“Café com leite” é uma expressão curiosa. Carinhosa, popular, quase sempre acompanhada de alguma indulgência. Serve para aquilo que está autorizado a participar, desde que ninguém espere demais. É justamente essa sensação que atravessa Colegas e o Herdeiro. A simpatia pelo projeto vem antes de qualquer avaliação. Afinal, colocar novamente no centro do cinema brasileiro um elenco majoritariamente formado por atores com Síndrome de Down, transformar esses artistas em protagonistas de uma aventura popular e ampliar o universo de “Colegas”, lançado em 2021, de Marcelo Galvão, é uma iniciativa que merece ser observada com atenção. Mas inclusão não pode significar baixar a régua.
O filme parece acreditar que sua maior virtude está em simplesmente reunir esse grupo diante das câmeras. Eles podem fugir, viajar, se apaixonar, sonhar, enfrentar bandidos e atravessar uma fronteira. É, sem dúvidas, importante (e eu diria até saudável para o audiovisual) personagens com deficiência não precisam estar condenados ao sofrimento, à superação ou à função de ensinar alguma lição ao público. Podem apenas viver uma aventura. O problema de Colegas e o Herdeiro é que a aventura foi construída como se todos os personagens fossem crianças brincando numa enorme caixa de brinquedos.
A direção aposta em cores suaves, cenários artificiais, objetos cenográficos ostensivos e uma atmosfera próxima da maquete. A fotografia reforça esse universo de fantasia, enquanto a trilha acompanha a movimentação incessante da trama. Tudo parece feito para afastar qualquer sensação de perigo real. Mesmo quando existe perigo, o filme rapidamente o dissolve em uma piada, uma música ou uma nova peripécia.

O roteiro funciona por acumulação. Tem fuga, herança, pedras preciosas, romance, investigação policial, sonho profissional, greve de fome, medo do escuro, perseguição e uma viagem internacional. Cada ideia parece convocar outra, como se o argumento tivesse sido montado a partir de uma lista de possibilidades que ninguém quis eliminar. A aventura rumo ao encontro com Stallone já seria suficiente para sustentar o percurso. Ainda assim, o filme acrescenta vilões, romances e subtramas até transformar a narrativa em uma espécie de parque de diversões. O absurdo, por si, não é um defeito. Uma comédia pode ser delirante. O problema surge quando a licença para o absurdo também serve para dispensar as consequências.
É especialmente difícil ignorar a quantidade de situações envolvendo assédio e violência sexual tratadas como brincadeira. Stallone fotografa Magrelo nu durante o banho, espalha as imagens e depois participa de uma nova exposição pública do corpo do rapaz. Em outro momento, um homem se exibe na sauna. Há ainda a invasão do banheiro feminino e o comportamento de um personagem machista que puxa uma funcionária para perto de seu corpo. O roteiro passa por tudo isso com a mesma leveza dedicada às demais trapalhadas.
A pergunta não é se uma comédia pode abordar situações moralmente desagradáveis. Pode. A questão é o que ela faz com elas. Aqui, agressões são frequentemente reduzidas a mecanismos de gag. O constrangimento vira decoração narrativa. A violência desaparece antes mesmo de produzir qualquer consequência. Isso pesa ainda mais porque o filme deseja trabalhar com inclusão.
Existe uma diferença enorme entre não infantilizar pessoas com deficiência e infantilizar todo o universo ao redor delas. Colegas e o Herdeiro escolhe a segunda alternativa. Jovens, adultos, protagonistas, vilões, policiais: todos parecem submetidos ao mesmo regime de inocência artificial. O mundo funciona como desenho animado, e o roteiro parece determinado a impedir que qualquer acontecimento permaneça grave por tempo suficiente.
Luiza Godoi, também presente em “A Holandesinha”, ajuda a lembrar que existe outro caminho. Naquele filme, a personagem enfrenta desafios ligados ao trabalho e à realização de um curta-metragem. O conflito é adulto, profissional, concreto. Não existe necessidade de transformar sua experiência em uma fábula infantil para que a deficiência esteja presente.
Colegas e o Herdeiro poderia radicalizar justamente aquilo que sua proposta tem de mais interessante: permitir que atores com Síndrome de Down ocupem gêneros diversos e personagens que não dependam da deficiência para existir. Em vez disso, a narrativa frequentemente os coloca numa bolha de ingenuidade.
A narração em off reforça esse movimento. Ela explica acontecimentos que a imagem já mostrou, verbaliza sentimentos e entrega conclusões prontas. Quase nada precisa ser interpretado. A voz funciona como um adulto explicando uma história para crianças que, curiosamente, já estão assistindo às mesmas imagens que nós.
Até a estrutura narrativa parece desconfiar do espectador. O narrador conhece acontecimentos simultâneos em diferentes lugares e, ao mesmo tempo, participa da própria história. A abertura, envolvendo um produtor cego já morto convertido em narrador de sua própria morte, adiciona uma camada de estranheza a uma solução que pretende soar como homenagem.

O filme quer apenas brincar. E brincar é legítimo. O cinema também pode ser desajeitado, excessivo, sentimental e absurdo. Mas uma obra que se apresenta sob a bandeira da inclusão não deveria transformar a própria inclusão em argumento para pedir indulgência.
É importante que João Vitor Paiva, Luiza Godoi e tantos outros atores com deficiência estejam ali. Mais importante ainda seria vê-los em histórias que não confundam leveza com simplificação.
O público infanto-juvenil não precisa de obras feitas com algodão em volta. “Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa” demonstra que aventura, humor e fantasia podem conviver com questões familiares, sociais e afetivas sem tratar o espectador como incapaz de compreender complexidade.
Por isso, o debate provocado por Colegas e o Herdeiro não precisa terminar na pergunta sobre representatividade. A questão seguinte é mais incômoda: o que estamos oferecendo aos artistas depois de finalmente abrir espaço para eles? Porque colocá-los na tela é um começo. Dar-lhes personagens interessantes é outro. Confiar que o público pode acompanhá-los em histórias mais densas talvez seja o próximo passo.
Simpatia não deveria comprar passe livre para qualquer escolha.
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