, ela precisa resolvê-lo, mesmo quando o problema seguinte já está surgindo atrás dela. A interpretação ajuda a transformar a movimentação constante em retrato de uma rotina profissional que raramente permite distância.

Essa observação sobre o trabalho também aparece nos personagens ao redor. Funcionários precisam lidar com hóspedes inconvenientes, comportamentos infantis e situações absurdas, enquanto a cozinha ganha aquela atmosfera de lugar onde a pressão parece ser parte da receita. O filme encontra humor nessas pequenas relações de poder e desgaste, sobretudo quando coloca profissionais treinados para manter a cordialidade diante de pessoas determinadas a testar seus limites.

O roteiro de Bruno Bloch organiza essa sucessão de incidentes a partir de um elenco bastante heterogêneo. O fictício time de futebol Real Catalunha, as turistas polonesas, a dupla misteriosa e o personagem vivido por Marcelo Adnet funcionam como peças de uma engrenagem maior. O humor, porém, oscila. Algumas situações encontram o tom rapidamente; outras parecem depender mais da energia dos intérpretes do que da construção da piada. Júlia Palha, como recepcionista, brilha em todas as poucas cenas que aparece, enquanto Adnet brinca com sua própria imagem ao interpretar uma versão ficcional de si.

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A presença do ator também evidencia uma questão curiosa. Quando o filme o coloca para fazer imitações, o efeito pretendido pelo roteiro nem sempre se concretiza. O contraste entre seu conhecido domínio do registro cômico e o deslocamento daquele personagem produz uma espécie de desconforto que pode ser mais interessante do que a própria gag, ainda que nem sempre gere o riso esperado.

O hotel, por sua vez, poderia participar mais ativamente dessa equação. A fotografia aproveita corredores, quartos e áreas de circulação para sustentar a movimentação da câmera, mas o espaço permanece mais como pista de corrida do que como personagem. Lisboa também aparece em algumas passagens que marcam a passagem do tempo, oferecendo imagens capazes de ampliar o mundo da história, embora permaneça relativamente à margem do conflito principal.

Essa ausência se torna perceptível porque o cinema conhece bem a capacidade de um hotel de concentrar pessoas, segredos e conflitos. De “Psicose” a “O Iluminado”, passando por “O Grande Hotel Budapeste”, esses espaços deixam frequentemente de ser simples cenários para adquirir personalidade própria. Em Hotel Amor, a arquitetura é fundamental para a linguagem do filme, mas menos importante para sua dramaturgia.

O mesmo desequilíbrio aparece no arco de Catarina. Desde cedo, o roteiro estabelece sua relação quase obsessiva com o trabalho e retorna repetidamente a essa característica. A insistência torna previsível a direção emocional da personagem e prepara um desfecho que procura transformar a correria anterior em catarse. Quando surge uma revelação pessoal, a narrativa parece pedir que o espectador reorganize retroativamente tudo aquilo que viu, mas a preparação para esse movimento é mais explícita do que sutil.

É aí que Hotel Amor abre uma discussão – propositalmente ou não – interessante. Que está entre o conteúdo e a forma, entre contar o caos e reproduzi-lo. O filme não apenas fala de uma profissional incapaz de parar; sua câmera também se recusa a descansar. O recurso cria uma conexão para a jornada de Catarina, mas também se arrisca a reproduzir o mesmo excesso que pretende observar.

Crítica | Hotel Amor transforma a correria do trabalho em linguagem cinematográfica
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A graça está nessa contradição. Quando câmera, elenco e espaço trabalham juntos, o hotel parece uma máquina em funcionamento contínuo, prestes a engolir quem estiver por perto. Quando a construção formal se torna visível demais, a máquina aparece por trás da fachada. E nessa alternância entre imersão e artifício que a experiência encontra sua matéria mais provocadora que é a de acompanhar uma noite de trabalho em que ninguém parece ter tempo sequer para perceber que o expediente começou há muito tempo.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.