Mesmo com 2026 já em curso, ainda há tempo – e necessidade – de olhar para trás e reconhecer os filmes brasileiros de 2025. Foi um ano especialmente forte para um cinema que se constrói a partir das margens, dos afetos e da memória, valorizando narrativas descentralizadas e o trabalho de artistas mulheres, dentro e fora de cena. Diversos em sotaques, temas e gêneros, essas obras pensaram o Brasil em suas contradições, filmando o cotidiano, a infância, o envelhecimento, a cidade e o interior.
A lista a seguir reúne os melhores filmes brasileiros de 2025 a partir desse recorte, celebrando a diversidade de olhares e territórios que fortaleceram o cinema nacional ao longo do ano passado. Antes de entrar no ranking, vale destacar algumas menções honrosas que ampliam esse panorama: Manas, Prédio Vazio, 3 Obás de Xangô e Suçuarana, títulos que, cada um à sua maneira, reforçam a vitalidade de um cinema comprometido com a escuta, a identidade e a reinvenção de suas próprias imagens.
10 – O Agente Secreto

Ambicioso, irregular e profundamente marcado pelo afeto à memória, O Agente Secreto confirma Kleber Mendonça Filho como um cineasta interessado em filmar o Brasil a partir de suas feridas e espaços apagados. Ambientado no Recife dos anos 1970, o longa se destaca pela reconstrução minuciosa da cidade, pela fotografia que traduz a sensação de clausura da ditadura e por um desenho de som que transforma ruas, rádios e silêncios em matéria dramática.
Ao tentar ser thriller político, ensaio histórico e reflexão sobre o próprio cinema, o filme se fragmenta; por vezes a narrativa perde fôlego, o protagonista vivido por Wagner Moura carece de densidade e a estrutura em capítulos evidencia mais dispersão do que coesão. Ainda assim, há força nas imagens, nas personagens femininas e na maneira como Mendonça transforma o espaço urbano em arquivo vivo de um país em disputa. Mesmo com seus excessos, O Agente Secreto figura entre os grandes lançamentos brasileiros de 2025 por reafirmar um cinema que resiste ao esquecimento e insiste em pensar o passado como chave para entender o presente, abrindo a lista no 10º lugar.
9 – Homem com H

Guiado por uma direção segura e por uma atuação central de grande entrega, Homem com H foi um dos destaques do cinema brasileiro em 2025 ao revisitar a trajetória de Ney Matogrosso com energia, sensibilidade e presença cênica. Embora siga pontos conhecidos da cartilha das cinebiografias – da ascensão artística aos conflitos íntimos –, o filme encontra sua força justamente na forma: a encenação aposta no corpo, no gesto e na performance como linguagem dramática, evitando o excesso de explicações e deixando que a música e a imagem conduzam a narrativa.
Jesuíta Barbosa impressiona ao assumir o protagonismo com intensidade, não apenas reproduzindo trejeitos, mas captando a pulsão artística e a liberdade que marcaram Ney como figura cultural e política.
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8 – Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa

Delicado, inventivo e profundamente respeitoso com seu público, Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa é a prova que é possível fazer um filme infantil inteligente sem abrir mão da sensibilidade. Sob a direção de Fernando Fraiha, a história parte de uma premissa simples – a luta para salvar uma goiabeira ameaçada pelo “progresso” – e a transforma em uma reflexão acessível sobre memória, coletividade e o valor das pequenas coisas.
Ao abraçar o lúdico, a fantasia e a lógica do olhar infantil, o longa evita didatismos e confia na imaginação da criança, tratando seu público com respeito e afeto. A atuação carismática de Isaac Amendoim, a química entre o elenco mirim, a direção de arte vibrante e a fotografia calorosa reforçam a sensação de acolhimento, enquanto o roteiro equilibra humor e emoção sem subestimar quem assiste. Mais do que uma aventura, o filme é um convite a desacelerar e repensar o que se perde em nome do asfalto, justificando com sobras seu lugar entre os melhores lançamentos do ano.
7 – Baby

Profundamente atravessado pela experiência do deslocamento, Baby, de Marcelo Caetano, é um retrato honesto das vidas queer que sobrevivem às margens da grande cidade. Ambientado na São Paulo que acolhe e engole, o filme acompanha o encontro entre Wellington, o Baby (João Pedro Mariano), jovem recém-saído da Fundação Casa em busca de pertencimento, e Ronaldo (Ricardo Teodoro), um homem mais velho marcado pelas cicatrizes da sobrevivência urbana.
Sem glamourizar o trabalho sexual, Caetano aposta em uma narrativa de afetos frágeis, encontros imperfeitos e escolhas que nunca são totalmente livres, refletindo a lógica brutal da metrópole. A fotografia transforma o caos paulistano em paisagem emocional, encontrando luz mesmo na crueza do cotidiano, enquanto as atuações centrais dão densidade humana a corpos frequentemente invisibilizados.
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6 – O Último Episódio

Delicado e sensorial, O Último Episódio, a estreia solo de Maurílio Martins em longa-metragem, é um dos retratos mais sensíveis e divertidos infância no cinema brasileiro recente.
Ambientado em Contagem, em 1991, o filme acompanha Erik (Matheus Sampaio), um garoto que inventa possuir a fita do episódio final de “Caverna do Dragão” para impressionar uma colega, dando início a uma jornada que fala menos sobre a mentira e mais sobre o nascimento do olhar artístico e do desejo de registrar o mundo.
Com uma direção e afetuosa, Martins transforma memórias pessoais em experiência universal, apostando em uma narrativa de coming of age guiada por gestos e pequenos rituais do cotidiano.
A fotografia, a montagem e o desenho de som atento aos ruídos do bairro constroem um Brasil analógico e reconhecível, enquanto o elenco jovem atua com naturalidade. Longe da nostalgia vazia, o filme revisita a infância com ternura e senso crítico, reafirmando o cinema como espaço de invenção, afeto e resistência.
5 – Kasa Branca

Kasa Branca, de Luciano Vidigal, aposta na força do cotidiano e dos afetos para contar uma história longe de estereótipos e do melodrama. O filme acompanha Dé (Big Jaum), um adolescente negro da periferia carioca, e a relação de cuidado com a avó, Dona Almerinda (Teca Pereira), diagnosticada com Alzheimer, retratada não como gatilho de tragédia, mas como parte da vida.
Ambientado na favela da Chatuba, o longa foge das representações espetacularizadas das comunidades e adota uma estética contemplativa, que observa personagens comuns com respeito e escuta, permitindo que o afeto, a amizade e a solidariedade conduzam a narrativa com um texto que evita estereótipos da vida em comunidade e transforma gestos e relações em potência dramática.
4 – A Natureza das Coisas Invisíveis

Sensível e delicado, A Natureza das Coisas Invisíveis, estreia de Rafaela Camelo, trata a infância, morte e espiritualidade com respeito, escuta e profunda humanidade, abrindo o pódio da lista no 3º lugar.
A partir do encontro entre Glória (Laura Brandão) e Sofia (Serena), duas meninas que se conhecem em um hospital, o longa constrói um rito de passagem marcado por perdas precoces e descobertas íntimas, sempre guiado pelo olhar infantil como chave para acessar o que não se vê. Camelo articula ciência, cuidado e saberes espirituais sem hierarquias, transformando o hospital em espaço de afeto e convivência, enquanto a câmera, posicionada na altura das crianças, trata suas percepções com seriedade política e poética.
A fotografia suave, a montagem orgânica e as atuações naturais das jovens protagonistas sustentam uma narrativa que evita o melodrama e encara a morte como travessia, não ruptura.
3 – O Último Azul

O ritmo dos rios amazônicos guia O Último Azul, filme em que Gabriel Mascaro transforma deslocamento em gesto político e experiência sensorial.
Acompanhando Tereza (Denise Weinberg), uma operária de 77 anos que se recusa a aceitar o confinamento estatal imposto aos idosos e parte em fuga pelas águas do Norte, o longa constrói uma distopia íntima, mais sentida do que explicada. Sem julgamentos ou sátiras, Mascaro aposta em planos longos, pausas e silêncios que respeitam outro tempo – um tempo que, para quem é do Norte, ecoa a cadência familiar de um banho de rio, quando o corpo desacelera e o mundo parece respirar junto.
A atuação de Denise Weinberg sustenta uma protagonista contraditória, cuja simples decisão de seguir em movimento já é um ato de resistência. Filmando a Amazônia com dignidade, sem exotismo, e valorizando sons, encontros e afetos cotidianos, O Último Azul se destaca em 2025 por afirmar que existir, envelhecer e atravessar ainda podem ser formas de liberdade.
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2 – Oeste Outra Vez

No coração do sertão de Goiás, Oeste Outra Vez, de Érico Rassi, se destaca ao subverter o faroeste clássico, transformando a aridez do interior em cenário de solidão masculina e humor trágico, onde anti-heróis patéticos bebem cachaça, brigam e disputam atenção feminina sem nunca compreender o afeto.
A ausência das mulheres, marcada em objetos quebrados e espaços desorganizados, acentua a melancolia e reforça a crítica à masculinidade tóxica. Com fotografia que alterna a luz dourada do “horário mágico” em exteriores e contrastes intensos nos interiores, trilha sonora baseada em clássicos do brega e ritmo deliberadamente lento, o filme constrói uma narrativa sensível e irônica.
As atuações de Ângelo Antônio, Babu Santana e Rodger Rogério equilibram com humor, tragédia e vulnerabilidade, enquanto Rassi observa sem julgar, expondo a fragilidade dos personagens de forma humana e honesta.
- Leia também: Crítica | Oeste Outra Vez: O melhor filme do ano é um faroeste com bêbados que sequer sabem atirar
1 – Os Enforcados

Se o subúrbio carioca tivesse um coração pulsante no cinema, ele bateria em Os Enforcados. O diretor Fernando Coimbra transforma ruas, bares e quadras de escola de samba em um palco de tensão e humor, onde Regina (Leandra Leal) e Valério (Irandhir Santos) mergulham em uma trama de crimes familiares para escapar do legado mafioso deixado pelo pai.
Entre diálogos naturais, situações cômicas e momentos de alta tensão, o filme captura a complexidade humana com inspiração shakespeariana, explorando ambição, traição e moralidade, enquanto atuações contidas e intensas revelam as contradições de personagens que oscilam entre astúcia, vulnerabilidade e desejo de poder.
O subúrbio se torna protagonista, e a cinematografia equilibra crueza e poesia, transformando o cotidiano em narrativa carregada de significado e uma das cenas mais memoráveis do cinema em 2025, Os Enforcados se revelou ainda mais impactante na revisita, conquistando o título de melhor filme brasileiro do ano em nossa lista do Conecta Geek.
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