O Motionless in White nunca se limitou ao metalcore tradicional. Formado em 2004, em Scranton, Pensilvânia, o grupo liderado por Chris Motionless criou uma identidade única ao unir metalcore, metal industrial, nu metal e uma estética inspirada no cinema de horror. Em duas décadas, a banda encontrou o equilíbrio entre peso, melodias marcantes e experimentação, consolidando-se como uma das forças do metal moderno.
Após quatro anos desde Scoring the End of the World , o Motionless in White retorna com Decades, seu sétimo álbum de estúdio. O trabalho celebra os 20 anos da banda e chega em seu auge, impulsionado por turnês em arenas e uma apresentação histórica no Madison Square Garden.
Mais do que revisitar o passado, o disco mostra que o Motionless in White continua disposto a sair da zona de conforto e expandir sua sonoridade, mesmo assumindo alguns riscos pelo caminho.
Um início que reafirma a identidade da banda
A faixa-título escancara as cartas logo de cara. Ao encarar os vinte anos de trajetória do grupo, a música entrega aquela sensação boa de que “Decades” funciona tanto como celebração quanto como um recado direto de continuidade. Os riffs velozes e a agressividade resgatam a raça das raízes da banda, deixando evidente que Chris Motionless e companhia não pretendem desacelerar tão cedo.
Logo em seguida, “log_in//crash_out” muda o rumo do disco ao mergulhar de cabeça no industrial e na eletrônica. Além disso, a faixa resgata a energia de “</c0de>”, de Disguise, mas soa como uma evolução natural daquela ideia. Com isso, os sintetizadores deixam de ser mero plano de fundo e assumem o controle da identidade sonora da música.
Emoção e experimentação
A primeira metade do álbum alterna momentos de peso puro e respiros emocionais com muita naturalidade. “R.I.P.” surge como a grande balada do trabalho e entrega exatamente o que promete. A participação de Skylar Grey eleva o peso sentimental da composição, abrindo espaço para Chris entregar uma de suas interpretações mais vulneráveis dos últimos anos.
Sem pedir licença, “Fight Like Hell” quebra totalmente essa atmosfera ao pegar a influência do nu metal dos anos 2000. As referências a nomes como Korn, Limp Bizkit e Breaking Benjamin transparecem no peso dos riffs e na dinâmica dos vocais. Portanto, é um som divertido e cheio de energia, embora acabe dependendo mais das suas referências do que de uma identidade realmente própria.
É aí que “Playing God” eleva o álbum ao seu topo. A crítica afiada à cultura tóxica da internet ganha vida em um instrumental esmagador com um refrão que gruda na mente. Para melhorar, a entrada de Corey Taylor encaixa de primeira, sem soar como mero caça-cliques. É nesse tipo de entrega que o Motionless in White mostra por que continua acertando o tom do metalcore contemporâneo.
Quando os eletrônicos se tornam protagonistas
Na sua segunda metade, faixas como “Blood Rave”, “Love at First Bite” e “Count Back From Zero” aprofundam a fusão entre sintetizadores, batidas industriais e guitarras pesadas. “Love at First Bite”, em especial, funciona como uma continuação de “Werewolf”, mantendo o clima sombrio enquanto caminha por melodias mais acessíveis.
Essa aposta rende ótimos momentos. “Count Back From Zero” equilibra peso, refrões e programação eletrônica. O problema é que o uso contínuo dessa fórmula faz com que algumas faixas passem a dividir uma estrutura parecida demais, o que tira um pouco do impacto que a experimentação causava no início do disco.
E nem todas as apostas acertam. O breakdown em dubstep de “All That I’ve Ever Known” despenca o ritmo da música de forma brusca, enquanto “Blood Pact” acaba sendo um dos momentos menos inspirados do trabalho, falhando em transformar boas ideias em algo memorável.
Uma reta final que lembra por que a banda chegou até aqui
Quando o álbum corre o risco de se acomodar, “Afraid of the Dark” resgata o que o Motionless in White tem de melhor. A faixa reúne peso, sentimento, melodias marcantes e uma estrutura redonda, além de trazer guitarras e passagens que remetem diretamente ao metalcore do início dos anos 2000, funcionando como o ponto exato onde todas as ideias do disco finalmente se encontram.
O encerramento fica por conta de “Sunglasses at Night”, releitura mais robusta do clássico synth-pop lançado em 1984 pelo cantor canadense Corey Hart. A versão original se tornou um grande sucesso da década de 1980, marcada pelos sintetizadores e pelo refrão inconfundível, enquanto o Motionless in White transporta a canção para seu próprio universo, substituindo o brilho oitentista por guitarras, atmosfera obscura e vocais carregados de dramaticidade.
Longe de soar como um cover feito apenas por nostalgia, a releitura preserva a essência da composição de Corey Hart. Ao mesmo tempo, dialoga naturalmente com a identidade construída ao longo de Decades. Desse modo, é um encerramento que reforça a influência dos elementos eletrônicos presentes durante todo o álbum e fecha a celebração dos 20 anos da banda de forma coerente.
Veredito
Decades é um disco que entende a história do Motionless in White. Ao longo do álbum, a banda passeia por elementos que marcaram suas diferentes fases, arrisca novos caminhos e reafirma sua assinatura sem medo de agradar a base de fãs.
O tropeço do trabalho está justamente nessa tentativa de abraçar muitos públicos ao mesmo tempo. O álbum oscila entre momentos brilhantes e passagens que parecem seguir uma receita já conhecida, impulsionadas pela repetição dos recursos eletrônicos.
Ainda assim, a banda mostrou o tamanho do fôlego criativo que o grupo ainda tem para queimar. Sendo assim, Decades pode não ser o trabalho mais marcante da discografia do Motionless in White, mas cumpre com louvor seu papel de celebração. Um registro festivo, imperfeito, que olha para o passado e que prova que, mesmo após vinte anos de estrada, a banda se recusa a estagnar.
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