Crítica | A Pequena Amélie: o despertar da consciência nas águas profundas da infância
Mares Filmes/Divulgação

Crítica | A Pequena Amélie: o despertar da consciência nas águas profundas da infância

Baseado no romance autobiográfico da artista Amélie Nothomb, o longa animado A Pequena Amélie é uma jornada de formação em miniatura da pequena protagonista, nascida no Japão e filha de belgas, que atravessa seus primeiros três anos de vida como quem emerge lentamente de um estado anterior à própria existência. Marcado pelo número três, ele próprio um número sagrado, Amélie é a terceira filha, e a história nos leva do seu nascimento até a idade em que, na cultura japonesa, a criança desce do reino dos deuses para o mundo dos meros mortais. A palavra para essa santidade infantil é okosama, ou “criança-senhor”, e o longa dirigido por Maïlys Vallade e Liane-Cho Han nos conduz através do espírito dessa formação mais primordial com fantasia, comentários interculturais e um sentimentalismo por vezes intransigente.

A pequena Amélie (Loïse Charpentier) é lenta para se desenvolver: demora a andar, demora a falar, passando seus primeiros meses em um estado quase vegetativo, silenciosa e imóvel, observando o mundo sem reagir a ele. Não há pressa em “explicar” essa infância ao espectador impaciente; pelo contrário, o filme exige que desaceleremos e aceitemos o estranhamento de enxergar o mundo sob uma lógica sensorial e fragmentada. Quando finalmente desperta, impulsionada por uma mordida de chocolate branco belga, Amélie adquire uma proficiência quase instantânea para se expressar, como se a consciência, uma vez alcançada, exigisse voz imediata. A partir daí, ela age por obrigação amorosa, curiosidade imensurável e até mesmo por despeito, recusando-se a dizer o nome do irmão devido às típicas provocações fraternas.

Com três pequenos em casa, os pais precisam de ajuda, e a proprietária, Kashima-san (Yumi Fujimori), traumatizada pela guerra, os emprega com o auxílio da governanta Nishio-san (Victoria Grosbois), preocupando-se mais com a manutenção de sua propriedade do que permitindo qualquer laço afetivo. Mas Nishio-san e Amélie se entrelaçam profundamente, e o filme se torna uma história tanto sobre as maravilhas quanto sobre as complexidades geracionais das relações interculturais.

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A bela animação 2D do filme, de traço simples e etéreo, porém profundamente expressivo, cria uma paisagem generosa que combina com o olhar de espanto de Amélie. As cores dialogam com seu estado emocional, alternando entre tons suaves e explosões cromáticas que traduzem sensações internas, não realidades objetivas.

Não há busca por realismo visual, mas por verdade emocional, permitindo que sentimentos abstratos como medo, prazer e pertencimento ganhem forma concreta na tela. Para Amélie, o aspirador de pó é uma fera magnífica; há magia no cotidiano, e quando surge uma birra, a magnitude é sem limites. O filme destaca como as emoções e a curiosidade impulsionam os pequenos, antes que a lógica e a praticidade comecem a delinear a consciência.

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Há também uma dimensão religiosa e simbólica construída a partir do olhar literal e absoluto da infância. A crença inicial de Amélie de que é um Deus nasce diretamente de seu estado vegetativo: imóvel e observadora, ela se percebe como centro de um mundo que gira ao seu redor, numa lógica quase teológica infantil em que existir equivale a ter poder.

O terremoto que a desperta funciona como um evento fundacional, não a criação do mundo, mas a criação da consciência. Mais tarde, a morte do tio Claude não é compreendida como fim, mas como ausência incompreensível; o encontro no lago, quando Amélie “morre” simbolicamente e conversa com a avó, assume contornos de experiência espiritual no sentido mais primitivo, onde o além existe porque a criança precisa dele para organizar a perda. O filme dialoga com o xintoísmo ao tratar a água, os peixes e a natureza como espaços de passagem e revelação – e é nas águas, sempre elas, que Amélie encontra tanto o afogamento simbólico quanto a possibilidade de renascimento.

A relação com Nishio-san é terna e doce, fazendo relembrar momentos próprios de infância e refletir como relações interculturais nos moldam. Mas o filme peca no equilíbrio do tom: o sentimentalismo às vezes derrapa para o piegas, e quando tenta ser sério, só se compromete pela metade. Durante um flashback de guerra de Nishio-san, a panela transborda enquanto ela relembra explosões e escombros – na forma, é maravilhoso; no tom, surge esporadicamente, com distanciamento emocional inesperado.

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Kashima-san, por sua vez, é subdesenvolvida, sabemos sua postura, mas não sua história, deixando para a empatia do público enxergá-la como traumatizada. Além disso, o aspecto literal da obra, por vezes, incomoda. Mesmo transbordando simbolismos, diálogos e narrações são excessivamente mastigados, expondo em vez de sugerir. O ritmo episódico, fragmentado e quase memorialístico, torna-se repetitivo e cíclico, sem uma crescente narrativa até o desfecho – o que pode frustrar expectativas tradicionais, embora seja coerente com a proposta de que a vida, nos primeiros anos, não se organiza em atos dramáticos, mas em flashes que se acumulam até formarem quem somos.

No mais, Pequena Amélie domina a nostalgia, transformando o Japão em um parque de encantamento através dos olhos da protagonista, e seu romantismo é um lembrete das bases divinizadas de sua história. É uma animação acessível – vi em uma sessão com várias crianças – mas sem nunca abdicar da profundidade das influências interculturais na criação, uma viagem pela perspectiva formativa de uma criança que exige entrega do espectador, mas recompensa com uma experiência rara no cinema de animação contemporâneo.

Para quem aceita seu ritmo, sua delicadeza e sua estranheza, o filme se impõe como um retrato profundamente humano da infância – não como paraíso perdido, mas como território de descobertas dolorosas e encantadoras, onde cada sensação deixa marcas que carregamos para sempre. Uma terna e por vezes melancólica viagem no tempo que todos nós já vimos partir há muito, e que só podemos reviver através de crianças como Amélie, que nos ensinam a mergulhar novamente nas águas profundas do começo da vida.

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