Existe um momento na vida de muitos casais em que surge uma encruzilhada silenciosa. A rotina se instala de tal forma que já não está claro se aquelas duas pessoas continuam verdadeiramente juntas ou apenas coexistem no mesmo espaço. O que antes era um caminho compartilhado passa a parecer duas trajetórias paralelas. Às vezes, a única saída parece ser apertar o botão de reset – recomeçar em outra vida, outra rotina, agora dividindo o tempo com os filhos e com as lembranças do que foi.
Essa é a premissa de Isso Ainda Está de Pé?, terceiro longa dirigido por Bradley Cooper. Estrelado por Will Arnett e Laura Dern como Alex e Tess Novak, o filme acompanha um casal com filhos que decide se divorciar depois dos quarenta – uma separação aparentemente amigável que, como tantas outras, revela ser mais complexa do que parece.
Inspirado livremente na vida do comediante britânico John Bishop, o longa parte dessa ruptura para investigar algo mais amplo: como lidamos com nossas expectativas frustradas e o quanto tendemos a projetá-las em quem está ao nosso lado.
O filme tem todos os elementos que você espera encontrar em uma história sobre divórcio, o casal falhando miseravelmente em esconder o novo status dos filhos e amigos; cenas em que cada um desabafa sobre os problemas com um confidente excêntrico; e momentos que capturam a mistura de ansiedade e excitação de quem volta à vida de solteiro, acompanhada do inevitável ciúme do ex-parceiro ao descobrir.
Por sorte, Isso Ainda Está de Pé? é justamente o tipo de filme capaz de renovar situações batidas. Cooper cria personagens complexos e críveis e os coloca em situações ao mesmo tempo, universais e extremamente específicas. Há, por exemplo, a clássica cena em que um dos ex-cônjuges pede ao outro, de última hora, que cuide das crianças para aproveitar uma oportunidade inesperada. Mesmo tendo um encontro marcado naquela noite, o ex-parceiro aceita – mas terceiriza a tarefa para os avós. A reviravolta é que o “encontro” em questão não é com uma pessoa, e sim com um lugar: um clube de comédia.
Alex trabalha com algo vago “no mercado financeiro”. Uma noite, vagando deprimido pelo West Village, entra por impulso em um bar onde acontecem apresentações de stand-up. Sem dinheiro para pagar a entrada, coloca seu nome na lista de amadores para entrar de graça. Sua primeira apresentação é desastrosa: o material basicamente se resume a “Oi, estou me divorciando e é uma droga”, e as pausas são longas o suficiente para assar um bolo. Ainda assim, surge uma piada razoável aqui e ali – e uma qualidade crua e despretensiosa que agrada à plateia. Os outros comediantes concluem que ele não é um caso perdido.

Ele volta na semana seguinte. E na outra. Logo está ensaiando piadas no quarto e anotando ideias em folhas soltas guardadas em um fichário. O que começa como um impulso meio desesperado se transforma em um hobby que o ajuda a atravessar a separação – e que também causa estranheza entre amigos e familiares. Arnett constrói Alex como um homem em crise de meia-idade que, lentamente, encontra uma maneira inesperada de se recompor ao fazer as pessoas rirem, inclusive de sua própria tragédia.
Enquanto isso, Tess tenta reconstruir a própria identidade. No passado, ela foi uma jogadora de vôlei talentosa o suficiente para chegar à seleção olímpica feminina, mas abandonou esse sonho para viver a vida suburbana de esposa e mãe. Há um ressentimento silencioso nesse sacrifício – algo que ela nunca admitiu, nem para si. Agora, decide tentar se tornar técnica, investigar novos caminhos e retomar contatos antigos.
Entre eles está Laird, um treinador interpretado pelo ex-quarterback da NFL Peyton Manning. Sincero e dedicado, mas não totalmente natural diante da câmera, Manning acaba sendo o elo mais fraco de um elenco que, no restante, é formidável.
Christine Ebersole e Ciarán Hinds interpretam Marilyn e Jan, os pais de Alex. Ela é tão direta que parece causar danos físicos, mas sabe quando abandonar o sarcasmo para acolher o filho; ele é um homem calmo que se refugiou em seus hobbies, irradiando gentileza para quem o rodeia. O próprio Cooper aparece como Balls, melhor amigo de Alex – um ator excêntrico, eternamente otimista e um pouco chapado, mesmo quando não está.
Balls poderia facilmente se tornar um personagem caricatural, mas Cooper – diretor e intérprete – mantém tudo no limite do plausível. Balls nunca soa artificial. Ele parece apenas uma pessoa genuinamente estranha – um bobo da corte cheio de alma. Sempre que aparece, sentimos o humor de Alex melhorar. Em uma cena particularmente bonita, Alex está sentado sozinho numa praia à noite quando Balls surge da escuridão como se tivesse sido invocado, sorrindo porque sabe que fez uma entrada triunfal.

O elenco ainda conta com Sean Hayes e seu marido na vida real, Scott Icenogle, interpretando amigos do casal. As interações entre esse grupo são totalmente convincentes como o comportamento de velhos amigos que se amam, mas percebem – com certa melancolia – que manter o grupo unido exige cada vez mais esforço à medida que envelhecem.
Formalmente, Cooper aposta em longos planos-sequência que reforçam a sensação de presença. Um deles acompanha Alex desde o balcão do clube de comédia, subindo uma escada estreita cercada de gente até o palco no porão, onde assistimos a vários minutos de seu constrangimento diante da plateia antes de qualquer corte. A mixagem de som é igualmente impressionante, com ruídos e vozes recuam ou se intensificam conforme o ponto de vista do personagem, criando uma sensação quase física de estar naquele ambiente.
O estilo dialoga com tradições do neorrealismo, com histórias sobre pessoas relativamente privilegiadas enfrentando crises que, para muitos, seriam luxos existenciais, como mudar de carreira aos quarenta. A diferença é que o filme não tenta disfarçar isso. Apenas observa esse mundo com honestidade.
Nem tudo funciona perfeitamente. Há momentos em que o roteiro explica demais situações que a direção e as atuações já deixavam claras, e alguns desenvolvimentos dramáticos parecem acreditar ser mais surpreendentes do que realmente são. Dern está excelente – sobretudo na segunda metade –, mas a trajetória de Tess acaba ofuscada pela de Alex, porque a dela é mais aspiracional enquanto a dele é ativa: vemos seu progresso passo a passo, enquanto o de Tess é mais frequentemente relatado do que dramatizado.
Ainda assim, são reclamações pequenas diante do que o filme conquista. Acreditamos nas relações, nas amizades e até nas risadas das plateias de stand-up. Acreditamos também que Alex e Tess realmente tiveram algo especial antes de o casamento se desgastar – quando riem das brincadeiras um do outro, não parece atuação, mas duas pessoas genuinamente se divertindo.

No fundo, Isso Ainda Está de Pé? é um filme sobre como lidamos com as expectativas que depositamos em nossas vidas – e, inevitavelmente, em nossos parceiros. Pessoas mudam. Sonhos mudam. O que parecia eterno pode revelar outras formas de permanência. Às vezes, o fim de um casamento não significa necessariamente o fim de uma história, mas o começo de uma nova maneira de compreendê-la.
Seria fascinante ver Cooper aprofundar esse modo de fazer cinema. Em seus dois primeiros filmes – “Nasce Uma Estrela” e “Maestro” — já era evidente sua ambição técnica e seu entusiasmo de aluno aplicado da história do cinema. Aqui, porém, ele parece menos interessado em impressionar e mais em observar. E é justamente nessa simplicidade que encontra uma voz cinematográfica que soa, pela primeira vez, totalmente sua.
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