Divulgação: Turmallina

Crítica | Em ‘Enquanto o Mundo Dorme’, a Turmallina acorda em camadas de ruído e afeto

A turmalina é um dos minerais mais singulares que a geologia conhece. Dependendo do ângulo em que a luz incide sobre ela, a mesma pedra exibe tonalidades completamente diferentes – verde, azul, rosa, negro – numa propriedade chamada pleocroismo. Quem escolhe nomear um projeto musical a partir dessa gema não está apenas selecionando uma palavra sonora: está assinando uma postura. Múltipla, refratária, capaz de apresentar faces distintas conforme o ouvinte se aproxima. Turmallina, com Enquanto o Mundo Dorme, parece plenamente ciente desse compromisso.

O título funciona quase como instrução de uso. O shoegaze e o dreampop – gêneros que a banda habita com propriedade considerável – têm uma vocação noturna quase constitutiva. Pedem silêncio do entorno para que o volume interno encontre seu lugar. As dez faixas do disco, distribuídas por quase cinquenta minutos de duração, constroem esse ambiente com diligência: guitarras empilhadas como névoa, reverb que alarga o espaço além das paredes, delay que fragmenta o tempo em repetições de si. A produção não disfarça essa escolha, o que é uma postura coerente, ainda que não isenta de consequências para quem percorre o álbum do começo ao fim sem pausa.

O trabalho mais divisor de águas do disco vem de Gabe Jordano, nos vocais. Não por fraqueza técnica – longe disso! –, mas porque carrega uma genealogia bastante identificável no emocore dos anos 2000, aquele registro emocional carregado que circulou extensamente pelas trilhas de séries adolescentes de TV. No refrão de “Mil Pedaços”, essa conexão se torna quase palpável – a curva melódica, a entrega, o enquadramento lírico parece ter atravessado uma máquina do tempo de vinte anos. Para quem cresceu sintonizando aquele formato, o reconhecimento chega antes do raciocínio. Mas o ponto aqui não é de condenação. Gabe encontrou um caminho vocal que não tenta replicar a estética etérea do gênero em sua forma original, mas a cruza com uma sensibilidade doméstica que confere ao projeto um timbre próprio.

Essa é, aliás, a decisão estética mais significativa do álbum. Cantar em português, com clareza articulatória, sobre relacionamentos, sem o verniz anglofônico que muitas bandas brasileiras utilizam como escudo. No universo do Cocteau Twins, Elizabeth Fraser transformava o próprio idioma num instrumento de textura – as palavras importavam menos que a fonética, o sentido cedia espaço à vibração. A Turmallina inverte essa equação, o vocal é o elemento mais legível da arquitetura sonora, o ponto de ancoragem concreto em meio às camadas. Vale notar que projetos como Yma também disputam esse território, mas o dreampop cantado em português ainda representa um espaço consideravelmente raro no Brasil – o que confere à aposta da banda uma relevância que vai além do gosto pessoal.

Enquanto o vocal habita as camadas superiores, é no grave que o disco sustenta sua estrutura mais robusta. Eduardo Campos, no baixo, emerge como protagonista especialmente quando aciona o pedal de drive – efeito que adiciona saturação ao sinal do instrumento, alterando seu timbre de forma que vai do quente ao áspero, conforme a dosagem. Na abertura da canção que dá nome ao álbum, o grave passa a declarar a intenção da faixa antes mesmo que qualquer outro elemento se instale. A mixagem merece crédito aqui – o baixo não se dissolve na névoa das guitarras, ele sangra por entre elas com intencionalidade.

Paula Janssen, na bateria, opera em regime deliberadamente contido. Na “parede de som” construída pelo empilhamento denso de guitarras e efeitos que define o shoegaze como idioma, uma bateria que tenta se impor tende a romper a textura em vez de sustentá-la. Paula ancora sem disputar atenção, e quando Campos empurra o instrumento para o limite, é ela que impede o colapso dinâmico da cozinha. Existe uma cumplicidade nessa relação que o disco registra com nitidez, e que só se torna evidente quando se volta a atenção especificamente a cada camada, separando o que o mix funde de propósito.

As guitarras de Marcos Marques e Caio Silva (que também faz sinterizadores) atuam o disco todo com uma sincronia e dinâmica que “dão liga” ao som enquanto identidade. Elas não atuam na tradicional divisão entre guitarra base e guitarra solo. Marques, evidentemente, é quem pisa mais nos pedais de modulação, mas Silva, nem de longe atua como alguém para dar suporte. Isso fica evidente desde a abertura, na instrumental “Aquática”, com um slide sinalizando o que está por vir.

Essa parceria entre as guitarras encontra seu momento mais elaborado em “Flutuar”. O chorus final da faixa empilha camadas numa construção que se aproxima das arquiteturas de feedback que My Bloody Valentine popularizou – sem soar como decalque. É o ponto do disco em que a banda parece mais à vontade com sua própria linguagem, sem precisar justificar o que está edificando. A composição das faixas, de maneira geral, revela cuidado com estrutura interna. Há uma progressão dentro de cada canção que sabe equilibrar a ambiência etérea do gênero com a necessidade de uma movimentação narrativa, por menor que seja.

Crítica | Em 'Enquanto o Mundo Dorme', a Turmallina acorda em camadas de ruído e afeto
Rafael Penna/Divulgação

O que o álbum coloca em tensão, nas suas faixas finais, é justamente essa abundância de forma. Dez canções com textura densa, sem um momento de respiro mais radical, criam um efeito de saturação que ultrapassa o sonoro e alcança o auditivo. A ausência de uma faixa mais exposta – menos coberta de efeito, mais crua em sua estrutura – deixa uma lacuna perceptível. A ordenação das faixas, também, parece uma escolha que o álbum poderia ter explorado com maior estratégia. Existe um nivelamento de intensidade que, com o tempo, embota a percepção das diferenças entre as composições.

A turmalina, enquanto pedra, responde à luz que recebe. Enquanto o Mundo Dorme, enquanto disco, funciona de forma semelhante, soa diferente dependendo do fone, do volume, do estado mental de quem escuta. Essa sensibilidade à escuta é uma das marcas mais honestas que um disco desse gênero pode carregar. A conversa que esse álbum inicia – sobre a viabilidade de um dreampop genuinamente brasileiro, cantado numa língua que não esconde de si e em temáticas universais da juventude – é mais longa do que suas quase cinquenta minutos conseguem encerrar. Essa é a melhor notícia que o disco tem a dar.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.