Crítica | Vidas Entrelaçadas é um desfile melancólico onde ninguém exerce sua função
Synapse/Divulgação

Crítica | Vidas Entrelaçadas é um desfile melancólico onde ninguém exerce sua função

Vidas Entrelaçadas acompanha a vida de três mulheres durante a semana de moda de Paris: uma modelo, uma maquiadora e uma cineasta. Cada uma delas está em uma década diferente da vida, enfrentando os desafios peculiares de cada idade. Ada (Anyier Anei) é uma modelo de dezoito anos recém-descoberta por um teste em vídeo, que mal sabe andar de salto alto e se vê lançada na abertura de um desfile importante longe de casa. Angèle (Ella Rumpf) é uma maquiadora na casa dos trinta que dedica mais atenção a uma ligação telefônica do que às pinceladas rápidas que dá no rosto de uma manequim, enquanto nutre o desejo de se tornar escritora. E Maxine (Angelina Jolie) é uma cineasta norte-americana de aura etérea e letárgica, contratada para dirigir um vídeo de horror para a apresentação de uma grife, mas que descobre um câncer de mama exatamente às vésperas do primeiro grande projeto de sua trajetória.

Todas elas encaram um momento decisivo de virada em suas vidas, e cabe a cada uma decidir se vai afundar ou dar a volta por cima. Esses pontos de inflexão têm como pano de fundo a Paris Fashion Week, evento do qual todas participam de alguma forma. No entanto, a ambientação no competitivo universo da alta-costura revela-se uma armadilha de aparências. O que poderia ser um retrato da agitação frenética dos bastidores se converte, sob a direção de Alice Winocour (“Memórias de Paris”), em um estudo de melancolia e alheamento. Os poucos dias que acompanhamos funcionam menos como imersão na indústria e mais como um parêntese suspenso na rotina dessas figuras, que perambulam pelos ateliês e backstages com o ar distraído de fantasmas absortos em seus próprios dilemas pessoais.

É nesse ponto que o filme revela sua natureza paradoxal: embora o título original, “Couture”, remeta ao ofício da costura e o nacional, Vidas Entrelaçadas, sugira a confluência de destinos, as protagonistas jamais exercem de fato as funções para as quais foram escaladas. Maxine delega a direção do vídeo à sua equipe e se ausenta para consultas médicas, sem jamais demonstrar real envolvimento com o gênero de horror que deveria estar criando. Ada nunca havia pisado em uma passarela antes, aceitando o convite quase por acaso. Angèle, por sua vez, dedica-se mais à sua ambição literária do que à arte de embelezar rostos. A moda, elemento central da ambientação, revela-se um adereço dispensável, um pretexto cenográfico para que a câmera de Winocour registre a letargia de personagens que cruzam os mesmos corredores sem jamais construir laços significativos entre si.

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A própria condução do elenco parece refletir essa indiferença calculada. Ella Rumpf mantém a aura magnética que já exibia em “Raw”, e sua Angèle possui uma presença intrigante, ainda que a narrativa lhe ofereça pouco além de telefonemas e gestos contidos. Angelina Jolie, por sua vez, entrega uma atuação bela e vulnerável, habitando Maxine com uma força silenciosa que dialoga, de forma extrafílmica, com sua própria biografia – a atriz passou por uma mastectomia real, ecoando a jornada da personagem.

No entanto, a conexão emocional com o público esbarra na apatia que a diretora imprime à figura central. Maxine não parece se importar com seu vídeo de terror, nem com o desfile, tampouco com a gravidade do diagnóstico que recebe. Qualquer tentativa de potência dramática se dilui em uma atmosfera de alheamento blasé, onde até mesmo metáforas visuais – como o dedo da costureira interpretada por Garance Marillier ferido por uma agulha, justaposto à descoberta do câncer – soam excessivamente óbvias e subaproveitadas.

O elenco de apoio, repleto de nomes de peso do cinema francês como Vincent Lindon, Louis Garrel e Grégoire Colin, também parece desperdiçado em papéis que pouco acrescentam à costura geral. Lindon encarna um médico frio e pragmático, Garrel faz uma ponta como colega de equipe e amante acidental, enquanto Colin surge como o diretor rico que financia a produção sem nunca a supervisionar.

Crítica | Vidas Entrelaçadas é um desfile melancólico onde ninguém exerce sua função
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São peças de um tabuleiro que o roteiro não sabe bem como movimentar, resultando em uma colcha de retalhos onde os fios narrativos raramente se cruzam de maneira determinante. As mulheres permanecem ilhadas em suas próprias angústias – o divórcio de Maxine, a guerra civil no Sudão do Sul que ronda a memória de Ada, as aspirações literárias de Angèle –, mas esses conflitos são tratados como notas de rodapé, menções passageiras que jamais contaminam a trama ou se convertem em discussão articulada.

Talvez o principal incômodo de Vidas Entrelaçadas resida justamente nessa ausência de um ponto de vista firme, de um discurso estruturado sobre a vivência no mundo da moda – seja sobre seus ritmos extenuantes, os padrões de beleza excludentes ou a solidão dos bastidores. A diretora parece observar esse universo com a polidez distante de quem aceita um trabalho temporário sem qualquer envolvimento afetivo.

A chuva torrencial que irrompe durante o desfile funciona como um deus ex machina climático que pouco resolve e pouco transforma: a modelo segue caminhando, a cineasta foge sem alarde, a maquiadora já havia partido. Falta visceralidade à fotografia, que registra os ateliês brancos como se fossem consultórios médicos, e o vendaval como um ensaio editorial sofisticado. As referências ao cinema de horror, aos contos de fadas violentos e às figuras femininas envoltas em capas vermelhas são sugeridas, mas nunca desenvolvidas, permanecendo como ecos ocos.

Vidas Entrelaçadas se assemelha ao livro que Angèle pretende escrever: uma coleção de histórias sobre pessoas que vagueiam pelos bastidores de um grande evento, simplesmente pelo prazer de contá-las, sem a pressão de extrair delas qualquer significado mais profundo. É um filme correto, polido e esteticamente agradável, mas que carece de ousadia e de uma verdadeira vontade de se debruçar sobre o que seus personagens – e seu cenário – teriam a oferecer. A experiência termina como uma conversa ouvida por acaso: presta-se uma atenção educada, mas assim que a prosa se encerra, as vozes e os rostos já começam a se dissipar da memória. Um aperto de mão respeitoso, sem dúvida, mas que não chega a deixar marcas na pele.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.