Review | Constance traz uma experiencia narrativa emocionante, que conversa bastante com sua jogabilidade

Lançado em 1 de maio, desenvolvido e publicado pela alemã btf Games, Constance é um jogo de ação estilo metroidvania, que traz uma bela narrativa metafórica com o que se espera do melhor em um metroidvania, seja em exploração ou seja em combate – este também com um pouco de inspiração no que encontramos em Souls da FromSoftware.

Uma bela história com metáforas e experiências impactantes

Constance/btf Games

Aqui controlamos uma pequena artista digital chamada de Constance, onde no seu estresse da vida diária é transportada para um mundo que existe dentro de sua cabeça, onde ela descobre que por conta dos acontecimentos na vida real, o mundo está em decadência e pouco a pouco indo para o seu fim, refletindo a saúde mental da protagonista na vida real.

O jogo não é tão sutil assim no que ele referência a respeito do que está acontecendo, mas temos um mistério em relação a vida de Constance e o que levou a sua mente chegar a esse estado, e a narrativa e o mundo do jogo traduzem isso muito bem aos jogadores, com cenários refletindo suas veias criativas para a arte mas que mostra como o seu trabalho e o seu dia a dia está transformando em um mundo que era cheio de cores e vida, em um mundo decadente e poluído, com máquinas intrusivas deteriorando os arredores de alguns cenários, e inimigos inspirados em problemas que Constance enfrenta diariamente, novamente, não é tão sutil, mas não precisa ser também necessariamente, o jogo é direto com a mensagem que ele quer passar e sabe emocionar o jogador com o que ele apresenta.

Um dos grandes momentos narrativos de Constance é quando conseguimos uma lágrima, e essas lágrimas contem fragmentos de memórias traumáticas da protagonista, mostrando de forma bastante interativa momentos chaves desses traumas no mundo real, onde sua arte era constantemente bloqueada por cobranças diárias, caos corporativo, ausência familiar, e por aí vai, e mesmo se você nunca passou por nenhum desses problemas, o jogo consegue transmitir perfeitamente bem todos os sentimentos com sessões de gameplays que são até um tanto destoantes do loop de jogabilidade padrão, mas eu digo isso como um elogio, pois ele quebra todos os paradigmas para passar bem o sentimento, a sensação, e a mensagem ao jogador.

Constance/btf Games

O jogo em diversos momentos me pegou em partes bastante sensíveis, e o aviso que ele pode dar gatilhos antes de começa-lo, sem dúvidas foi necessário, se você já passou por problemas corporativos de cobranças constantes onde era muito difícil organizar todas as solicitações, se você já passou por eventos que o deixavam bastante ansioso e estressado lidando com público, ou se você já se afastou de algum parente ou amigo próximo, esse jogo conversa muito bem com todos esses problemas reais, mas também mostra soluções e constantemente mostra que o problema não é só o mundo, que é sim, bastante opressor, mas também é com a gente, e tenta constantemente buscar um equilíbrio não só de reconhecer os problemas externos, como internos, e achar uma boa solução para essas situações, é aí que a forma que o jogo se aproxima da estrutura de narrativa e gameplay tem uma boa harmonia, ao mesmo tempo que o mundo da mente de Constance é uma forma de fuga da mesma, tendo um combate satisfatório com uma bela movimentação da personagem, é também uma forma de dar uma lição a ela, com a dificuldade de passar de diversidades no jogo, e com os NPCs, que são também reflexos dela e do mundo em que ela vive.

Uma protagonista artista, tem também uma boa direção de arte, e lindos gráficos!

Constance/btf Games

Logo de cara é difícil não comparar Constance com o famoso Hollow Knight, isso porque ela tem um estilo gráfico e artístico extremamente parecido com o dito cujo, e isso não é um problema, claro, pois Hollow Knight é um dos Metroidvanias mais belos e bem sucedidos do mercado, mas dá aquela impressão que Constance não é lá tão criativo nesse departamento como ele deveria ser, mas isso é apenas um pequeno ponto em um mar de elogios, as animações tanto da personagem principal quanto dos inimigos, dos cenários, NPCs e as vezes até objetos interativos, são de uma grande excelência e carinho por parte da btf Games.

Como Constance é uma artista, sua arma principal é um pincel gigante, e ela sai pintando os inimigos com ele, com movimentos bruscos que refletem como ela pinta em um quadro em branco, ou movimentos artísticos mesmo, e sua animação nos mostra isso com uma grande clareza e bastante personalidade, os cenários refletem bastante isso, como eu já citei antes, com cenários do jogo refletindo suas memórias traumáticas, então em uma das localizações com lágrimas, temos misturas um tanto cyberpunk e steampunk, mostrando como a tecnologia está destruindo a veia artística de Constance, vemos bibliotecas e parques refletindo locais importantes com a vida da protagonista, e por aí vai, todos eles são repletos de detalhes e bastante carinho.

Exploração e dificuldades bem balanceadas

Constance/btf Games

Constance é um metroidvania de alta qualidade, com uma exploração satisfatória e cheia de segredos nos mapas, mas com uma progressão bastante dinâmica e simples de entender, onde dificilmente o jogador vai se sentir perdido e travado.

Aqui após conseguirmos a primeira lagrima, o jogo meio que vira uma espécie de mundo aberto, onde o jogador tem liberdade para escolher onde ele vai alcançar as outras lágrimas, e claro, alguns lugares são mais fáceis que outros, e isso pode incentivar você a retornar caminhos para encontrar habilidades, e upgrades para então avançar, mas o jogo não te impede de já tentar encarar um boss difícil antes do tempo, eu mesmo encarei diversidades que eu provavelmente criei por culpa própria, mas isso me fez entender mais as mecânicas de combate e a profundidade do mesmo.

O jogo também tem um minimapa que fica na tela, onde você consegue se guiar bem enquanto explora, e também tem um sistema de fotos polaroids, onde te permite marcar lugares que você precisa lembrar que tem uma área inalcançável que provavelmente só vai liberar quando você tiver uma habilidade nova, ou que você quer revisitar por outros motivos, e isso ajuda bastante, e também é upgradeavel durante a jornada.

Já o combate também tem bastante profundidade técnica, Constance faz ataques básicos com o seu pincel, mas também tem ataques especiais que consumem sua barra de tinta, que funciona mais ou menos como uma barra de especial/estamina, que se o jogador abusar demais, ela vai perder a tinta e se você usar essas habilidades nesse momento, ele vai tirar uma parcela de seu sangue, então é preciso manejar bem o uso dessa barra, mas pouco a pouco esse uso vai perdendo esse receio de esgotamento, pois com upgrades o jogo vai te dando mais liberdade não só para usa-los, mas para mesclar eles durante os combates.

Constance/btf Games

Vale também citar que cada vez mais explorando, o jogador vai encontrar não só habilidades de movimentação, como golpes novos ou novas melhorias na força de Constance, onde num menu baseado em grid, o jogador vai poder colocar eles no melhor estilo de maleta de Resident Evil 4 nos seus checkpoints, impedindo que o jogador fique apelão logo no início, recorrendo a habilidades que expressam o tipo de jogo que ele vai jogar, mas que pouco a pouco vai se libertando, e deixando tudo mais fácil de acordo com a progressão.

Constance/btf Games

Os inimigos aqui variam tanto de muito fáceis, para um tanto dificieis e chatos de lidar, todos eles tem uma forma de agir e diversidades únicas, então o jogador precisa se atentar com suas animações e seus padrões de ataques, mas eles não são tão chatos sozinhos, mas em grupo, a coisa muda um pouco de cenário.

Ao ser derrotado, o jogador tem a opção de voltar ao ultimo santuário – ala Souls, ou retornar do começo da área – mas que tem consequencias no gameplay, já que escolhendo essa opção, os inimigos ganham uma espécie de escudo que os deixam mais fortes, não só como eles recebem o dano, mas como eles dão o dano em você, contudo, ao derrota-los assim, você ganha não só experiência, como também ganha corações que restauram a vida de Constance, então apesar de tudo, acaba as vezes sendo uma opção melhor que voltar no santuário para o jogador, já que ele não precisa se preocupar em recuperar o seu sangue de uma forma mais desafiadora, então é um risco e recompensa bem interessante em uma fórmula que vemos em diversos jogos modernos.

Design de som satisfatório, que conversa com a sua atmosfera artística

Constance/btf Games

Constance tem uma trilha sonora composta por Tiago Rodrigues, que faz um ótimo trabalho não só nas músicas, como no design de som geral do jogo, nos dando dicas sonoras bem claras na exploração e no combate do jogo, dando o impacto bom que os golpes precisam ter com o efeito sonoro, e claro, dando um bom efeito sonoro aos inimigos, para identificarmos não só os próprios com apenas o som, como também com os seus gestos e costumes, e os seus ataques.

A trilha sonora assim como o jogo tem esses momentos onde ela vem de forma épica para dar a coragem e o impulso para os jogadores nos combates, mas que também tem essa leveza delicada, que trata esse mundo como um lugar afetado pela tristeza e decadência, pelos problemas diários da vida real, por um distanciamento sombrio da Constance com o que é importante para ela.

Tem um momento de suas memórias onde a Constance precisa tocar um violino, e a forma que eles transmitem esse momento com o efeito sonoro é impressionante, e te faz se sentir no lugar dela.

Considerações finais

Constance/btf Games

Pode parecer um tanto clichê jogos com aspectos mais independentes trazendo esse tipo de narrativa com metáforas para depressão, e até vejo uma parcela do público gamer cansado desse tipo de jogo, mas é inegável o quanto esse tipo de experiência consegue ser eficaz e conversa bem com o jogador quando ela é bem feita, e é o caso de Constance aqui.

Constance mescla bem um bom gameplay de ação com experiências da protagonista, com cenários e uma exploração que se conversam muito bem e tem uma ótima fluidez, dando um grande prazer ao jogar, e ainda assim, consegue transmitir em diversos momentos todo o cuidado para que isso não fique no lugar do que eles querem falar exatamente com esse jogo, é impossível não se emocionar após conseguir uma lagrima e vivenciar uma memória de Constance, mas também é impossível não se emocionar depois de passar aquele chefe extremamente difícil do jogo, trazendo aquela dopamina que muito jogador busca, para só então, ele jogar na nossa cara um momento interativo bastante triste, e nos dando bons diálogos com NPCs cativantes.

Constance foi uma grande surpresa para mim, e eu acho muito bom o mercado ainda ter jogos desse porte que se importam com a saúde mental do jogador e tentam conversar de forma intima com eles, mostrando que um jogo pode ser tanto empolgante e divertido de se jogar, como também pode ressoar com o que você vive, e te incentive a procurar ajuda para cuidar da sua saúde, tanto mental, quanto física.

Constance já está disponível para as plataformas PlayStation 5, Xbox Series, Nintendo Switch e PCs via Steam.

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Meu prato favorito é JRPGs, mas também gosto de saborear filmes, animações, quadrinhos etc. Um outro prato que adoro é jogo de terror com tempero de ação, mas, na real, eu gosto de tudo relacionado a videogame.