Que falta um romance não faz, não é mesmo? A sensação de encontrar um amor e ser feliz para sempre é o sonho de muitos, e nos anos 90 e 2000, esse era o maior sonho de Hollywood. Quem não lembra dos milhares de filmes que saiam todos os anos dessas décadas sobre temas como amor, almas gêmeas e encontrar um companheiro para a vida? Dando uma olhada nos últimos anos do cinema, não podemos deixar de nos perguntar: será que esse gênero morreu mesmo?

Os clássicos e o grande boom das comédias românticas

Os anos 90 foram uma época mais simples para as comédias românticas. Meg Ryan, Julia Roberts e Sandra Bullock dominaram a bilheteria com filmes em que se apaixonavam por homens que estavam se envolvendo em um pouco de catfishing inofensivo (como em “Mensagem Para Você” de 1998), sendo contratadas como acompanhantes (como em “Uma Linda Mulher” de 1990), ou estavam presos em coma (como em “Enquanto Você Dormia” de 1995). Quem nunca, não é mesmo?

Porém, foi nos anos 2000 que aconteceu a grande virada; as comédias românticas não eram só sobre quando o garoto conhece a garota, a garota odeia o garoto, o garoto e a garota se tornam amigos e eventualmente se apaixonam— isso tudo, começou a parecer um pouco clichê.

As melhores comédias românticas do início dos anos 2000 são aquelas que reconhecem que, não importa quão complicada seja a trama, a história de amor precisa ser algo com que o público possa se identificar. Por isso, as comédias românticas cresceram tanto nesse momento; gostamos de drama, mas o lado engraçado da vida nos dá uma sensação de alívio e esperança, e é assim que a vida realmente passa, com todos os tipos de momentos. 

Nessa década, temos filmes como “Ela é o Cara” (2006), onde uma menina decide se passar por homem para poder jogar futebol e acaba se apaixonando pelo seu colega de quarto; “De Repente 30” (2004), em que uma garota de 13 anos faz um pedido: virar adulta, e o pedido milagrosamente se torna realidade, mas no dia seguinte, Jenna acorda com 30 anos; “Como Perder um Cara em Dez Dias” (2003), em que um publicitário e uma jornalista viram os alvos um do outro em apostas completamente opostas; e “500 Dias com Ela” (2009), onde um romântico escritor se surpreende quando sua namorada Summer termina o namoro repentinamente, fazendo-o relembrar vários momentos dos 500 dias que passaram juntos, mas adicionando muitos dramas à situação, o que faz o telespectador questionar quem está certo nesse término.

Nos anos 2000, não se trata apenas de amor e dramas; são comédias que nos fazem rir como nunca, apresentando histórias um tanto fora da realidade, mas tão divertidas de acompanhar. Elas também trazem elementos adicionais que acrescentam um drama diferente à trama. O mais importante, porém, são as outras perspectivas sobre o amor e as diferentes formas de encontrá-lo. Embora haja muito clichê, é possível sair da mesmice e inovar.

Segundo Franthiesco Ballerini, crítico de cinema e autor do livro História do Cinema Mundial, são várias as razões que poderiam explicar o boom das comédias românticas na metade dos anos 90 e início dos anos 2000.

Hollywood no século XXI começa com uma essência otimista do fim da guerra fria e da prosperidade da economia americana. Isso, é claro, se refletiu nos cinemas. Assim como aconteceu no pós-guerra dos anos 50

Um levantamento da agência de notícias Reuters mostrou que, nas décadas de 1990 e 2000, as comédias românticas ficaram de fora da lista das 20 maiores bilheterias dos Estados Unidos em apenas três anos (1994, 1996 e 2001). Até esse período, o gênero seguia em alta, mas depois de algumas circunstâncias ele se tornou cada vez mais escasso.

O declínio dos romances

Nem tudo são flores, e o gênero começou a decair firmemente. A atriz Kate Hudson, um dos principais nomes das comédias românticas dos anos 2000 e atriz de um dos filmes que comentamos acima, “Como perder um homem em 10 dias”, falou recentemente sobre o assunto. Para ela, a popularidade do gênero caiu devido à falta de histórias que sejam realmente boas.

Acho que às vezes as pessoas pensam que as comédias românticas são só sobre o encontro fofo. Elas são, na verdade, sobre encontrar o amor, descobrir o amor, se apaixonar, se separar e, então, mostrar como os personagens voltam a ficar juntos. Essa é uma estrutura muito tradicional

Trazendo a perspectiva da atriz, podemos dizer que as comédias românticas americanas do passado eram predominantemente homogeneizadas em sua abordagem, tendo sempre casais brancos e heterossexuais vivendo tramas previsíveis e relacionamentos tóxicos. 

Apesar de sua popularidade, os romcoms, como gênero, realizaram poucas mudanças nas concepções sobre quem poderia se apaixonar, como deveria ser sua vida ou a quem deveriam amar. Além disso, ao adotar essa perspectiva limitada, quando personagens LGBTQ eram incorporados às narrativas, eram quase sempre retratados como homens gays, frequentemente estereotipados como o amigo sarcástico do protagonista, servindo apenas para oferecer pequenas doses de romance e conselhos de moda. Evidentemente, essa abordagem revelou-se insustentável ao longo do tempo.

Outro fator é que ao longo dos anos 2000, vimos o cenário do mercado cinematográfico ganhar novos ares. As superproduções ganharam força, com os filmes de super-heróis e o ressurgimento da tecnologia 3D. Com tanta inovação tecnológica para conferir nas telonas – principalmente após o lançamento de Avatar, em 2009 – os clichês das comédias românticas foram perdendo espaço no coração do público.

E no horizonte, as romcoms renasceram

Porém, o gênero tem tentado voltar, a largos passos, mas tem. Após amargar décadas de carência, o gênero reagiu, botou um cropped de modernidade e diversidade e voltou a conquistar o público no cinema e no streaming.

A resposta para o renascimento das comédias românticas nos anos recentes pode ser encontrada no crescimento das empresas de streaming e, principalmente, na quantidade de produções originais sendo realizadas por elas.

De acordo com pesquisas, o streaming sempre é apontado como o principal responsável pelo retorno das comédias românticas. Fãs podem agradecer ao algoritmo: após notar um consumo forte de clássicos do gênero na plataforma, a Netflix decidiu investir pesado em produções que unem humor e romance. Foi assim que nasceram longas como “A barraca do beijo” (2018), “Para todos os garotos que já amei” (2018), “O plano imperfeito” (2018) e “Meu eterno talvez” (2019), sucessos que renderam continuações e já são considerados sucessores daqueles títulos dos anos 1980 e 1990.

Devido essa experimentação dos streamings e a natureza cíclica do cinema, os grandes estúdios também resolveram voltar a sua atenção para o gênero, quando a Warner Bros. lançou ainda em 2018 o sucesso Podres de Ricos (2018). O filme apresenta uma perspectiva fascinante da cultura asiática, contando com um elenco abrangente composto por artistas orientais e seus descendentes, e destacando na tela a representação de inúmeros imigrantes e suas gerações no Ocidente.  

Mesmo com a tão esperada volta, as romcoms já enfrentam duras criticas: algumas pessoas também tendem a dizer que muitos dos filmes de hoje não tem pé nem cabeça, os roteiros são fracos e acabam sendo filmes clichês e cópias dos filmes antigos. Porém, se os filmes mais recentes são criticados pelos roteiros repetitivos, eles também recebem elogios por discutirem temas mais atuais e/ou não incluírem problemáticas que as comédias românticas de 20 anos atrás continham. A atualização das temáticas desses filmes é justamente uma das maneiras com que eles se reinventam para o streaming e para um público que, agora, demanda ser visto naquilo que consome.

Nós, fãs de um bom romance, só podemos esperar que o gênero não morra mais, e entenda suas críticas e méritos e continue a ir pelo caminho de bons filmes que deixam o coração quentinho após assistir. Todo esse cenário parece ainda estar tomando forma, mas, pelo menos por enquanto, o que antes era considerado um gênero adormecido está provando que ainda possui o seu charme.

Para finalizar, não podia deixar de indicar algumas das melhores comédias românticas atuais: 

  • Vermelho, Branco e Sangue Azul (2023)
  • Todos Menos Você (2024)
  • Na Sua Casa ou na Minha? (2023)
  • Case Comigo (2022)
  • Convidado Vitalício (2020)
  • Meu Eterno Talvez (2019)
  • Para Todos os Garotos que Já Amei (2018)
  • Simplesmente Acontece (2014)
  • Com amor, Simon (2018)
  • Amor a Toda Prova (2011)
  • Nossas Noites (2017)
  • Doentes de Amor (2017)
  • Palm Springs (2020)
  • Questão de Tempo (2013)
  • O Plano Imperfeito(2018)

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