Crítica | A Vizinha Perfeita: odiar crianças negras virou legítima defesa
Netflix/Divulgação

Crítica | A Vizinha Perfeita: odiar crianças negras como legítima defesa

A Vizinha Perfeita é um título tão despretensioso que até o espectador mais desavisado consegue imaginar o quão angustiante será o filme que está prestes a ver. Desde a morte do jovem adolescente Trayvon Martin em 2012, nas mãos de George Zimmerman, um homem armado na Flórida, as leis de legítima defesa (conhecidas como ‘Stand Your Ground’) têm sido amplamente debatidas na política e na mídia. Mas, como a maioria dos debates nos Estados Unidos (EUA), isso nunca costuma levar a qualquer tipo de solução.

Tiroteios em massa, massacres em escolas e até tentativas de assassinato continuam a acontecer no país sem serem devidamente enfrentados pelas principais lideranças governamentais. O preço da tal “liberdade” é uma falta de segurança alarmante para os mais vulneráveis entre nós, e mesmo as tentativas mais modestas de lidar com a epidemia de violência armada nos EUA são sufocadas ainda no berço.

É dentro desse cenário que se insere A Vizinha Perfeita, dirigido por Geeta Gandbhir. O filme reconstitui um caso ocorrido em 2022, na Flórida, quando uma mulher branca passou meses acionando a polícia para denunciar crianças negras que brincavam nas proximidades de sua casa. Segundo ela, os jovens causavam perturbação. Segundo todos os outros moradores, não havia nada de errado acontecendo.

Crítica | A Vizinha Perfeita: odiar crianças negras virou legítima defesa
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Geeta constrói seu documentário com restos. Restos de imagens de celular que os vizinhos gravaram sem saber que estavam fazendo cinema. Restos de ligações para a polícia arquivadas em algum servidor público. Restos de depoimentos que os agentes registraram quase por obrigação, enquanto pensavam no café ou no fim do expediente. E desses restos ela monta um retrato completo de como uma comunidade vai sendo consumida aos poucos por uma presença hostil.

Susan aparece nas imagens como alguém que aprendeu a usar o 911 como arma. A cada reclamação, os policiais vão até lá, conversam com as crianças, confirmam que não há nada de errado, anotam no relatório e vão embora. Na sétima ou oitava vez, já se conhecem pelo nome. Os agentes cumprimentam os meninos, perguntam da escola, comentam sobre a partida de futebol na véspera. É quase uma visita de rotina. Quase.

O que impressiona no filme é como a diretora não precisa apontar nada. As imagens falam sozinhas. Vemos as mesmas crianças no começo do registro – pulando, correndo, rindo alto – e as vemos meses depois – mais contidas, olhando para os lados antes de soltar uma bola, perguntando em voz baixa se “ela” está na janela. A vizinha perfeita conseguiu, sem nunca tocar em ninguém, o que poucos conseguem: silenciar uma garotada inteira.

Quando Ajike Owens resolve ir até a porta de Susan para pedir que parem de perseguir seu filho, ela não está armada. Não está alterada. As imagens não mostram, mas os depoimentos dizem: bateu na porta como qualquer mãe bateria. Queria conversar. Do outro lado, uma mulher que passou meses acumulando raiva de ver crianças negras brincando perto de sua casa decidiu que a conversa seria com um tiro.

Crítica | A Vizinha Perfeita: odiar crianças negras virou legítima defesa
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O julgamento que condena Susan poderia ser o alívio da história. Mas A Vizinha Perfeita não termina ali. Termina naquela calçada, com as crianças tentando entender o que fazer com o corpo da mãe do amigo caído no chão. Termina com os policiais, os mesmos que tantas vezes vieram e foram embora sem fazer nada, agora tendo que explicar para uma menina de vestido colorido por que a ambulância demora.

Gandbhir não coloca texto na tela pedindo mudanças na lei ou citando estatísticas. Ela mostra o que já estava lá, gravado, disponível, ignorado. O filme é um lembrete de que, enquanto a gente debate controle de armas e racismo estrutural em programas de TV/internet e textos acadêmicos, tem criança que aprende cedo demais que brincar na própria rua pode ser perigoso. Tem criança que descobre que existe gente que odeia tanto que atira sem abrir a porta.

Crítica | A Vizinha Perfeita: odiar crianças negras virou legítima defesa
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A vizinha perfeita. É assim que Susan se descreve em uma das ligações, quando reclama que as crianças não respeitam seu jardim. Gandbhir pega fragmentos dispersos de um cotidiano interrompido e os organiza em uma narrativa que nos obriga a testemunhar o que preferiríamos ignorar. Resultando em um filme que incomoda, que pesa no peito e que nos deixa com uma pergunta incômoda pairando no ar: até quando o cinema precisará servir de memorial para aqueles que o Estado insiste em esquecer?

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.