Crítica | Digger: escavando o excesso até encontrar o que ficou preso
Warner Bros./Divulgação

Crítica | Digger: escavando o excesso até encontrar o que ficou preso

A realidade também tem seus escavadores. Gente que passa a vida removendo camadas para encontrar petróleo, dinheiro, cadáveres, respostas ou, em casos mais ambiciosos, alguma justificativa para continuar cavando. Digger, de Alejandro G. Iñárritu, parte dessa imagem e a transforma em método. Seu filme cava, cava e cava, mesmo quando parece que já chegamos ao fundo. A certa altura, a sensação é de que não existe mais nada para retirar daquela terra. Então surge outra camada. Mais uma ideia. Mais uma piada. Mais um discurso. Mais um exagero. O problema e a graça estão exatamente aí.

O texto é simultaneamente a ferramenta mais afiada e o peso que Digger carrega nas costas. A mensagem está à vista, sem grande interesse em escondê-la: poder, dinheiro, homens acostumados a comprar tudo o que desejam, um país obcecado pela própria imagem e uma sociedade tentando imaginar o futuro enquanto ainda tropeça nos escombros do presente. Iñárritu não constrói uma sátira de sutilezas microscópicas. Ele prefere aumentar o volume até que a caricatura comece a se parecer perigosamente com a realidade.

Essa estratégia aproxima o longa de “Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick, sobretudo pela maneira como homens poderosos podem transformar seus próprios delírios em problemas de escala coletiva. A diferença está na temperatura. Kubrick observava o absurdo com uma frieza; Iñárritu parece interessado em colocar o espectador dentro da sala, fechar a porta e aumentar o som. A piada não termina quando deveria terminar. O discurso continua. O personagem insiste. A câmera permanece. O filme parece incapaz de dizer “chega” porque seus próprios personagens também não sabem fazê-lo.

Crítica | Digger: escavando o excesso até encontrar o que ficou preso
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É uma escolha que poderia ser apenas cansativa se não conversasse tão diretamente com aquilo que está sendo satirizado. Digger não apenas mostra o excesso, ele o pratica. O roteiro escrito por Iñárritu, Sabina Berman e Jez Butterworth, acumula palavras como seus personagens acumulam dinheiro, influência e ambição. A direção amplia gestos e situações até quase romper a moldura. As atuações trabalham em uma frequência acima do naturalismo. A sátira martela a mesma questão de ângulos diferentes. Tudo parece pedir contenção, e Iñárritu responde com mais uma camada.

O curioso é que essa insistência muda de significado quando se percebe o que o filme está fazendo por baixo da superfície. O mundo de Digger é povoado por pessoas que não sabem parar de falar sobre si mesmas, justificar suas escolhas, construir seu legado e imaginar que suas obsessões possuam importância histórica. O filme se comporta como elas.

Digger é aquele que escava, mas escavar nunca significa apenas retirar terra. Significa procurar alguma coisa. O ato pressupõe a existência de algo enterrado e, sobretudo, a disposição para chegar até lá. O filme faz isso com seus personagens, com suas ideias e com o próprio espectador. Primeiro entrega a superfície, depois começa a cavar. O que aparece embaixo não é necessariamente mais confortável.

A política e o dinheiro são parte dessa paisagem, mas o assunto que mais se infiltra no terreno é a arte. Para que ela serve quando o mundo já está saturado de imagens? O que significa criar alguma coisa quando bilionários podem construir monumentos para si próprios, controlar narrativas e comprar os meios para perpetuar suas versões da história? E o que sobra para a arte quando o futuro parece pertencer justamente a quem tem recursos para desenhá-lo?

Os personagens do longa querem controlar o amanhã, mas também querem controlar como serão lembrados. O futuro aparece como território a ser conquistado, enquanto o passado vira matéria-prima para fabricar uma narrativa conveniente. Entre os dois, resta o presente – esse lugar incômodo do qual todos parecem desesperados para escapar.

A fotografia acompanha essa instabilidade sem transformar o filme em um desfile de imagens bonitas por si mesmas. Os espaços têm uma dimensão quase monumental, mas os personagens frequentemente parecem aprisionados dentro deles. Existe uma ironia visual nessa relação, quanto maior for o ambiente, menor parece a capacidade daqueles homens de enxergar além do próprio ego. A direção de Iñárritu explora essa contradição, alternando sensação de espetáculo e sufocamento.

Crítica | Digger: escavando o excesso até encontrar o que ficou preso
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A trilha sonora contribui para essa impressão de movimento permanente. Em vez de simplesmente conduzir emoções, ela ajuda a empurrar o filme para frente, como se houvesse sempre uma nova porta a ser aberta antes que tivéssemos tempo de respirar. É parte da mesma lógica que orienta montagem, enquadramentos e diálogos. Digger raramente permite que uma ideia exista em silêncio.

As atuações entendem esse princípio. Tom Cruise assume um dos papéis mais curiosos de sua carreira recente porque existe uma tensão entre o personagem e a persona que o ator construiu ao longo das décadas. Sua presença carrega naturalmente uma história de estrelas, poder, controle e espetáculo, e o filme sabe explorar essa bagagem sem precisar explicá-la. Cruise abraça o exagero e, em determinados momentos, parece estar brincando com a própria imagem pública enquanto conduz a caricatura até um território desconfortável.

Riz Ahmed encontra outro caminho. Sua atuação funciona como uma espécie de ponto de contato com o absurdo, alguém que consegue transitar entre a energia satírica e uma dimensão mais humana sem parecer deslocado dentro daquele universo. Existe inteligência nos seus silêncios, assim como existe humanidade na maneira como reage ao caos ao redor.

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E então aparece Jesse Plemons, com um monólogo que sintetiza uma das ideias mais bonitas escondidas sob tanta gritaria. Sem revelar o conteúdo da cena, basta dizer que seu personagem finalmente encontra uma maneira de verbalizar aquilo que estava acumulado. A arte pode ser uma válvula. Pode ser uma maneira de retirar da garganta alguma coisa que não encontramos coragem, espaço ou linguagem para dizer.

Sandra Hüller, por outro lado, recebe menos espaço do que sua presença poderia sugerir. É uma pena, sobretudo porque existe ali uma atriz capaz de alterar a temperatura de qualquer ambiente com poucos gestos. Mas sua participação reduzida também conversa com esse mundo dominado por homens fazendo bobagem em proporções gigantescas. Eles ocupam espaço, interrompem, discursam, explicam, competem e acreditam que o universo está prestando atenção. A ausência relativa de Hüller acaba funcionando como parte desse retrato, ainda que deixe uma sensação legítima de oportunidade não explorada.

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Digger continua cavando até depois de a sessão terminar. Primeiro, remove o entulho. Depois, encontra o espetáculo. Mais abaixo, aparecem as perguntas. E, enterrado em algum lugar dessa escavação, está aquilo que o filme parece procurar desde o início. Uma maneira de falar sobre o presente sem abandonar a ansiedade diante do futuro. A arte não resolve esse problema. Nem deve. Mas pode abrir um buraco suficientemente fundo para que alguma coisa finalmente consiga sair.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.