A primeira vez que um zumbi aparece em Queens of the Dead, coberto de purpurina e com a maquiagem impecavelmente intacta, fica difícil não rir. Não da criatura em si, mas da situação; ali está um morto-vivo de salto alto, arrastando os pés com a mesma dificuldade de uma iniciante no mundo das drags, e ninguém parece especialmente assustado. Talvez porque, no fundo, aquela figura seja mais familiar do que assustadora para os personagens que ocupam a boate. Talvez porque Tina Romero, diretora e co-roteirista, tenha entendido algo que poucos filmes do gênero se atreveram a explorar: o zumbi, em sua essência, sempre foi uma figura profundamente queer.
Não que a herança deixada por George Romero, pai de Tina e padrinho involuntário desta obra, sugerisse isso diretamente. Mas a filha parece ter crescido observando as entrelinhas. Se os mortos-vivos clássicos eram lentos, condicionados e andavam em manadas, representando uma crítica ao consumismo e à massificação social, por que não aproximá-los da experiência de corpos que também são empurrados para as margens, que também ocupam as ruas à noite e são vistos com desconfiança?
A resposta da diretora é entregar criaturas cobertas de glitter, com batom vermelho intacto e uma postura lasciva. São zumbis que, ao invés de causarem pânico, provocam um estranhamento cômico – e, por que não, afetuoso.

No centro dessa confusão está Dre, interpretada por Katy O’Brien com a expressão cansada de quem já enfrentou problemas demais antes mesmo de os mortos-vivos resolverem aparecer. Sua festa está afundando financeiramente, a atração principal, a performer Yasmine (Dominique Jackson), acaba de trocá-la por um evento mais chique, e agora zumbis resolvem atacar a cidade. É o tipo de dia em que qualquer um pensaria em desistir, mas Dre não tem esse luxo. Ela precisa salvar a noite, os amigos e, de quebra, sobreviver. O problema é que Tina Romero parece tão sobrecarregada quanto sua protagonista.
Porque Queens of the Dead tem uma ideia central brilhante, mas se perde no caminho tentando abraçar tudo ao mesmo tempo. Os zumbis, que deveriam ser o grande atrativo, ficam escanteados durante boa parte da projeção, surgindo em momentos aleatórios como se o roteiro se lembrasse subitamente de que precisa deles para justificar o gênero.
Enquanto isso, a câmera se ocupa dos conflitos internos daquela pequena comunidade. Sam (Jaquel Spivey) vai ou não vai se apresentar como sua persona Samoncé? Lizzy (Riki Lindhome) encontrará o momento certo para revelar a gravidez à namorada? Kelsey (Jack Haven) conseguirá reencontrar a esposa Pops (Margaret Cho) no meio do apocalipse? São questões legítimas, mas que competem entre si desordenadamente, como se o filme tivesse receio de escolher um caminho e abandonar os outros.
Tecnicamente, a produção também revela falhas nas suas costuras. A fotografia abusa dos tons neon e das sombras contrastadas, criando uma atmosfera noturna que remete aos filmes de terror de baixo orçamento dos anos 1980 – uma escolha estética coerente, mas que nem sempre disfarça a falta de recursos.

Em várias cenas, os personagens simplesmente param e conversam, sem que a direção saiba exatamente como os posicionar no espaço. A impressão é de que a câmera foi ligada e os atores deixados à própria sorte, gerando uma estagnação visual incompatível com esse cenário caótico. A montagem de Aden Hakimi, por sua vez, demora alguns segundos a mais em cada plano, como se hesitasse em cortar, e essa hesitação transforma cenas potencialmente ágeis em momentos arrastados.
Então acontece algo curioso. No meio da bagunça narrativa, Tina acerta uma imagem que resume todo o seu projeto. Uma personagem transformada em zumbi volta para a mesma gaiola onde dançava quando era viva. Outra retorna ao clube noturno onde se apresentava. A maquiagem mudou, a pele ganhou um tom acinzentado, mas o movimento é o mesmo, o espaço é o mesmo, a performance continua. É nesse instante que o filme encontra sua tese, que a vivência zumbi não transforma essas pessoas muito mais do que a construção prévia de suas identidades já havia transformado. Elas sempre foram vistas como estranhas, sempre ocuparam as margens, sempre performaram para existir. A diferença é que agora a performatividade ganhou uma camada monstruosa literal.
Há ainda uma tentativa de comentário sobre os celulares como dispositivos zumbificadores da nossa geração, mas a crítica chega com a sutileza de uma drag queen entrando no palco durante um número de abertura.

Os mortos-vivos aparecem colados às telas, reproduzindo o movimento de quem desliza o dedo sem pensar, deixando clara a mensagem de que somos todos escravos da validação digital. A questão é que, num universo onde os personagens vivem de palco, performance e aprovação, esse comentário soa menos como crítica e mais como constatação óbvia. Falta a camada extra de complexidade que transformaria a cutucada em reflexão.
O que salva Queens of the Dead do completo esquecimento é o carisma de seu elenco e a leveza com que a diretora encara seu próprio material. Ninguém ali parece levar a sério a ideia de um apocalipse. Os zumbis são apenas uma desculpa para reunir aquelas pessoas mais uma vez, para fazê-las conversar, brigar, se reconciliar e, no fim, dançar.
Quando o mundo está desabando lá fora – algo que nunca vemos, porque o orçamento não permite e porque, no fundo, isso não importa – os personagens se viram uns para os outros, ligam o som e simplesmente celebram. É um gesto absurdo, sim, mas também absurdamente humano. Ou, pelo menos, profundamente queer; romper com as normas, recusar o desespero e afirmar a própria existência. Se isso não é uma metáfora para a experiência de ser diferente em um mundo hostil, talvez nunca tenhamos entendido nada sobre zumbis.
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