Crítica - Assassinos da Lua das Flores já é um clássico de Scorsese

Provando ser o maior cineasta vivo, Martin Scorsese, aos 80 anos, optou sair da zona de conforto por enxergar além da superfície e mudar o foco em um filme relatando uma série de crimes. Em Assassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon), o cineasta traz praticamente todas as marcas que o consagraram, mas com um frescor novo, em um filme tão vocal no tom denunciativo. O que poderia ser mais um filme de gangster, é, na verdade, um épico que trata a história e um povo com delicadeza e respeito.

Um recorte de uma América vitoriosa

Inspirado no livro de mesmo nome, a trama do acompanha uma história de ganância que caiu sobre a nação indígena Osage, então alocada no Oklahoma, nos Estados Unidos (EUA). No início do século XX, eles foram considerados o povo com a maior renda per capita do mundo devido à quantidade de petróleo em suas terras e os acordos de concessão do governo. Isso acabou atraindo diversos homens brancos aproveitadores para a região.

De acordo com o livro, entre 1921 e 1926 estima-se que cerca de 60 membros da nação Osage tenham sido assassinados em função de interesses financeiros diretos ou indiretos de indivíduos brancos na região. O período ficou conhecido como “Reino do Terror”, que além de ter estabelecido um genocídio e literalmente expulsando os Osage de suas terras, também ficou marcado pelo total descaso sobre os assassinatos e falta de interesse público em investigá-los. Mais uma história sobre a América vitoriosa e rica sob o sangue de outrém.

Em Assassinos da Lua das Flores somos introduzidos nessa história justamente quando Ernest Buckhart (Leonardo DiCaprio) chega na região. Ele é sobrinho de Bill Hale (Robert De Niro), um fazendeiro muito rico e ótima relação com os Osage. Trabalhando como motorista de Mollie (Lily Gladstone), Ernest parece se interessar na nativa. A relação é incentivada por seu tio, não por ele gostar dos Osage, mas pelas terras que ela possui.

Ela é o coração do filme

Apesar de contar com os dois atores com parcerias mais longevas, o grande destaque do longa é de Lily Gladstone, a atriz nativo-americana é o coração do longa. No decorrer das mais de três horas de filme, ela passa por uma montanha-russa de emoções, sendo doce, complacente e muito forte. Scorsese escolheu a personagem para representar que, embora possa parecer, os Osage não são ingênuos e sabem que seus relacionamentos – seja de amizade ou amoroso – com homens brancos são movidos pelo dinheiro.

Por falar em atuação, não é novidade nenhuma que Scorsese conduz os atores como poucos na história e em Assassinos da Lua das Flores não é diferente. Todos estão muito bem servidos com um roteiro cheio de diálogos inteligentes. Apesar de tratar de temas pesados como os limites da ganância e violência, os diálogos trazem sacadas geniais, muitas vezes cheias de tiradas com humor sarcástico.

Seu casamento com Ernest é uma bússola moral que o cineasta cria. Afinal, se foi convencido pelo tio que deveria ser casar com uma nativa ele realmente ama Mollie? Esse tom de cinza se dá justamente pelos tons de cinza que o persongem do DiCaprio ganha no filme. Ele é um turrão, pouco inteligente, bastante influenciável e até mesmo ingênuo. Comete atrocidades ao mesmo tempo que demonstra amar sua esposa e filhos.

Por fim, Hale de De Niro é um clássico personagem do Scorsese. Um malandro carismático. Com muito poder e um perigo eminente para qualquer um. A partir do ator, o diretor utiliza de manejos de roteiro e direção marcantes de sua extensa filmografia.

Se foi de propósito eu não sei, a utilização dos três personagens parece ser uma representação da história dos filmes de Scorsese. De Niro, o clássico, DiCaprio seus filmes no século XXI e Gladstone o futuro. Embora com 80 anos, espero que ele volte a trabalhar com ela, que já é uma das malhores – senão a melhor – personagem feminina de toda sua carreira.

Tempo não é o problema

As quase 3h30 de duração de Assassinos da Lua das Flores não é um empecilho que impedirá a ida ao cinema. Embora o tempo possa assustar alguns, o material é muito extenso e rico. E acredite, Scorsese ainda teve que fazer um recorte para que esse filme não se tornasse ainda maior.

A construção do mundo e os assassinatos são mesclados entre o filme e gravações e fotos de época do povo Osage. Além disso, o longa tenta lembrar seus espectadores o que também está acontecendo nos EUA naquele período histórico.

Ao mesmo tempo que os Osage são vítimas de assassinato, somos lembrados do massacre em Tulsa, também ocorrido em Oklahoma. O crescimento dos movimentos de supremacistas brancos por meio da Ku Klux Klan e a criação do FBI, responsável pela investigação desses assassinatos em série.

Refino técnico

Em um filme grandioso, não só na duração, como em proposta narrativa, alguns aspectos técnicos se destacam. Tão importante quanto o trabalho de Scorsese, a lendária Thelma Schoonmaker está inspiradíssima, dando o tom e conduzindo o ritmo desse longa, que passa por momentos de conteplação, montagens de uma série de assassinatos e uma trama de tribunal. Schoonmaker se destaca tanto que chega a ofuscar a direção de fotografia de Roberto Prieto (Barbie), e a trilha sonora de Robbie Robertson (O Irlandês), que são extremamente competentes, mas discretas.

Pietro busca por algo naturalista, com tons terrosos e evita o famoso “filtro amarelo”, que geralmente é utilizado por longa-metragens estadunidenses para representar minorias latinas e indígenas. Com muitos planos abertos, o filme ganha esse tom de ser um épico, que junto com a utilização de travellings (quando a câmera “viaja” nos cenários), dando noção espacial das residências e da região que acontece o longa.

Já a trilha de Robertson é bastante discreta. É pontual e foge dos clichês de velho oeste ou grandes temas orquestrados. A ideia de ser um longa cru, que vai do roteiro, da atuação e fotografia foi respeitado pela música, que nunca se descata, só pontua e acentua os demais aspectos técnicos do longa.

Doença do homem branco

Reconhecido como um dos maiores diretores de todos os tempos, Martin Scorsese ousa em Assassinos da Lua das Flores. Não existe romantização do homem branco, seja por parte de um homem influenciável Ernest, como pelos agentes do FBI, que chegam tarde demais. Na verdade, assim como um personagem diz, o diretor denuncia a “doença do homem branco”. Afinal, se a história é contada pelo ponto de vista dos colizadores, o cinema pode – e deve – contar pela perspectiva dos povos originários. Poucos entedem tanto quanto Scorsese que o cinema é uma arma poderosa e ele resolveu atirar.

Como um lição que nunca é tarde para aprender, o diretor utiliza do epílogo para tomar uma decisão muito corajosa ao fazer um comentário metalinguístico sobre como essas narrativas usurpadas pelo homem branco são nocivas. Após assistimos mais de três horas de uma tragédia, quem nos conta o destino dos personagens do filme é um bando de homens brancos numa dramatização em áudio. O último deles, sendo o próprio Scorsese, como se uma autocrítica à sua própria carreira, enquanto lê o obituário de Mollie.

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