Existe um tipo de filme que só pode existir por colisão entre ambição e timing de indústria. O Fim da Rua, o mais recente trabalho do cineasta David Robert Mitchell, ambientado nos subúrbios americanos de 1982, é exatamente esse tipo de acidente feliz – um blockbuster de dinossauros que opera como se seus criadores tivessem deliberadamente esquecido de deixar o humano de lado para priorizar o espetáculo.
O ponto de partida é uma ideia que Mitchell usa quase como epígrafe: o mundo já estava se acabando muito antes de qualquer dinossauro aparecer. A família Platt, centro gravitacional do longa, não foi surpreendida pelo fim do mundo quando o subúrbio de Flowervale despertou no período Cretáceo numa noite qualquer. Ela já estava em plena implosão silenciosa – a dissolução que os subúrbios americanos foram construídos para esconder de si.
Quem acompanha o percurso de Mitchell sabe que ele opera como um pesquisador cinéfilo. Em “A Corrente do Mal”, o horror adolescente foi reconfigurado em algo que perseguia seus personagens com a persistência inexorável de um trauma sexual. Em “Under the Silver Lake”, o noir de investigação se desdobrou num labirinto de paranoia que engolia o próprio protagonista. O Fim da Rua parece, num primeiro olhar, um desvio completo dessa trajetória, um filme de aventura familiar ao estilo Amblin Entertainment, com crianças pedalando em câmera lenta e criaturas pré-históricas aterrorizando o midwest. Mas Mitchell não imita. Ele entra no território com suas próprias obsessões e as planta ali dentro, como se o subúrbio idílico de “Tubarão” e “E.T.” tivesse sempre sido, secretamente, o cenário de uma história bem diferente.
A escolha de ter J. J. Abrams como produtor carrega uma ironia que o filme parece consciente. Afinal, Abrams já tentou o próprio pastiche “amblinian”o em “Super 8”, em 2011, com resultados que agradaram sem incomodar. Mitchell vai por um caminho diferente. Em vez de evocar nostalgia para confirmar o afeto do espectador, ele usa a estética dos anos 1980 como uma ferramenta de diagnóstico. O bairro de Flowervale, banhado pela fotografia de Michael Gioulakis num dourado quase adoecido, não é um lugar para onde se quer voltar. É um lugar que nunca foi o que prometia ser.

Gioulakis, parceiro de Mitchell desde Corrente do Mal, encontra aqui uma das suas colaborações mais precisas. Os planos abertos das ruas sem saída que definem a geometria do subúrbio americano, acumulam uma função dramatúrgica ao longo de todo o filme. São enquadradas com placidez e repetição até que, quando os predadores finalmente aparecem, o espectador percebe o que sempre esteve implícito naquela arquitetura. Um beco sem saída é uma boa metáfora: divertido para pedalar com amigos numa tarde de verão, fatal quando se tenta escapar de uma matilha de Celofísios. Mitchell e Gioulakis tornam isso visualmente inevitável sem precisar explicar.
A família Platt funciona como microcosmo do colapso que o filme quer examinar. Denise (Anne Hathaway) está secretamente escrevendo uma autobiografia sobre seus planos de abandonar o lar – revelação que o roteiro de Mitchell planta cedo e deixa crescer como uma fissura por baixo do assoalho. O marido Greg (Ewan McGregor) envergonha-se de fazer entregas de pizza para complementar a renda, escondendo dos filhos um fracasso que eles já deduziram. Os adolescentes Audrey (Maisy Stella) e Brian (Christian Convery), cada um a seu modo, já aprenderam a ler o que não é dito naquela casa. A crise financeira e afetiva dos Platt não é pano de fundo: é o centro do filme. Bom, e os dinossauros, eles fazem parte da consequência física de algo que já estava em andamento.
Hathaway entrega uma das suas performances mais econômicas em anos, aquela em que mais está acontecendo por baixo da superfície. Há momentos em que ela carrega amor feroz e lamento não verbalizado na mesma expressão, como se Denise soubesse exatamente o tamanho da contradição que habita. Convery, por sua vez, não deixa que a bravata de Brian encubra o peso real que sustenta. Existe um terror genuíno sob cada gesto de coragem do adolescente, e o ator encontra esse equilíbrio sem esforço aparente. O texto também reserva para Brian um subtexto de sexualidade em despertar – a revista Playboy escondida, os olhos fixos na vizinha Jeanette (Jordan Alexa Davis), que estudou num colégio particular e habita um mundo que ele ainda não sabe nomear. É um detalhe que conecta O Fim da Rua à filmografia anterior de Mitchell, sua curiosidade persistente por figuras com os hormônios em ebulição.
A estrutura do filme, que salta de uma ameaça à próxima dentro da lógica de quem precisa ser salvo agora, poderia soar mecânica. Mas há um argumento implícito nessa repetição. É assim que lares em dissolução funcionam. Estabelece-se um ritmo de crise para não precisar parar e olhar para o que está realmente quebrado. O Fim da Rua não tem pressa em resolver seus personagens, e isso nem de longe é um descuido. É também uma escolha temática, a estrutura do blockbuster como simulacro da normalização do horror doméstico.

Mitchell se aproxima mais dos “primos sombrios” de Spielberg do que do próprio. Há algo de “Poltergeist” (Tobe Hooper) e muito de “Os Suburbanos” (Joe Dante) no modo como O Fim da Rua trata o horror como revelação do que já estava ali, latente. Mitchell incorpora essa lógica e empurrado ainda mais longe. No longa não existe uma cena em que alguém contempla a grandiosidade das criaturas pré-históricas. Elas não existem para provocar maravilhamento, mas para de fato, devorarem.
A trilha sonora de Michael Giacchino opera dentro dessa lógica com sofisticação considerável. Em vez de um pastiche de John Williams, Giacchino brinca com a expectativa. Numa sequência, uma composição heroicamente triunfal acompanha alguém tentando escapar de um Alossauro – e a música continua tocando em glória enquanto o personagem é devorado. É uma piada cruel e perfeitamente calibrada. Complementar a isso, o design de som usa os gritos dos vizinhos como metonímia. Amortecidos enquanto a família Platt martela tábuas para selar a própria casa, eles somem à medida que os pregos entram. A trilha sonora do isolamento é o silêncio do outro.

O Fim da Rua fecha com um desfecho mais maliciosamente perversos do cinema de entretenimento dos últimos anos. Mitchell dedicou o longa ao próprio pai, e essa dedicatória carrega um peso estranho diante de tudo o que o filme faz com a figura paterna, com o fracasso silencioso de prover, e com a impossibilidade de ser honesto dentro de casa. É uma obra que fala sobre os segredos que habitam os lares, sobre o derramamento de sangue latente nos paraísos que construímos – e sobre o orgulho que precede a destruição.
Quando os dinossauros finalmente chegam a Flowervale, o mundo dos Platt já tinha terminado há algum tempo. Mitchell apenas tornou isso visível para todos.
Leia outras críticas:






















Deixe uma resposta