Se dividindo entre Fortaleza e São Paulo, a Jangada Pirata vem trabalhando em seu álbum de estreia, Sal de Casa, desde 2020. Entre idas e vindas de um processo criativo que não foi fácil, Cecília Mesquita (voz), João Vitor Fidanza (guitarra), Ricardo Arraes (baixo) e Jefferson Castro (bateria) foram encontrando os próprios caminhos para dar forma ao som que reflete essa ponte entre a bagagem cultural cearense e o caldeirão urbano paulistano.
Nesta entrevista, os três integrantes falam sobre as inspirações para o disco; a dinâmica de funcionamento da banda entre dois estados diferentes; os desafios durante o processo de gravação; o início e o encontro entre eles; e refletem sobre o cenário musical de Fortaleza e as perspectivas de futuro para bandas independentes com as discussões em torno das novas tecnologias. Leia a seguir.

CG: Como foi o processo de gravação e a dinâmica de vocês no estúdio?
Cecília: A gente já vinha trabalhando há um tempo como banda. A gente chegou a gravar um EP em 2020. E quando a gente gravou esse EP, a gente já tinha uma leva grande de músicas que a gente queria trabalhar. Então, desde 2020, considero que a gente tá trabalhando, às vezes, até antes, né, gente?
Fidanza: Talvez, um terço do álbum seja de coisa dessa época, ainda. E aí foram surgindo as outras, né, ao longo dos anos aí. Mas, basicamente, a gente compõe meio que, assim, né… Em 2020 você vai pra São Paulo, então…. É um ponto importante. A gente virou banda AD.
Cecília: Mais ou menos, vai. Semipresencial. Quando a gente tava gravando, terminando de gravar o EP, aconteceu de eu mudar pra São Paulo. Vim estudar, enfim, vim morar aqui. Desde então, cá estou. E… É isso que a gente tava falando. Mudou a dinâmica 100%. Caraca, a gente continua? Sendo que tudo que a gente trabalhou nesse tempo, a gente gosta muito, tem um carinho muito grande por todas essas músicas. Então, a gente optou por realmente seguir, né? Seguir junto e trabalhar junto. Além das músicas, né, gente? Acho que tem uma coisa muito importante aqui, que a gente se gosta, né? A gente é muito amigo, e acho que isso é importante também.
Ricardo: E aí, a pandemia também, nessa época, meio que disponibilizou… Forçou, né? A gente… Uma série de profissionais, a se adaptarem aos meios digitais. Então, a gente também entrou nessa jogada. Não somente as composições, a lógica das composições mudaram, mas também como é que a gente divulgaria a banda através de shows virtuais, ou então fazendo sessões gravadas? Então, de vez em quando, a Cecília também vinha aqui pra Fortaleza, e sempre é um tempo que a gente aproveita pra fazer muita coisa, né? Nessa época aí, no finalzinho de 2020, quando estava um pouco mais ok a pandemia, todo mundo de máscara, a gente decidiu fazer uma sessão gravada ao vivo. Tem no YouTube. E a gente aposta muito nos materiais digitais mesmo, visuais, pra meio que preencher esse espaço também da distância. O show realmente fica pra quando a gente só realmente se encontra numa viagem.
Cecília: O que torna mais especial, viu? Quando a gente se encontra. Torna muito especial.
Fidanza: Basicamente foi isso, né? De 2020 pra cá, a gente ficou jogando ideia online mesmo. A Cecília mandava alguma ideia de violão e voz. E a gente achava legal. “vamos trabalhar isso aqui”. Aí ela gravava ali uma guia, num programinha lá de áudio. E aí começava a explorar esse som juntos. Isso aí encaixava outras coisas. E meio que foi formando assim. Uma música ou outra surgiu quando a gente tava junto. Acho que talvez duas. “Bandeira” e “Mentes”. A gente junto lá, gravando coisas. Numa semana que a Cecília tava aqui em Fortaleza, saiu algumas músicas. Ou ela mandava, ou o Rikas mandava alguma ideia, ou eu. E a gente se empolgava e ia fazendo.
Cecília: Eu acho até que foi importante a mudança nessa dinâmica. Porque eu acho que a gente meio que trouxe, querendo ou não, uma seriedade a mais pra essas produções. A gente já, como regra, sempre, desde então, a gente grava guia. Tudo que a gente faz já vai deixando meio no clique. “Ah, vamos gravar uma coisa aqui, uma ideia aqui, acolá.” Eu acho que isso, pra gente, como banda, foi um amadurecimento incrível. De verdade. Esse álbum todo foi um grande aprendizado.
Ricardo: Se eu puder complementar também. Tal hora a gente viu as músicas, elas estavam falando sobre sentimentos… Que é tudo isso que a gente tava falando aqui, né? O fato da distância, o fato de uma saudade de casa, o companheirismo, a amizade, a dor de estar longe. Enfim, tem muitos temas. E aí a gente decidiu que esse tema do álbum, ele girasse em torno do sal de casa. Que pode ser até uma brincadeira com sal, de saudade. E o sal que é a gente dividir um pacote de sal com amigos. Você sabe que a pessoa é muito amiga sua quando acaba um sal, um pacote inteiro de sal com ela. [risos] Então acho que é basicamente nessa história aí. E sal também porque sal lembra um bar, né? Então gira em torno disso. Eu tava pensando um dia desses, que a gente tem muita saudade, né? Muitas palavras que falam de saudade, e quando a gente vê o sal, sal de casa, acaba trazendo nessa perspectiva. Pra gente ser amigo, mano, tem que acabar. Tem que acabar o pacote de sal.
CG: O som de vocês tem muitas referências. Muito rock dos anos 60. música brega, que é uma coisa muito presente no Ceará, no Nordeste como um todo, né? rock progressivo. Vocês também fazem muita referência ao mar. Tem muita essa coisa do mar no disco e me remeteu muito a Dorival Caymmi. Até pela forma poética que vocês falam do mar. Queria entender mais sobre as referências de vocês pro álbum.
Ricardo: Eu vou jogar logo pra jogo aqui que Dorival Caymmi tem tudo a ver com essa moça aí, né? Ela é uma grande admiradora desse cantor, desse violonista. E ela traz.. Ela vai explicar melhor, óbvio. Mas a minha percepção é que ela traz… Isso também, sim. Ela traz muitos desses elementos. Dorival, a gente consegue identificar muito.
Cecília: Acho que sim. Nós três temos referências distintas, mas que ao mesmo tempo, em algum momento, elas se conversam. Acho que isso faz muito parte da criação desse som. Eu, por exemplo, tenho muita referência em Brasilidade. Dorival é um maravilhoso que eu acompanho muito. Aquelas grandes vozes da rádio, sei lá, Elza, até mesmo a Nana Caymmi, enfim. São referências muito grandes, assim, na hora de criar. Eu acho que vem muito também desse resgate, dessa memória de músicas que eu ouvi, cresci ouvindo. Então, também entra um pouco nesse sal, nessa mistura aí que a gente vem trazendo. E aí vocês podem falar um pouco mais sobre esse som mais do rock progressivo, que eu acho que bebe muito mais de referência de vocês dois aí.
Fidanza: A Cecília traz muito disso, de Brasilidades. E acho que eu e o Ricas, a gente traz mais ali tanto a parte do progressivo como o hard rock. Então, assim, imagina o Ken Crimson, Pink Floyd, até Led Zeppelin. Acho que eu acabo trazendo um pouquinho de Stone, também pra bagunça, um Queens of Stone Age da vida. Umas coisas meio neoblues também, que eu curto.
Ricardo: Eu gosto muito de viajar nos teclados de vez em quando também. Nesse álbum a gente tem uma ajuda muito massa nos sintetizadores com o Felipe Couto, na produção, e somou muito. Também a questão do psicodélico, do progressivo. Acho que bebe do psicodélico e do progressivo. E também do brega. Até por causa dos timbres. Dos sintetizadores, dos teclados. Casou muito bem.
Fidanza: E o brega eu vou ter que citar aqui, Cidadão Instigado. É uma banda daqui do Ceará. Que é uma influênciazona incrível pra gente. Eu acho que é uma banda muito incrível. E é muito massa eles serem daqui. Eu fico de cara, caramba, eles estão bem aqui. De vez em quando eu vejo o [Fernando] Catatau na rua, o vocalista. É muito doido isso, cara. Já que tu citou do Felipe, eu queria só explicar. O Felipe Couto é um artista daqui, produtor. Ele produziu esse álbum. A gente produziu com ele. Ele fez a produção desse álbum no estúdio dele. E fez também acrescentou parte desses teclados. Além dos que a gente já tinha trabalhado, por conta própria. E também inseriu bastante coisa dele. E foi massa a participação dele. Fez um diferencial grande mesmo.
Ricardo: Ah, a gente esqueceu de falar uma coisa. A gente tem meio que tem um QG, assim, de produção do álbum, onde a gente se inspira, que é numa praia aqui, perto de Fortaleza, que se chama Aquiraz. E meus pais têm uma casa de praia lá e constantemente, sempre quando dá, mesmo que seja só eu e o Fidanza, ou então quando a Cecília tá aqui e dá tempo, a gente vai lá. E boa parte das músicas… Aliás, eu diria, assim… 90%, assim, da ideia, foi desenvolvido lá. E as que estão por vir ainda. Estão guardadas aí na gaveta.
Cecília: E além disso também, acho que no âmago, né? Jangada pirata, traz muito essa relação com o mar, né? Então, acho que não tem muita saída. Acho que a gente sempre falou um pouco desse ar meio bucólico, assim, de viver em Fortaleza, e ao mesmo tempo da beleza que é viver, sei lá, num caos urbano, mas que ao mesmo tempo é rodeado pelo mar, né? Acho que a cidade é um poema em si, né? Acho que a gente pega muito a referência dessas vivências na própria cidade também.
CG: É até a minha próxima pergunta. Da relação de vocês com o mar. Justamente por causa dessa coisa tão presente no disco, do mar.
Ricardo: Foi muito sem pensar, né, gente? A gente não chegou e disse “Vamos fazer uma banda, que a gente fale de mar”.
Cecília: Hoje, nessas novas composições, a gente tem até se policiado mais. “Pô, cara, falando de mar de novo, hein?” [risos] Mas eu acho que o mar, ele traz já essa ideia do que a gente fala em geral. Um pouco de saudade dessas sensações. O mar à noite, é um silêncio, é um bucolismo, mas ao mesmo tempo, de dia ele traz uma energia, e são várias faces que ele traz. Pelo menos pra mim, quando eu penso no mar, sei lá, eu resgato muitas memórias. Eu cresci na praia, eu cresci, tipo, tomando banho de praia, na areia, correndo, catando conchinha, sabe? Então é muito também essa ideia do afetivo. Eu acho que faz parte também.
CG: Como que foi o processo de composição? Achei as letras muito íntimas, falando justamente de lembranças da infância e sentimentos nesse sentido.
Cecília: Acho que a maioria das músicas surgiu na pandemia mesmo. A gente terminou de gravar um EP, e aí surge a oportunidade de eu me mudar. Beleza, eu me mudei. Duas semanas depois: pandemia. Então eu tava na Cidade Nova, o caos de São Paulo. Tava morando em uma região hospitalar, onde eu via ambulância. 24 horas, era caos. Tem até a música que é… Qual é aquela?
Ricardo: Vai Sofrer.
Cecília: Vai Sofrer, essa música. Ela fala também muito de saudade de casa. Então, eu acho que tá nesse ambiente e ao mesmo tempo resgatar essas memórias do lar, do sal, de casa, trouxeram um certo conforto, assim, nesse momento caótico da existência humana, que a gente meio que não tinha certeza. Ah, vai durar uma semaninha? Quarentena? Um mês, no máximo. Cadê? A gente virou dois anos, um pouco mais, né? Até hoje a gente ainda vive um pouco do que foi esse processo da pandemia. Então foi um processo muito intenso e muito também de voltar pra si. Eu nunca tinha morado longe da casa dos meus pais, nunca tinha saído da casa dos meus pais, então morar só, num apartamento novo, na cidade nova, tudo diferente e no caos mundial, acho que isso contribuiu, também pra criação dessas músicas. E acho que eu encontro essas letras muito num lugar também, como já falei, de resgate da afetividade. Assim, tipo, é um conforto. Às vezes é uma música triste, mas ela me traz um conforto, porque traz uma memória de uma situação feliz, sabe, querendo ou não. Então, acho que a maioria dos processos foram assim. De letra, pelo menos. Mas na composição em geral, a gente trocou muito de meeting, de videochamada. A gente conseguiu ficar muito junto mesmo mais distante. E a gente ia trocando áudio, mandava pro outro, e quando dava, a gente se encontrava. Eu fui pra Fortaleza, a gente foi pra Aquiraz, na casa de praia, a gente ficou lá, num retiro espiritual. Acho que a gente gosta mesmo de fazer isso, sair da cidade, esquecer que existe e focar realmente só nas músicas. Acho que a gente teve bastante tempo com esse álbum.
CG: Queria saber mais também sobre “Tenho Sonhado com o Mar”. Por quê eu achei essa a música que mais representa o álbum. Tanto nessa questão do mar que volta. Tanto na questão da nostalgia, que acho que é a mais explícita aqui.
Cecília: Bom, acho que a gente volta para 2020 ali também. Acho que a letra, ela fala… “Tenho Sonhado com o mar […] Meus olhos não querem ver mais sombras e prédios.” Acho que é isso. Estava rodeada de prédios em São Paulo. Caramba, eu queria estar no mar.
Ricardo: Eu lembro dela. Eu lembro que na Aquiraz a gente desenvolveu a segunda parte, uma parte B dela também. E você fez a letra lá na hora, né? A Cecília, ela tem um caderninho de coisas, no celular, talvez, que ela tenta encaixar de vez em quando. De acordo com o sentimento da música.
Fidanza: Mas muita coisa surge na hora. Isso é massa também.
Cecília: É um download, né? Tem uma galera que fala, não sei quem foi que falou isso, mas que eu ouvi em algum lugar. Quando você tem uma ideia, ela vai para o mundo das ideias. E se você não põe no papel, não faz o download dela, alguém vai pegar essa ideia. Então a gente vai escrevendo, vai gravando, vai fazendo. Vem coisa boa. Às vezes sim, às vezes não também. Mas é uma música que é importante pra esse período.
Fidanza: Engraçado tu falar que essa música “Tenho Sonhado com o Mar”, meio que representa o álbum. Porque eu acho que todo mundo tem opinião diferente sobre qual é a música que representa. Isso é muito curioso.
Cecília: No conceito, eu acho que ele tem razão, do Sal de Casa.
Ricardo: Você olha a letra, é isso, né? Resume. O fato interessante dela é que quando a gente tava eu e o Fidas pra fazer o solo dela, o Fidas desenvolveu o solo e a gente pegou referências. Então a gente vai pesquisar também algumas referências, coisas que existem. Eu lembro de ter botado pra jogo “vamos escutar ‘Dear Prudence’ dos Beatles, do álbum branco”. E a gente tentou encaixar ali e foi uma referência importantíssima. E você vai notar um quê ali. Um crescendo interessante que a gente faz.

CG: Como vocês se conheceram. Como a banda começou?
Cecília: Eu criei uma narrativa pro início da banda. A banda só existe por conta do Tinder. Se não fosse isso, a banda não existiria. E o que acontece? Eu conheci um cara que é meu companheiro até hoje. 2018, não foi? Acho que foi por aí, 2017, 2018. Aquele match no Tinder, na época do início. Ele morava com um guitarrista. Aí eu conheci um baterista que era o Cicinho, o nosso querido, grandíssimo, o primeiro baterista da banda. E ele tocava com o Ricas no Nightgirl, que era uma banda super legal aqui de Fortaleza, super jovem. E ele falou assim: o Ricas é o melhor baixista que eu conheço, esse cara é foda. O Cicinho era maravilhoso. E aí entre idas e vindas mudanças de formação, tal dia a gente decidiu ir pra São Paulo e tava faltando um guitarrista. Aí o outro, antigo guitarrista da banda, viu o Fidanza tocando no show, cara, vamos lá! Vamos pra São Paulo com a gente? E o Fidanza, louco, não conhecia ninguém. Não sabia. Claro, por que não? Vamos! Aí a gente deu um rolê, ficamos na casa de um amigo, todo mundo hospedado lá. O Ricas tava fazendo a especialização lá em Bauru, que é também São Paulo. Seis horas de distância. E meio que a gente se encontrou e tal, e acho que depois desse momento, rolaram algumas outras coisas, mudamos de formação e ficamos juntos pra sempre, desde então. E o Jeff também entrou nesse esquema também, tipo assim, tô tocando, vim ouvir o Jeff tocar, entrei, cheguei. E aí, tanto que ele tava na banda, eu nem sabia que ele era da banda. Ele só foi ficando, igual o Fidanza, assim, foi ficando e de repente ele era da banda.
Fidanza: Eu cheguei um pouquinho depois e cheguei nesse esquema, tem esses shows em São Paulo, nessa banda aqui, não conhecia ninguém, bora fazer? Aí eu: “tá bom, bora.” Ensaiamos algumas semanas e bumba! O primeiro show que eu fiz com eles foi em São Paulo, se eu não me engano. E aí eu conheci, não conhecia a galera, mas foi uma amizade que se formou já na banda, sabe? E uma amizade fortíssima que a gente tem hoje.
Ricardo: Eu já posso dizer que um dos meus melhores amigos tá aqui, né? Um dos! Qual será o outro? [risos] Não, eu não vou me repetir, né? Foi basicamente isso. Eu vou contar uma lembrança que eu tenho que eu guardo no coração. Foi o primeiro show da gente, que não foi nem um show, foi uma apresentação. A gente achava que a gente já tava… “Não, a gente consegue agora fazer show, se apresentar algum tanto.” Aí teve uma oportunidade… Pra você ver como os equipamentos culturais são importantes. Teve uma oportunidade de… tipo um open mic da Vida Lá no Porto Iracema, que é um equipamento aqui da prefeitura de Fortaleza que tem cursos, formações, enfim, audiovisual, curadorias. E aí teve essa noite que a Mona Gadelha. Uma artista aqui de Fortaleza. Vem numa estrada aí desde os anos 70. Muito Querida. Brigado Mona Gadelha. Ela tava organizando essa noite e ela disse: “Você poderia se inscrever pra tocar lá e a gente…” só três pessoas, não tinha nem baterista direito. A gente tinha duas músicas levemente prontas. “Ah, vamos tocar”. Aí eu levei o baixo. Cecília levou a voz dela, óbvio. E tinha um guitarrista lá com a gente. A gente tocou numa tora… sem medo. A gente ficou depois: “Nossa que chacota”. É, eu fiquei assim pensando: “Caralho, mo galera massa” e a gente ficou se comparando com a galera. Mas depois a Mona Gadelha foi falar com a gente. E até hoje ela lembra. A gente chamou a atenção de alguma maneira. E eu levei isso pra minha vida. Você se jogar. Eu Acho que a gente se joga muito. A gente não tem medo não. A gente vê as coisas direitinho e manda brasa.
CG: Queria saber mais agora de “Bandeira” que tem a participação do Mateus Fazeno Rock. Como aconteceu esse encontro?
Cecília: Quando a gente foi pela primeira vez pra São Paulo, tinha uma banda que, a gente tava junto em alguns rolês que era o Casa de Velho. Que o Mateus era o vocalista na época. E a gente se conheceu desde então. A gente não seguiu trocando muita ideia mas ficou um carinho entre a gente. Curti muito o som dele. Acho que ele também tem um carinho pela gente, querendo ou não. E a gente é muito fã do trabalho dele, mesmo. E a gente ficava: “Essa música tá faltando alguma coisa, acho que precisa de uma voz masculina e tal” “Quem?” e aí “Cara, vamos fala com o Mateus?” “Será que ele lembra da gente?” [risos] “Será que ele topa.” E aí meio que foi isso. A gente fez o convite e ele foi super, super fofo. Super Maravilhoso. Ele aceitou, chegou lá na amizade. Gravou com a gente as duas vezes. A primeira vez, antes da gente perder o álbum, e a segunda vez, depois que a gente perdeu o álbum.
Findanza: É teve essa situação aí, da perda do álbum [risos]. Não sei se tu sabia, Rafael.
CG: Conta como foi.
Fidanza: Basicamente, era o fim de 2023. A gente tinha terminado de gravar o álbum. Tudo. Estávamos prontos para começar a mixagem. E aí teve também participação do Mateus, participação do saxofonista, teve percursionista e aí foi uma galera né? E aí o computador do nosso produtor deu ruim, papocou, e não deu pra salvar nada. E aí a gente perdeu o álbum nessa. Nisso a Cecília tinha vindo pra Fortaleza pra gravar as vozes. só pra isso. E aí a gente ficou nessa… ficou em luto por umas semanas. Ficamos em luto e aí depois passaram umas semaninhas e aí gente: “Vamos começar de novo né?” “Fazer o quê, né?” A gente ainda tinha umas versões não mixadas das músicas finalizadas. A gente ainda tentou separar os instrumentos por e IA. Enfim… era loucura.
Cecília: Tudo foi difícil nesse álbum. Tudo.
Ricardo: Serviu só pra a gente se guiar. Até eu revi umas partes dos baixos também.
Fidanza: É. Cada um de nós eu acho que trabalhou melhor, na segunda vez. Você [Ricardo] nos baixos, eu nas guitarras, a Cecília trabalhou altas coisas diferentes na voz. Backing vocals, harmonizações. Foram altas paradas massa que apareceram.
CG: Como vocês enxergam a cena musical cearense hoje? E já que a banda está parte em Fortaleza, parte em São Paulo. Qual a principal diferença que vocês enxergam nas duas cenas?
Ricardo: Olha, a cena musical de Fortaleza, pra mim, tá muito riquíssima! A gente tá vivendo num momento muito efervescente! E não é só de agora! Vamos lembrar de artistas como Ednardo, Belchior, galera dos anos 70, Amelinha, o pessoal do Ceará todinho, Roger Rogério, a Tete, a Mona Gadelha! Nos anos 90, 2000, Cidadão Instigado. E agora com muitas pessoas, muitas bandas, com muitas linguagens diferentes. Eu acho que realmente tá massa de ver. Na nossa esfera de amigos, a gente vê a galera que até que não tá num plano assim muito do reconhecimento ainda. A gente fica: “caralho, tomara que essa galera desponte, né?” A única coisa que dá uma pena, assim, ao meu ver, é que eu acho que tem a ver mais com o público. Como a gente consome a música aqui em Fortaleza. Talvez seja uma visão muito pessoal minha, mas eu vejo que a cultura do ver o autoral, de pagar ingressos pra ver o autoral, tá muito tímida ainda. Tem uma galera que faz isso, mas eu gostaria de viver uma coisa mais ou menos assim como São Paulo, mas que não dá pra comparar. Devido às suas proporções. São Paulo é uma cidade enorme. Fortaleza, apesar de ser grande, não dá pra imaginar, comparar.
Fidanza: Falando nesse aspecto aí de público, Fortaleza hoje não tem o hábito de fazer eventos de bandas locais Bandas autorais, como chama, né? Autoral. Tem gente que odeia, né? Usar essa expressão. A cidade não tem mais esse hábito, eu acho que já teve, sabe? Talvez coisa de 10 anos atrás, tinha assim um movimento de bandas autorais, inclusive nas minhas primeiras bandas, era um negócio que acontecia, tinha muito rolê de faculdade, calourada, e tinha banda. E aí, nos últimos vários anos meio que se perdeu. Perderam muito espaço as bandas autorais. Diferente de como é em São Paulo e lá, a galera tem o hábito mesmo de ir pra fazer eventos.
Cecília: Eu vou tentar discordar um pouco. Eu acho que sim, aqui rola eventos, mas é muito nichado, eu acho que vai muito mais pelo que o Ricas falou, de que aqui é uma cidade muito maior, que tem muito mais gente. Mas é difícil banda autoral encher uma casa de show diferente. Por exemplo, em São Paulo, a gente tem um amigo, um brother nosso, que é o Arthur Amaral. Ele abriu um espaço, com muita dificuldade, que chama Porta Maldita, que é justamente voltada pra bandas Independentes, autorais. Que eu vejo que é um espaço legal, tipo assim, mas o cara teve que batalhar, ralar muito, fazer muito evento em praça, reunir muita galera pra rolar. E eu acho que, assim, a pandemia também prejudicou um pouco a cena aqui em São Paulo, eu acho que é um mar de rosas não pra banda independente, em nenhum lugar do Brasil.
Fidanza: Não que eu tenha falado isso.
Cecília: Eu acho que não foi isso que você falou, mas eu acho que é difícil também aqui. É um pouco mais fácil, mas eu acho que tem muito… talvez em Fortaleza a gente tenha que sambar um pouco mais, meio que criar nossos próprios espaços, quebrar algumas portas, abrir na voadora, porque eu acho que talvez é pra onde a gente esteja indo nesse momento, mas eu não acho que seja muito diferente daqui não, tá?
Ricardo: Aquela história, né? Do autoral e do evento, aquele evento que tem uma roupagenzinha, um padrão, né? Um certo, atender o que o público quer, a coisa fácil. Porque o pessoal que tá por trás dessas casas de show, procura sempre gastar menos e o mastigadinho, o show mastigadinho é o que você gasta menos. Tá agradando mais ou menos todo mundo. E assim, ter banda, fazer show, e você assistir um show, é uma parada assim… Você vai lá podendo um show não te agradar. É que nem uma obra de arte. Você vai pro museu, vão ter quadros, a função do quadro é essa, né? É uma parada da arte. “Esse quadro aqui não me agradou.” “Esse quadro aqui me agradou.”, mas é isso, a parada é isso, né? É os encontros. Então, espero que role mais isso.
Cecília: Eu acho que vai muito nesse lado da gente mesmo criar nossas portas, criar essa cultura, né? Que eu acho que tá acontecendo, de certa forma, em Fortaleza também, tem bandas muito legais que tão conseguindo criar o seu público, tipo o AG, o próprio Matheus fazeno rock, assim, que eu acho que é um movimento muito legal dentro de Fortaleza mesmo, mas é muito isso. As pessoas vão criando portas, não tá fácil, e eu acho que a gente tá muito nesse momento mesmo. Tipo, vamos criar essa cultura, gente, vamos conhecer banda daqui, vamos, sei lá, vamos escutar coisa nova, sabe, além do mastigado que a gente vê na rádio, no TikTok, principalmente nessa era de inteligência artificial, onde tudo mais líquido do que nunca foi, então acho que criar essa cultura tem sido ainda um pouco mais difícil, né? Porque as pessoas estão acostumadas a ouvir o que elas estão acostumadas a ouvir, às vezes não rola muito essa abertura pra ouvir coisa nova, que é como o Ricas falou, pode ser que não te agrade, pode ser que seja bom, pode ser que seja incrível, uma surpresa, mas assim, essa cultura de ouvir coisas diferentes, né? De dar esse espaço.
Ricardo: De abrir os espaços para as pessoas se encontrarem. Não é pra “ah, tem que agradar”, entendeu? Tem que ter os encontros também, né? E a inteligência artificial, ela nunca vai sofrer como a gente sofreu fazendo esse álbum. Que é o tempero do álbum, entendeu? Então, a favor do sofrimento, também. [Risos]

CG: Vou terminar com essa, então, já que vocês falaram nessa questão, vocês acham que a inteligência artificial tem mais a ajudar ou atrapalhar as bandas novas de se consolidarem?
Fidanza: Ah, eu tenho meio monte de opinião sobre isso, mas vai demorar muito. Tipo assim, vamos lá: é positivo, né, para vários aspectos, assim, facilita muita coisa. A IA, por exemplo, sei lá, você pode fazer uma música com prompt. Você escreve lá e, sei lá, você quer ter alguma ideia na sua cabeça e rapidamente você consegue fazer alguma coisa. Mas acho que os lados negativos são muitos também. Meio que dá uma liquidada, no que existe de músicas, de arte, né? Tudo fica misturado. Muita arte por IA aí se mistura com arte verdade, né? E fica um negócio assim que, caralho, é muita informação, muita bagunça. E eu sinto que acaba desvalorizando. Coisas que vieram, assim, da paixão de alguma pessoa para criar uma música, ou, alguma arte. Fora que essa facilidade também que a IA nos traz, meio que atrapalha também um pouquinho. Porque às vezes você tem que chegar e dar um gás para conseguir tirar aquele negócio e espremer. “Ah, finalmente, eu consegui!” E aí fazer uma parada foda, sabe? E com tanta facilidade, meio que você perde essa gana, assim, essa força, assim, desse ódio.
Cecília: Eu concordo com isso, mas, ao mesmo tempo, eu sou uma entusiasta, né? Eu adoro trocar ideia com a Chat GPT. Gosto muito! Eu acho que nunca vai substituir um artista, é isso que o Fidanza está falando. Nunca vai substituir o que é arte. Mas eu acho que não impede, talvez, a gente usar como ferramenta, assim, mesmo. Sei lá. Faça uma leitura disso aqui. Me ajude a encontrar cores, ou um caminho. Talvez isso auxilie, né? Na linha do pensamento. Mas eu acho que nunca… Vai chegar, tipo, com a ideia… Que eu acho que o mágico, talvez, esteja na ideia. Né? E, assim, a gente vai lapidando e desenvolvendo. Mas é um assunto muito complexo. Eu não tenho nem a opinião formada direito sobre isso, sabe? Mas é como o Fidanza falou, são muitos vieses, né? São muitas questões.
Fidanza: E a gente meio que tá no meio de uma coisa, que apareceu. A gente não sabe o que vai acontecer ainda, sabe? Tipo assim, daqui a dez anos, a gente vai olhar pra trás: Tá, esse foi o movimento de ascensão da IA. E foi isso aqui e isso aqui que aconteceu. A gente tá inserido nesse momento. Então, a gente não tem noção do que vai acontecer. O que tá surgindo, né? Como isso tá mudando, assim, tudo, né?
Ricardo: Exatamente! E eu fico curioso, às vezes, sabe, Fidas? Assim, daqui a 15 anos, como é que a gente vai ver isso? A IA… Eu tenho a opinião dos meus companheiros aí.É a mesma coisa, né? Em breves palavras: Eu acho que, por exemplo, alguns momentos que a gente… Por conta das nossas correrias de vidas pessoais, né? É bem-vindo, sabe? Tenta… Tenta me dar um texto aí. A gente vai fazer um show. Eu preciso botar uma legenda lá no post. O show é dia tal e vai ter isso e isso. Faz um texto aí. Eu tô na hora do almoço, entendeu? Eu preciso descansar, alguma coisa assim. E aí, ajuda, mais ou menos.
Cecília: E tem ferramentas hoje que a gente já faz, você faz um prompt lá, tipo, eu quero a música num tal ritmo, falando disso aqui. Tipo, a Sunno, por exemplo, né? Ela criou a música em um minuto, que é uma música super aquática, assim, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, que você tem que se experimentar. Às vezes tem um ritmo legal. “Nossa, interessante isso aqui, mas bizarro”. Eu fui numa loja e todas as músicas eram de IA, gente! Aí eu fiquei: “que porra é essa? Que negócio esquisito! Meu deus do céu!” O robô nunca vai fazer, por mais que ele vá se aperfeiçoando, né? Ele nunca vai ter essa aura que é que tem um objeto de arte. Que acho que foi por onde o Fidas começou falando. Por mais que seja, sei lá, um ritmo legal, uma letra legal, mas tá faltando um negocinho aqui, sei lá, o que é isso? O que é esse sal? Olha só! Tá tudo conectado!
Ricardo: Tá tudo conectado! O sal tá em tudo!
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