Crítica | Querendo ou Não: envelhecer também é aprender a perder o controle
Imovision/Divulgação

Crítica | Querendo ou Não: envelhecer também é aprender a perder o controle

A frase que dá nome a Querendo ou Não carrega consigo uma pequena provocação: diante de certas circunstâncias, qualquer movimento pode produzir um erro. O título italiano, Come ti muovi, sbagli, é uma expressão que sugere uma espécie de armadilha cotidiana em que agir ou permanecer imóvel são escolhas igualmente capazes de gerar consequências. Gianni Di Gregorio, que assume direção, roteiro e protagonismo, constrói a partir dessa ideia uma comédia de afetos domésticos sobre um homem que passou tanto tempo organizando a própria existência que já não sabe muito bem o que fazer quando a vida decide reorganizá-la por ele.

O professor aposentado interpretado pelo próprio cineasta vive cercado por objetos, livros e hábitos cuidadosamente preservados. Seu cotidiano tem a precisão de um relógio. Café, conversas triviais, leituras, o desejo de escrever um novo ensaio e uma casa que funcionam como extensões de sua personalidade. Existe conforto nessa rotina, mas também uma espécie de clausura voluntária. Ele não parece exatamente infeliz. O problema é que sua felicidade depende de quase nada acontecer.

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Essa escolha aproxima Querendo ou Não de uma tradição fértil do cinema italiano, a do personagem que transforma a própria casa em refúgio e, simultaneamente, em prisão. Di Gregorio já havia explorado relações entre velhice, família e pequenas desordens da vida cotidiana em sua filmografia, mas aqui existe uma camada adicional de autorretrato. O cineasta se coloca diante da câmera enquanto constrói uma persona que também parece dialogar com sua trajetória atrás dela. Não é uma autorrepresentação ostensiva; o gesto é mais discreto, quase doméstico, como se o diretor estivesse fazendo um exercício de observação do próprio envelhecimento.

A invasão da filha Sofia, vivida por Greta Scarano, e dos netos rompe essa geometria. Depois de descobrir a traição do marido, ela procura abrigo justamente no lugar que o pai havia transformado em território privado. A partir daí, livros, móveis, objetos e horários deixam de obedecer ao professor. A casa, antes silenciosa, passa a funcionar como organismo coletivo.

A família aparece, assim, menos como uma instituição idealizada do que como força de perturbação. A tradição cristã que associa o núcleo familiar à ideia de proteção pode ser lida aqui com certa ironia. Aquilo que deveria oferecer segurança é o elemento responsável por desmontar a tranquilidade do protagonista.

Esse processo poderia facilmente desembocar numa história convencional de redenção tardia. O velho solitário aprende a cozinhar, limpar, conviver e, finalmente, se relacionar com aquilo que existe fora de sua rotina. Querendo ou Não parece reconhecer esse caminho, mas evita. A mudança acontece em pequenos gestos. O professor não descobre uma nova filosofia de vida; aprende, sobretudo, a lidar com tarefas e relações que havia delegado ou simplesmente ignorado.

É nesse sentido que o filme pode ser aproximado de um coming of age tardio. A expressão normalmente pertence às narrativas de formação juvenil, mas aqui a formação acontece quando a juventude já ficou muito distante. O professor ainda precisa aprender a viver. A diferença é que sua educação ocorre depois de décadas de hábitos consolidados, quando mudar já não significa escolher entre possibilidades, mas abrir espaço para aquilo que havia sido excluído.

O roteiro ganha outra dimensão quando acompanha Helmut (Tom Wlaschiha), ex-marido de Sofia. Arrependido da traição, ele parte para uma caminhada de mais de mil quilômetros como tentativa de demonstrar que ainda existe alguma possibilidade de reparar o dano causado.

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As imagens de Helmut atravessando montanhas, entrando em igrejas e caminhando ao lado do lobo Stern introduzem uma espécie de pausa contemplativa em contraste com a movimentação dentro da casa do professor. Existe quase outro filme escondido nessas sequências. O animal, companheiro inesperado do viajante, reforça a dimensão de isolamento que atravessa a obra. Mas aqui, a solidão não é punição. Ser sozinho pode ser uma escolha; o problema começa quando essa escolha se torna incapacidade de responder ao outro.

A fotografia acompanha essa percepção com um naturalismo que evita grandes demonstrações visuais. O filme encontra beleza em paisagens, interiores e gestos cotidianos, permitindo que a câmera observe antes de explicar. Essa abordagem combina com uma narrativa interessada justamente naquilo que parece pequeno. A transformação do professor não depende de um acontecimento extraordinário, mas da alteração de uma rotina.

A trilha sonora desempenha papel semelhante. Com uma sensibilidade que pode remeter a “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, de Jean-Pierre Jeunet, a música contribui para criar uma atmosfera calorosa, por vezes quase encantada, mas sem abandonar completamente a melancolia. O recurso ajuda a estabelecer uma relação afetiva com os personagens e com seus pequenos rituais. Ao mesmo tempo, essa suavidade é parte da ambiguidade do filme a mesma delicadeza que torna determinadas cenas acolhedoras também pode fazer com que os conflitos percam o impacto.

É nesse ponto que Querendo ou Não começa a se tornar mais interessante como objeto crítico. Seu material dramático contém contradições suficientes para sustentar uma obra mais áspera. Adultério, abandono, velhice, dependência, isolamento, família e necessidade de mudança poderiam produzir conflitos muito mais incômodos. O roteiro, porém, prefere frequentemente a conciliação ao confronto. Mesmo quando a situação ameaça sair do controle, a narrativa recoloca tudo em uma zona de conforto.

As histórias secundárias ajudam a revelar essa característica. Os encontros de Sofia com homens de seu passado funcionam como pequenas peças cômicas, enquanto o interesse da neta Olga pelo rapaz da padaria se aproxima daquele tipo de situação criada para arrancar um sorriso bobo juvenil. São momentos simpáticos, mas nem sempre encontram a mesma densidade das trajetórias do professor e de Helmut.

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O filme aposta mais na sensação deixada por seus personagens do que em uma dramaturgia de grandes viradas. Seu interesse está no afeto acumulado. Uma caminhada, uma conversa, um animal seguindo alguém, uma casa que deixa de ser silenciosa. O espectador é convidado a preencher os espaços que o roteiro deliberadamente não dramatiza.

O problema é que a contenção também pode produzir uma espécie de anestesia. Quando a narrativa se aproxima de uma resolução, não existe exatamente uma catarse capaz de reorganizar tudo aquilo que veio antes. As coisas simplesmente encontram seu lugar.

O próprio título continua sendo a melhor chave para essa contradição. Querendo ou Não parece dizer que não existe maneira correta inteiramente de atravessar determinadas fases da vida. O professor tenta permanecer imóvel e é obrigado a se mover. Helmut se move milhares de quilômetros porque não consegue permanecer onde estava. Sofia procura refúgio no pai e acaba perturbando o único espaço em que ele se sentia seguro. Cada personagem reage ao movimento do outro e, nessa cadeia de deslocamentos, ninguém possui controle absoluto sobre o resultado.

Querendo ou Não acompanha seus personagens enquanto eles tentam descobrir, às vezes com humor e outras com uma certa melancolia, se ainda existe espaço para mudar depois que acreditamos ter aprendido tudo sobre nós mesmos.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.