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50ª Mostra | O Capitão Engarrafado; A História Mais Triste do Mundo; A Marca do Jaguar

A programação da Mostrinha na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo encontra um ponto de encontro curioso entre filmes bastante diferentes. Enquanto O Capitão Engarrafado transforma uma viagem pelo interior de Minas Gerais em uma aventura sobre imaginação e luto, A História Mais Triste do Mundo usa o fantástico para apresentar às crianças algumas das experiências mais duras da vida sem abrir mão da esperança. Já A Marca do Jaguar – O Despertar do Fogo recorre à mitologia mexica para construir uma jornada de pertencimento e identidade. Em comum, os três longas compartilham a crença de que o universo infantil não precisa ser protegido da realidade, mas sim encontrar maneiras criativas de compreendê-la. Seja através da fantasia, do circo ou dos deuses ancestrais, tratam da memória, das perdas e dos desafios do crescimento com a convicção de que imaginar também é uma forma de enfrentar o mundo.

O Capitão Engarrafado

Hoje em dia é comum vermos o crescimento de crianças olhando para telas. Caio passa a sua olhando para horizontes. Em O Capitão Engarrafado, Guilherme Reis filma um menino que ainda enxerga o mundo como um território de possibilidades, onde uma garrafa pode esconder um marinheiro e uma estrada qualquer pode levar a uma aventura. Parece simples, mas há algo cada vez mais raro nessa escolha: a confiança de que a imaginação não precisa de tecnologia para existir.

Desde a bela sequência de abertura, o filme respira uma sensibilidade que remete à tradição da programação infantil da TV Cultura, especialmente aquelas produções que compreendiam a infância como um espaço de descoberta. Não é difícil lembrar de Mundo da Lua ao observar a maneira como a narrativa abraça o fantástico a partir da imaginação infantil. O extraordinário surge do cotidiano, como se sempre estivesse ali, aguardando apenas alguém disposto a vê-lo.

Através do olhar de Caio, interpretado com carisma e espontaneidade por Tui Souza Gil, o longa conduzido pela curiosidade do protagonista. Trata-se de uma criança genuinamente interessada pelo mundo. Quando encontra o pequeno capitão preso em sua embarcação de vidro, sua reação não é a incredulidade, mas a aceitação imediata de quem ainda entende a fantasia como parte da vida.

Reis potencializa esse encantamento através da mise-en-scène. A câmera frequentemente se afasta dos personagens para valorizar os espaços. A casa onde Caio vive é um lugar simples, mas carregado de memória e afetos. Da mesma forma, as paisagens mineiras adquirem dimensão épica sem perder sua identidade cotidiana. Quando o filme amplia seus enquadramentos, transforma estradas, rios e vazios em territórios de aventura. Os planos abertos permitem que a natureza e a geografia participem ativamente da história, reforçando a sensação de deslocamento e descoberta.

O próprio capitão vivido por Luiz Carlos Vasconcelos se beneficia desse registro. O ator empresta ao personagem uma presença que transcende o dispositivo fantástico. Seu marinheiro funciona como guia, mistério e memória ao mesmo tempo. É uma figura que conduz o menino em direção a perguntas sobre origem, pertencimento e crescimento.

Outro aspecto interessante da abordagem de Reis é de como ele trata a simplicidade do cenário de maneira não idealizada. Existe uma diferença importante entre valorizar uma vida menos mediada pela lógica digital e romantizar dificuldades materiais. O Capitão Engarrafado compreende essa distinção. Seus personagens vivem cercados por relações humanas, histórias compartilhadas e experiências concretas. Os celulares quase desaparecem da narrativa não por rejeição ao presente, mas porque a aventura depende de algo mais antigo: olhar ao redor.

Nem todas as escolhas encontram o mesmo equilíbrio. Conforme a trama avança, algumas metáforas se tornam excessivamente explícitas e certos conflitos dramáticos perdem a leveza que sustentava os melhores momentos da jornada. Ainda assim, a delicadeza da proposta permanece intacta.

No fundo, trata-se de um filme sobre movimento. Sobre entender que algumas dores precisam encontrar um destino, por mais difícil que seja deixá-las partir. O pequeno capitão precisa voltar ao mar. Caio precisa compreender certas ausências. E a própria narrativa entende que permanecer eternamente ancorado, seja numa garrafa ou numa lembrança, não é uma forma de viver. Afinal, horizontes existem para serem alcançados.

A História Mais Triste do Mundo

As histórias infantis costumam fazer o pacto silencioso com o espectador em prometer protegê-lo da parte mais dura do mundo. A História Mais Triste do Mundo faz o movimento contrário – disposto a cumprir com o título. Hique Montanari abre a porta para a dor, o abandono, o luto e a violência, mas recusa transformá-los em trauma espetacularizado. Seu filme parte de uma pergunta: como contar às crianças que o mundo pode ser cruel sem destruir a capacidade delas de sonhar?

A resposta surge através da imaginação. Não a imaginação escapista, mas aquela que funciona como ferramenta de sobrevivência. O protagonista Marco (Arthur Seidel) carrega uma infância marcada por rejeições sucessivas, porém o filme nunca adota a estética cinzenta que tantas obras associam automaticamente ao sofrimento. Pelo contrário. Montanari reveste essa trajetória de elementos circenses, animações, marionetes e imagens de aparência artesanal, apontando, cinematograficamente, como se compreendesse que determinadas feridas só podem ser observadas através do filtro da fantasia.

Essa escolha remete inevitavelmente a obras como Desventuras em Série pela capacidade de encontrar humor e estranheza em situações profundamente melancólicas. A diferença é que aqui o universo fantástico é a própria linguagem através da qual o protagonista processa uma realidade que seria insuportável em estado bruto.

O aspecto mais admirável do filme está justamente nessa recusa de subestimar seu público. Morte, exploração infantil, negligência familiar, pobreza e solidão aparecem sem grandes suavizações. O mérito de Montanari consiste em encontrar formas visuais capazes de sustentar esses temas sem transformar a experiência em algo opressivo. É um equilíbrio delicado e muito difícil de acertar o tom. O mesmo diretor que abordou a adolescência em Yonlu demonstra novamente habilidade para adaptar sua linguagem ao universo emocional de seus personagens sem infantilizar os conflitos.

O elenco contribui decisivamente para essa construção. Seidel e Paula Quirino estabelecem uma dinâmica afetuosa e convincente, enquanto Nelson Diniz, como Fausto, encontra nuances que impedem o personagem de se reduzir à função de antagonista. Também chama atenção a naturalidade com que o filme distribui representações pouco usuais dentro do cinema brasileiro voltado ao público jovem. Elas simplesmente existem no mundo da narrativa.

Mas há um obstáculo considerável. Mesmo com uma riqueza visual, curiosamente, filme parece não confiar integralmente na força das próprias imagens. A narração em off invade quase todos os espaços possíveis, explicando emoções, interpretações e passagens que a encenação já havia comunicado com eficiência.

Algo semelhante acontece após a mudança temporal e a troca de intérpretes. A conexão construída nos primeiros atos perde intensidade, e a narrativa demora a reencontrar o mesmo encantamento. Ainda assim, mesmo quando vacila, o filme preserva seu coração.

Porque, A História Mais Triste do Mundo nunca foi sobre sofrimento. O título funciona quase como uma provocação. A verdadeira preocupação de Montanari está na capacidade humana de reconstruir significado depois da perda. Marco atravessa um universo onde os adultos falham repetidamente, mas descobre que a identidade não precisa ser determinada por aquilo que lhe faltou. Reconhecer a dureza da vida sem abrir mão da esperança de que ela possa ser transformada.

A Marca do Jaguar – O Despertar do Fogo

Toda mitologia nasce de uma tentativa de preservar uma chama. A chama que carrega memória, identidade e pertencimento. Séculos antes de qualquer algoritmo aprender a imitar imagens, povos inteiros já contavam histórias para impedir que suas origens desaparecessem. É por isso que A Marca do Jaguar – O Despertar do Fogo provoca uma sensação tão contraditória. Trata-se de uma obra empenhada em celebrar uma herança cultural milenar enquanto, em alguns de seus momentos, adota ferramentas visuais que parecem desconectadas da própria ideia de herança.

Víctor Mayorga constrói uma aventura de proporções épicas a partir da cosmologia mexica. O jovem guerreiro Xilacatzin carrega uma marca associada à escuridão e, quando o equilíbrio do mundo entra em colapso, é obrigado a enfrentar uma jornada pelo reino dos mortos para restaurar aquilo que mantém a vida em movimento. A estrutura é clássica, quase primordial. O herói rejeitado, o chamado ao desconhecido, as provações e a descida ao submundo remetem às grandes tradições mitológicas que atravessam civilizações.

O mérito do filme está em não tratar a cultura mexica como mera fonte de referências exóticas. Existe admiração genuína por aquelas narrativas. Templos, símbolos, animais sagrados, lendas fundadoras e personagens históricos aparecem inseridos num universo visual que busca grandeza sem constrangimento. Quando o filme relembra migrações, cidades míticas e origens ancestrais, sua energia é contagiante. São momentos em que a animação entende seu papel não apenas como entretenimento, mas também como preservação cultural.

A animação 2D frequentemente alcança resultados expressivos. Os cenários possuem escala monumental, as cores evocam um universo espiritual vibrante e diversos enquadramentos demonstram um trabalho artístico cuidadoso. Nota-se o esforço de ilustradores, animadores e designers empenhados em construir um mundo visualmente marcante. É por isso que a utilização de imagens geradas por Inteligência Artificial (IA) se torna tão desastrosa.

Para além da discussão ética, a IA no longa é um problema cinematográfico também. Essas imagens surgem como corpos estranhos dentro da narrativa. Texturas, composições e estilos entram em choque com o restante da animação, produzindo um ruído constante. Elas quebram a imersão e enfraquecem a identidade visual, a enfraquecem. O resultado é incômodo porque o filme fala repetidamente sobre singularidade cultural enquanto incorpora ferramentas que tendem justamente à padronização estética.

A mesma falta de confiança aparece no roteiro. A narrativa raramente permite que o público descubra algo por conta própria. Símbolos são explicados, emoções são verbalizadas e conflitos retornam em sucessivas camadas de exposição. Como consequência, a aventura perde parte do mistério que deveria alimentar sua dimensão mítica. O espetáculo domina a encenação com tanta frequência que a reflexão acaba sufocada.

Ainda assim, existe valor em A Marca do Jaguar. Existe pesquisa, paixão e uma vontade legítima de aproximar novos públicos de um imaginário pouco explorado pela animação contemporânea. O filme funciona melhor quando acredita nos artistas que o construíram e na inteligência de quem o assiste. São nesses instantes que suas imagens encontram personalidade, força e verdade.

No fundo, a jornada de Xilacatzin gira em torno da preservação de um fogo ameaçado pela escuridão. A ironia é que a chama mais importante da obra não se encontra nos templos, nos deuses ou no mundo dos mortos. Ela está no trabalho humano que dá forma a essas histórias. Quando essa luz ilumina a tela, o filme encontra sua razão de existir. Quando é substituída por um simulacro, sobra apenas claridade sem calor.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.