Divulgação

Crítica | ‘Man On The Run’ mostra como Paul McCartney tentou se livrar da sombra dos Beatles

Paul McCartney: Man On The Run busca, pela segunda vez, recontar em filme a trajetória de Paul McCartney entre o final dos Beatles e o assassinato de John Lennon – com os Wings no centro da narrativa.

Assim como Wingspan(dirigido por Alistair Donald, em 2001) o documentário de Morgan Neville foi feito em parceria com McCartney e, inevitável, não deixa de ser um tanto chapa-branca, mas não a ponto de causar incômodo. Pelo contrário, é preciso ter muita bronca de seu protagonista, se é que isso é possível, para não se divertir com a produção.

Neville optou por não colocar entrevistados em cena, usando apenas a narração de McCartney, em depoimento exclusivo. Outras pessoas importantes, ou nem tanto, dentro da história – Mick Jagger, Chrissie Hynde e Linda McCartney (1941 – 1998) e o ex-baterista Denny Seiwell também são ouvidos.

Imagens de shows, sessões de estúdio e de filmagens caseiras, editadas de maneira frenética, garantem o aspecto visual do longa, que resulta bastante enxuto e informativo em seus 115 minutos. O produto final serve a fanáticos e neófitos na mesma medida sendo, portanto, bastante recomendável para qualquer um com interesse na história da música pop.

O documentário também permite que se compare as decisões artísticas e pessoais feitas por McCartney e Lennon após o fim dos Beatles e como cada um lidou com a vida a partir de então.

Exemplos não faltam. Enquanto John optou por viver no meio do furacão, indo para Nova Iorque e se tornando um feroz ativista político ao lado de Yoko Ono, McCartney se retraiu em uma fazenda no meio do nada da Escócia, em uma tentativa de se isolar do mundo. Mais tarde, Paul voltaria a cair na estrada, ao contrário do ex-colega que, aí, sim, abraçou a vida doméstica com devoção.

Por outro lado, ambos, abriram suas discografias pós-Fab Four com trabalhos bastante crus e produção bem distante da sofisticação que se ouviu em Abbey Road. Lennon com o confessional “Plastic Ono Band” e Paul com “McCartney”, todo gravado em sua casa com uma máquina de quatro canais.

Se o filme tem alguns exageros – como colocar Paul como “criador do lo-fi” ou tratá-lo como uma espécie de iconoclasta por lançar a balada “Mull Of Kyntyre” no auge do punk – ele também não deixa de dar algumas alfinetadas em seu personagem principal. As cenas do especial televisivo “James Paul McCartney” são particularmente constrangedoras e não foram ignoradas.

YouTube reprodução

Também é interessante ver Paul deixando, nem que por poucos momentos, a imagem de bom moço de lado. Vê-lo se defendendo da acusação feita por John em “How Do You Sleep” que a única coisa que ele havia feito foi “Yesterday” é impagável. O baixista lembra que também escreveu “Let It Be”, “The Long and Winding Road” e outras dezenas de clássicos. Bonita também é a lembrança da reconciliação entre os dois que merece ser apreciada sem spoilers.

Man On The Run, também não cai na armadilha de tratar toda a produção do músico feita neste período como clássica. “Ram” (1971), o segundo álbum, creditado a Paul e Linda, visto com desdém quando saiu e hoje reconhecido como obra-prima, é merecidamente celebrado. Mas não esperem o mesmo tratamento para, digamos, “Wild Life” ou “Red Rose Speedway”. Dito isso, este jornalista fã inverterado do pouco amado “London Town”, gostaria de vê-lo mais apreciado por seu criador.

O documentário sobretudo mostra Paul em sua tentativa quixotesca de ser apenas mais um membro de um grupo, como se isso fosse minimamente possível. Em muitas entrevistas, ele disse que não estava interessado em criar uma superbanda como estava em voga nos anos 70.

Obviamente, o que ele não queria mais era dividir o protagonismo – coisa que, a não ser esporadicamente, ele jamais voltou a se permitir. Portanto, cercar-se da esposa, o fiel escudeiro Denny Laine e uma série de músicos de carreira até então discreta, foi o caminho escolhido pela superestrela.

Não à toa, os Wings nunca conseguiram uma formação estável. Com membros entrando e saindo em grande velocidade, o grupo era mesmo um veículo para sua maior estrela.

McCartney também assume que a formação definitiva dos Wings foi a que foi para a estrada em 1975 e 1976 batendo recordes de público. E são cenas desta época que formam o centro do filme, com Paul de volta ao centro do mundo do rock.

YouTube

O filme também deixa claro como era impossível para aquele inglês de Liverpool livrar-se da sombra dos Beatles. Em toda conversa com jornalistas, ele sempre precisa responder sobre uma possível reunião da banda. Enquanto isso, nos shows, há sempre pessoas da mídia cobrindo as performances na esperança de que Lennon suba ao palco de surpresa.

Filme termina com McCartney no pior momento da vida

Man On The Run vai chegando ao fim com McCartney um tanto perdido. Os Wings estão novamente com novos membros e o disco “Back To The Egg” é um fracasso de vendas – ao menos em termos McCartianos.

As coisas iriam piorar. Em 1980, ao chegar ao Japão, as autoridades encontraram um saco de maconha na bagagem do astro que foi imediatamente levado para a prisão. De repente, a letra de “Band On The Run”, passa a fazer mais sentido do que ele jamais poderia imaginar.

Após ser solto, o músico decide novamente gravar um disco caseiro. “McCartney II” tinha “Coming Up”, a canção que inspirou Lennon a retornar ao estúdio, e o futuro parecia iluminado para os dois – agora reconciliados e felizes com suas carreiras. Em 8 de dezembro daquele ano, Lennon foi assassinado e a vida nunca mais foi a mesma.

YouTube

A cena dele falando com a imprensa em estado próximo do catatônico é das mais fortes do documentário.

Antes do final, Man On The Run oferece outro grande momento. É quando Sean Lennon conta que ao olhar a coleção de LPs do pai percebeu que a cópia de “McCartney” que encontrou na prateleira estava bastante gasta, prova que aquele disco havia sido muito tocado pelo seu dono.

Leia outras críticas: