Crítica | Feito Pipa encontra no afeto e na liberdade a força de uma história emocionante
Biônica Filmes/Divulgação

Crítica | Feito Pipa encontra no afeto e na liberdade a força de uma história emocionante

Entre cenas divertidas e situações dolorosas, Feito Pipa acompanha a infância de um menino que encontra na avó a liberdade para ser quem é. Dirigido por Allan Deberton, o longa brasileiro aborda preconceito, memória e conflitos familiares sem transformar essas questões em uma sucessão de tragédias. Ao contrário, o humor e a espontaneidade dos personagens ajudam a construir uma narrativa sensível, que emociona sem perder a leveza.

A história acompanha Gugu (Yuri Gomes), um menino de 11 anos apaixonado por futebol, dança e maquiagem. Ele vive com a avó Dilma (Teca Pereira), uma professora aposentada que acolhe seus interesses sem julgamentos. Entretanto, a rotina dos dois começa a mudar quando ela apresenta sinais de Alzheimer. Com medo de ser separado da avó, Gugu tenta esconder a doença para não precisar morar com Batista (Lázaro Ramos), seu pai.

Em paralelo à situação da avó, a baixa da maré de uma barragem revela ruínas de uma antiga cidade e desperta lembranças ligadas ao passado da família. A descoberta acompanha uma história na qual recordar e esquecer assumem significados cada vez mais importantes.

O carisma de Gugu e Dilma conquista o público

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Logo na primeira cena, Gugu aparece dançando ao som de “A Noite Vai Chegar”, conhecida na voz de Lady Zu. A sequência apresenta a energia do protagonista e estabelece o tom descontraído que acompanha boa parte do filme. Além disso, revela como a música funciona como uma forma de expressão para o menino.

Gomes interpreta Gugu com uma espontaneidade que torna o personagem cativante. Divertido, expressivo e cheio de personalidade, ele transita naturalmente entre o futebol, a dança e a maquiagem. Seus interesses não são tratados como características contraditórias, embora despertem reações diferentes nas pessoas ao seu redor.

Além disso, o filme mostra a infância de Gugu para além dos problemas familiares. Suas amizades e brincadeiras ajudam a construir um personagem que não é definido exclusivamente pelo preconceito. A direção permite que o público conheça sua personalidade sem recorrer constantemente a explicações sobre sua identidade.

Ao seu lado, Teca Pereira interpreta uma Dilma carismática, bem-humorada e cheia de personalidade. Todos os sábados, a avó frequenta um forró, onde dança com seu interesse amoroso Valmir (Carlos Francisco), enquanto Gugu também participa desses momentos de descontração. As cenas revelam uma mulher que mantém seus próprios interesses e ajudam a mostrar a cumplicidade entre avó e neto, um dos pontos mais cativantes do longa.

A química entre os protagonistas é um dos maiores acertos do longa, com brincadeiras e momentos de humor que tornam a relação entre avó e neto ainda mais cativante. Além disso, as amizades de Gugu revelam uma infância que vai além dos conflitos familiares e do preconceito. Assim, quando a doença de Dilma avança, o impacto emocional é maior, pois o público já conhece a cumplicidade entre os dois.

Preconceito e uma nova convivência familiar

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A liberdade que Gugu encontra com Dilma contrasta com a relação que mantém com Batista. O personagem de Lázaro Ramos demonstra dificuldade em aceitar os gostos e comportamentos do filho. Suas repreensões revelam expectativas rígidas sobre masculinidade e uma preocupação com o julgamento de outras pessoas.

O preconceito também aparece na escola, onde Gugu enfrenta provocações e agressões de colegas. Em uma das sequências mais delicadas do longa, outros meninos o perseguem e perfuram sua orelha à força. A violência evidencia como a intolerância pode ultrapassar as ofensas e atingir fisicamente uma criança.

Com o avanço do Alzheimer, Dilma passa a viver em uma casa de repouso, enquanto Gugu precisa se mudar para a residência de Batista. O pai já construiu outra família e mora com a esposa, a filha pequena e aguarda a chegada de mais um bebê. Acostumado ao acolhimento da avó, o menino enfrenta dificuldades para se adaptar à nova rotina, especialmente diante das expectativas impostas pelo pai.

Apesar disso, Gugu encontra momentos para expressar sua personalidade, como durante o chá de bebê da madrasta, quando volta a dançar diante dos familiares. A sequência mostra que, mesmo em um ambiente no qual não se sente completamente à vontade, ele preserva seus interesses e sua espontaneidade.

A relação com Batista também apresenta tentativas de aproximação. Em uma das cenas, o pai ensina Gugu a andar de moto pelo bairro, proporcionando um momento de cumplicidade entre os dois. Ramos transmite bem as contradições do personagem, que demonstra carinho pelo filho, mas ainda reproduz preconceitos que dificultam a convivência.

Memórias, música e um desfecho sensível

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Conforme o Alzheimer avança, Dilma passa a confundir o passado com o presente e, em alguns momentos, deixa de reconhecer o próprio neto. A avó também sai à procura de Eliane, sua filha falecida e mãe de Gugu, como se ela ainda estivesse viva. Essas situações estão entre as mais dolorosas do filme, especialmente porque o menino precisa lidar com a ausência da mãe enquanto acompanha a perda gradual da memória de Dilma.

A trilha sonora também contribui para a emoção da narrativa. “Time After Time”, de Cyndi Lauper, ganha um significado especial ao resgatar lembranças da família e reforçar o vínculo entre avó e neto. Assim, a música se torna uma forma de preservar afetos mesmo diante dos esquecimentos provocados pela doença.

Com aproximadamente uma hora e meia, Feito Pipa mantém um ritmo envolvente ao equilibrar humor, conflitos familiares e momentos de sensibilidade. A direção de Deberton conduz esses acontecimentos sem exagerar no drama, enquanto as atuações de Yuri Gomes e Teca Pereira tornam a relação entre os protagonistas ainda mais convincente.

O desfecho é bonito e comovente, deixando a vontade de acompanhar um pouco mais da trajetória dos personagens. Essa sensação não surge pela falta de explicações, mas pelo carinho que Gugu e Dilma despertam ao longo da história. Ao abordar identidade, memória e preconceito sem abandonar a leveza, o longa encontra no afeto sua maior força.

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