Crítica | Se Eu Fosse Você 3 e a troca de um humor que já não cabe no mesmo corpo
Star Original Productions/Divulgação

Crítica | Se Eu Fosse Você 3 e a troca de um humor que já não cabe no mesmo corpo

Trocar de corpo continua sendo uma daquelas premissas que parecem ter nascido prontas para a comédia. O problema, para Se Eu Fosse Você 3, está menos na troca em si do que naquilo que acontece quando os personagens, após ocuparem o corpo alheio, já não parecem exatamente as pessoas que eram antes dela. A nova continuação entende que repetir o passado seria pouco interessante, mas encontra uma dificuldade curiosa. Ao tentar mudar o tipo de humor e atualizar a dinâmica da franquia, também acaba afastando seus protagonistas da personalidade que o próprio filme havia acabado de apresentar.

A direção de Anita Barbosa, dividida com Daniel Filho, diretor do primeiro longa, procura estabelecer uma identidade própria sem romper completamente com a fórmula. A trilha sonora ajuda nessa transição ao recuperar, logo na abertura, a canção associada ao encerramento do filme original. É uma piscadela para quem chega carregando memória afetiva, mas o roteiro de Filho, ao lado de Adriana Falcão e Renê Belmonte, não transforma essa lembrança em muleta. Em vez de reconstruir cenas conhecidas ou insistir em referências ao passado, prefere deixar Cleo Pires (Bia) e Rafael Infante (Aquiles) ocuparem o centro do quadro.

A decisão é compreensível, especialmente porque Tony Ramos e Glória Pires aparecem quase como figuras de outro tempo. Cláudio e Helena estão presentes, mas sua participação reduzida os coloca na condição de testemunhas da passagem de bastão. A sombra dos antigos protagonistas, contudo, é inevitável. Ramos e Glória estabeleceram uma dinâmica baseada justamente na estranheza de ver duas personalidades reconhecíveis aprisionadas em corpos diferentes. Agora, o filme precisa convencer que Bia e Aquiles podem produzir um jogo semelhante sem simplesmente reproduzi-lo.

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É nesse ponto que a troca começa a revelar uma contradição. Antes da mudança, Bia é apresentada como alguém controlada, objetiva, profissionalmente determinada e pouco inclinada a sentimentalismos. Aquiles, por sua vez, surge ligado ao esporte e ao culto ao corpo, mas também como um sujeito sensível e quase ingênuo. Quando os corpos se invertem, porém, a caracterização parece seguir caminhos mais convencionais. Pires encontra prazer evidente no exagero e transforma Bia em uma caricatura do sujeito masculino durão, enquanto Infante acentua justamente a delicadeza que já fazia parte de Aquiles. A graça pode surgir da inversão, mas a personalidade que deveria atravessar a mudança fica pelo caminho.

O filme também abandona boa parte do humor físico que marcou o primeiro capítulo. A narrativa prefere acompanhar os protagonistas tentando desempenhar as funções profissionais um do outro. Ela precisa encarar esportes radicais apesar do medo de altura; ele se vê diante de uma cozinha e de uma rotina profissional que desconhece. A premissa passa, então, a funcionar menos como uma coleção de esquetes e mais como um mecanismo para aproximar duas pessoas que já não conseguem compreender a vida uma da outra.

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Essa escolha aproxima o longa de uma ideia de empatia mais discreta. A crise do casal não exige uma grande revelação, porque o próprio dispositivo fantástico fornece essa resposta ao experimentarem, literalmente, a rotina do outro torna mais difícil ignorar suas dificuldades. É uma solução previsível, mas a previsibilidade não necessariamente esvazia uma comédia romântica. O interesse está em observar como o roteiro encontra pequenas situações para transformar essa ideia em ação, sem interromper a história para explicar ao público aquilo que ele já entendeu.

Visualmente, entretanto, a produção carrega uma simplicidade que chama atenção. As cores fortes, os cenários artificiais e uma fotografia excessivamente limpa criam uma textura que frequentemente se aproxima da televisão. Existe uma pobreza visual que beira o televisivo, mas isso não precisa ser entendido automaticamente como defeito. A linguagem aproxima o filme de uma novela das oito ou de uma série popular, especialmente na maneira como os espaços parecem construídos para servir à ação antes de adquirir vida própria.

O humor, por sua vez, oscila entre momentos de bom timing e situações que parecem depender de uma divisão bastante antiga entre coisas de homem e coisas de mulher. Algumas piadas são mais engraçadas justamente quando deixam de explicar a própria inversão e permitem que os atores sustentem a situação. Outras retornam a uma lógica de oposição de gêneros que o cinema comercial brasileiro já explorou à exaustão. A produção deixa para trás parte da objetificação e do machismo mais explícito dos filmes anteriores, mas ainda conserva mecanismos cômicos derivados dessa mesma separação.

Crítica | Se Eu Fosse Você 3 e a troca de um humor que já não cabe no mesmo corpo
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É curioso, portanto, que Se Eu Fosse Você 3 pareça procurar renovação quando mais se distancia daquilo que tornou a franquia reconhecível. Cleo e Infante tentam encontrar o próprio compasso, Anita Barbosa procura uma mise-en-scène menos dependente da nostalgia e o roteiro evita transformar o passado em desfile de referências. Mas Tony Ramos e Glória Pires continuam pairando sobre tudo, mesmo quando estão fora de cena. Compará-los aos novos protagonistas é inevitável porque a própria estrutura do filme convida a isso.

Se Eu Fosse Você 3 encontra momentos em que uma nova identidade parece começar a respirar – e outros em que ainda se percebe a tentativa de preencher um espaço ocupado por personagens que, justamente por trocarem de corpo no passado, continuam difíceis de deixar para trás.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.