Crítica | Colegas e o Herdeiro: inclusão e boas intenções não fazem um filme bom
Primeiro Plano/Divulgação

Crítica | Colegas e o Herdeiro: inclusão e boas intenções não fazem um filme bom

O filme parece acreditar que sua maior virtude está em simplesmente reunir esse grupo diante das câmeras. Eles podem fugir, viajar, se apaixonar, sonhar, enfrentar bandidos e atravessar uma fronteira. É, sem dúvidas, importante (e eu diria até saudável para o audiovisual) personagens com deficiência não precisam estar condenados ao sofrimento, à superação ou à função de ensinar alguma lição ao público. Podem apenas viver uma aventura. O problema de Colegas e o Herdeiro é que a aventura foi construída como se todos os personagens fossem crianças brincando numa enorme caixa de brinquedos.

A direção aposta em cores suaves, cenários artificiais, objetos cenográficos ostensivos e uma atmosfera próxima da maquete. A fotografia reforça esse universo de fantasia, enquanto a trilha acompanha a movimentação incessante da trama. Tudo parece feito para afastar qualquer sensação de perigo real. Mesmo quando existe perigo, o filme rapidamente o dissolve em uma piada, uma música ou uma nova peripécia.

Crítica | Colegas e o Herdeiro: inclusão e boas intenções não fazem um filme bom
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O roteiro funciona por acumulação. Tem fuga, herança, pedras preciosas, romance, investigação policial, sonho profissional, greve de fome, medo do escuro, perseguição e uma viagem internacional. Cada ideia parece convocar outra, como se o argumento tivesse sido montado a partir de uma lista de possibilidades que ninguém quis eliminar. A aventura rumo ao encontro com Stallone já seria suficiente para sustentar o percurso. Ainda assim, o filme acrescenta vilões, romances e subtramas até transformar a narrativa em uma espécie de parque de diversões. O absurdo, por si, não é um defeito. Uma comédia pode ser delirante. O problema surge quando a licença para o absurdo também serve para dispensar as consequências.

É especialmente difícil ignorar a quantidade de situações envolvendo assédio e violência sexual tratadas como brincadeira. Stallone fotografa Magrelo nu durante o banho, espalha as imagens e depois participa de uma nova exposição pública do corpo do rapaz. Em outro momento, um homem se exibe na sauna. Há ainda a invasão do banheiro feminino e o comportamento de um personagem machista que puxa uma funcionária para perto de seu corpo. O roteiro passa por tudo isso com a mesma leveza dedicada às demais trapalhadas.

A pergunta não é se uma comédia pode abordar situações moralmente desagradáveis. Pode. A questão é o que ela faz com elas. Aqui, agressões são frequentemente reduzidas a mecanismos de gag. O constrangimento vira decoração narrativa. A violência desaparece antes mesmo de produzir qualquer consequência. Isso pesa ainda mais porque o filme deseja trabalhar com inclusão.

Existe uma diferença enorme entre não infantilizar pessoas com deficiência e infantilizar todo o universo ao redor delas. Colegas e o Herdeiro escolhe a segunda alternativa. Jovens, adultos, protagonistas, vilões, policiais: todos parecem submetidos ao mesmo regime de inocência artificial. O mundo funciona como desenho animado, e o roteiro parece determinado a impedir que qualquer acontecimento permaneça grave por tempo suficiente.

Luiza Godoi, também presente em “A Holandesinha”, ajuda a lembrar que existe outro caminho. Naquele filme, a personagem enfrenta desafios ligados ao trabalho e à realização de um curta-metragem. O conflito é adulto, profissional, concreto. Não existe necessidade de transformar sua experiência em uma fábula infantil para que a deficiência esteja presente.

Colegas e o Herdeiro poderia radicalizar justamente aquilo que sua proposta tem de mais interessante: permitir que atores com Síndrome de Down ocupem gêneros diversos e personagens que não dependam da deficiência para existir. Em vez disso, a narrativa frequentemente os coloca numa bolha de ingenuidade.

A narração em off reforça esse movimento. Ela explica acontecimentos que a imagem já mostrou, verbaliza sentimentos e entrega conclusões prontas. Quase nada precisa ser interpretado. A voz funciona como um adulto explicando uma história para crianças que, curiosamente, já estão assistindo às mesmas imagens que nós.

Até a estrutura narrativa parece desconfiar do espectador. O narrador conhece acontecimentos simultâneos em diferentes lugares e, ao mesmo tempo, participa da própria história. A abertura, envolvendo um produtor cego já morto convertido em narrador de sua própria morte, adiciona uma camada de estranheza a uma solução que pretende soar como homenagem.

Crítica | Colegas e o Herdeiro: inclusão e boas intenções não fazem um filme bom
Primeiro Plano/Divulgação

O filme quer apenas brincar. E brincar é legítimo. O cinema também pode ser desajeitado, excessivo, sentimental e absurdo. Mas uma obra que se apresenta sob a bandeira da inclusão não deveria transformar a própria inclusão em argumento para pedir indulgência.

É importante que João Vitor Paiva, Luiza Godoi e tantos outros atores com deficiência estejam ali. Mais importante ainda seria vê-los em histórias que não confundam leveza com simplificação.

O público infanto-juvenil não precisa de obras feitas com algodão em volta. “Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa” demonstra que aventura, humor e fantasia podem conviver com questões familiares, sociais e afetivas sem tratar o espectador como incapaz de compreender complexidade.

Por isso, o debate provocado por Colegas e o Herdeiro não precisa terminar na pergunta sobre representatividade. A questão seguinte é mais incômoda: o que estamos oferecendo aos artistas depois de finalmente abrir espaço para eles? Porque colocá-los na tela é um começo. Dar-lhes personagens interessantes é outro. Confiar que o público pode acompanhá-los em histórias mais densas talvez seja o próximo passo.

Simpatia não deveria comprar passe livre para qualquer escolha.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.