Crítica | A Pequena Amélie: o despertar da consciência nas águas profundas da infância
Mares Filmes/Divulgação

Crítica | A Pequena Amélie: o despertar da consciência nas águas profundas da infância

Existe uma certa santidade nos primeiros anos. Os japoneses têm uma palavra para isso – okosama, “criança-senhor” – e ela carrega a crença de que, até os três anos, a criança habita um reino divino, descendo deste apenas quando a idade a alcança. A Pequena Amélie começa exatamente aí: no limiar entre o céu e a terra, nos olhos de uma menina que demora a falar não por incapacidade, mas talvez porque ainda esteve ocupada com outros mundos.

Loïse Charpentier empresta o corpo e o rosto a essa pequena Amélie, terceira filha de diplomatas belgas no Japão dos anos 1970. Terceira filha. O número três, esse número sagrado que os antigos associavam à totalidade – passado, presente e futuro; nascimento, vida e morte –, aqui se desdobra em camadas; a terceira criança de uma família, os três anos que separam deuses de mortais, o triângulo afetivo que se forma entre a menina, sua babá Nishio-san e a severa proprietária Kashima-san.

A menina observa. É o que as crianças fazem melhor, e o que este filme dirigido por Maïlys Vallade e Liane-Cho Han compreende com delicadeza. Quando finalmente a fala chega – despertada por uma mordida de chocolate branco belga, numa cena que faz sorrir qualquer um que já testemunhou a urgência de uma criança diante do açúcar –, Amélie já carregava dentro de si um mundo inteiro. O aspirador de pó é uma fera magnífica. A chuva que escorre pelas vidraças desenha mapas de reinos imaginários. O irmão mais velho, com suas provocações típicas, merece o silêncio como resposta.

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A animação em 2D, generosa e acolhedora, não tenta competir com os artefatos digitais que hoje povoam as telas. Prefere o traço que lembra a mão, a aquarela que se espalha como as memórias se espalham – sem contornos definidos demais, porque a infância também é assim; uma névoa dourada onde algumas coisas brilham mais. O Japão que emerge dessas imagens é menos um país do que um estado de espírito, um parque de encantamentos onde o cotidiano transborda em magia.

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Mas há sempre o peso do mundo adulto, mesmo nos filmes sobre crianças. Kashima-san carrega uma guerra dentro de si – explosões que não se veem, mas se pressentem na rigidez com que impede a babá de criar laços com a menina. Nishio-san, a governanta que se torna segunda mãe, tem suas próprias memórias de escombros e fome, que emergem num momento de cozinha: a panela transborda, as mãos continuam a misturar o arroz, e o espectador sente o abismo entre a lembrança e o gesto cotidiano.

A relação entre Amélie e Nishio-san é o coração do filme. Victoria Grosbois interpreta essa babá com uma ternura e nos devolve, a cada um, nossas próprias babás, nossas próprias segundas mães, nossas próprias pontes entre culturas. Porque é disso que se trata, afinal, de como uma criança belga no Japão aprende a ser gente através dos olhos, das mãos e da língua de uma mulher japonesa. De como o amor prescinde de nacionalidades.

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O filme tropeça às vezes no próprio sentimentalismo. A doçura derrapa para o açúcar, onde a comoção pedida é maior do que a conquistada. Kashima-san, em especial, permanece uma figura de contorno frágil – sabemos sua função na história, mas não sua humanidade. O filme nos pede que a compreendamos sem nos dar as ferramentas para isso, como se o trauma da guerra fosse explicação suficiente e não o começo de uma conversa.

Seu formato mais episódico de uma memorabilia infantil também nos oferece cenas memoráveis. A lentidão inicial de Amélie para falar. O deslumbramento diante do primeiro chocolate. A birra que não tem limites porque, aos três anos, não há ainda a razão para conter a tormenta. A chuva, sempre a chuva, que dá título ao filme no original e que aqui é marca, desenho, destino – essa água que cai do céu dos deuses para o chão dos mortais, lavando e molhando e fazendo crescer.

À infância, ao Japão, às trocas culturais que nos formam sem que saibamos, às mulheres que cuidam de crianças que não são suas. É também um lembrete de que todos nós já fomos deuses por três anos, antes de descer ao mundo das palavras e das obrigações. Vê-lo é revisitar esse tempo – ainda que não rememoramos de verdade – em que o aspirador era um dragão e a chuva, um milagre.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.