Crítica | Hope: quando o impacto vem antes da história
Forged Films/Divulgação

Crítica | Hope: quando o impacto vem antes da história

Em Hope – O Primeiro Impacto, o movimento vem antes da explicação. Na Hong-jin não quer apresentar um mundo em ruínas ou uma história fantástica sobre uma invasão alienígena. A ação atravessa estradas, florestas e vilarejos com uma violência coreográfica; a fotografia abre o quadro para transformar a paisagem em escala e, logo depois, fecha o cerco sobre corpos que mal conseguem acompanhar o que acontece. É um cinema de impulso, músculo e velocidade. O curioso é que, quanto mais Hope corre, mais sua narrativa parece ficar para trás.

Existe uma certa coerência nesse desequilíbrio. Antes de mostrar as criaturas, o filme mostra o estrago. Veículos destruídos, construções violentadas, cadáveres deixados pelo caminho. O horror chega como vestígio, e a câmera sabe tirar proveito disso. Existe suspense na espera, mas também uma compreensão de que uma imagem pode ser mais perturbadora quando chega tarde demais. Quando os monstros ocupam finalmente o quadro, o mistério dá lugar ao espetáculo e Hope começa a revelar tanto suas ambições quanto suas limitações.

A primeira parte é hábil em trabalhar com aquilo que não se vê. A paisagem funciona como testemunha de uma violência que permanece parcialmente fora do quadro. Caminhões destruídos, construções devastadas e corpos esmagados aparecem como vestígios de algo que passou segundos antes. A câmera acompanha os sobreviventes com uma proximidade desconfortável, mas também sabe recuar para planos abertos em que vilarejos, florestas e estradas montanhosas parecem pequenos demais diante da escala da ameaça. A fotografia aproveita esse contraste com inteligência. A amplitude dos espaços naturais não transmite liberdade, mas vulnerabilidade.

Crítica | Hope: quando o impacto vem antes da história
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Essa escolha também ajuda a explicar por que a revelação das criaturas produz uma sensação ambígua. Enquanto permanecem como presença, Hope é mais ameaçador. Quando finalmente assumem o centro do quadro, os monstros ganham uma materialidade digital exuberante, mas também revelam referências bastante reconhecíveis. A combinação de Na’vi de “Avatar” com titãs de “Attack on Titan” pode soar como uma provocação, mas descreve bem a impressão de familiaridade que acompanha essas obras. O curioso é que o filme parece saber disso e, em vez de tentar esconder a artificialidade, abraça uma espécie de grandiosidade de videogame, com criaturas enormes correndo, saltando, sendo atingidas por uma quantidade absurda de munição e continuando a avançar.

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Sem revelar os personagens, é interessante a escolha curiosa no elenco internacional. Michael Fassbender e Alicia Vikander, rostos facilmente reconhecíveis dentro do cinema de ficção científica, aparecem aqui em uma posição bastante diferente daquela que se poderia esperar de duas estrelas desse porte.

O movimento é a verdadeira obsessão de Hope. A montagem transforma praticamente toda sequência de ação em uma fuga para a frente. Quando um carro para, alguma coisa explode; quando alguém parece ter encontrado segurança, surge outra ameaça; quando a estrada termina, a floresta assume a função de corredor. Existe uma qualidade quase atlética nesses set pieces, construídos para que a energia nunca desapareça completamente. A câmera atravessa os espaços, muda de escala, encontra novos ângulos e transforma a geografia em parte da coreografia. É um cinema que parece pensar primeiro em trajetórias: quem corre, quem persegue, quem cai, quem salta, quem é esmagado.

Esse rigor formal convive, entretanto, com uma dramaturgia que parece operar segundo outra lógica. O humor aparece nos momentos mais improváveis, inclusive quando a tensão deveria permanecer intacta. Um discurso sobre uma situação extrema pode ser atravessado por uma piada grotesca; uma pose de herói é rapidamente desmontada por algum tipo de humilhação física; uma apresentação aparentemente destinada a estabelecer uma figura de ação pode desembocar em um monólogo sobre diarreia. Essa comicidade desmonta continuamente a solenidade que a própria mise-en-scène constrói.

É uma escolha legítima e, em alguns momentos, bastante engraçada. Mas também cobra juros narrativos. A ameaça perde o impacto quando o filme transforma repetidamente situações de perigo em gag, enquanto os personagens, protegidos por uma resistência quase sobrenatural, deixam de parecer submetidos às mesmas regras das vítimas que aparecem pelo caminho. A física também passa a ser uma convenção elástica. Criaturas atravessam obstáculos, suportam sucessivas explosões e tiros, e a ação assume uma lógica próxima à de um jogo no qual a barra de energia do inimigo parece simplesmente se recusar a chegar ao fim.

A trilha sonora e o desenho de som participam dessa estratégia de aceleração. Explosões, impactos, correria e motores ajudam a manter o filme em estado de alerta permanente, mas a experiência sonora também acompanha a instabilidade tonal. O espetáculo quer ser simultaneamente brutal, engraçado, absurdo e grandioso.

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O roteiro é onde a conta fica mais difícil de fechar. A primeira metade está interessada em adiar respostas, e essa ausência de informação produz suspense. Depois, porém, Hope começa a apresentar elementos de uma mitologia que chegam tarde demais para reorganizar o que vimos. Surgem explicações, linguagens, relações entre as criaturas e pistas sobre uma história maior, mas elas não ampliam o impacto do que já estava na tela. A sensação é de que o filme quer construir um universo quando sua maior força estava justamente em nos deixar perdidos dentro dele.

Também falta aos sobreviventes uma camada dramática capaz de sustentar a duração. Hwang Jung-min, Jung Ho-yeon e Zo In-sung conduzem personagens submetidos a uma sucessão de situações extremas, mas a relação do espectador com esses corpos nem sempre acompanha a escala das ameaças. A resistência física dos protagonistas cria uma contradição curiosa: o filme é extremamente eficiente em mostrar como um ser humano pode ser destruído, mas menos eficiente em fazer com que temamos pela destruição daqueles que seguimos.

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É por isso que Hope funciona melhor como experiência formal do que como engrenagem narrativa. A direção de Na Hong-jin demonstra um controle impressionante sobre escala, movimento e espaço, especialmente quando a câmera encontra uma estrada, uma encosta ou uma floresta e transforma esses lugares em máquinas de perseguição. As cores também participam dessa construção, alternando tons naturais e sujos com momentos de maior artificialidade visual, reforçando a passagem de um mundo reconhecível para uma realidade cada vez mais estranha.

Hope deixa evidente a diferença entre imaginar e explicar. Enquanto o filme imagina, ele é inquietante, engraçado, grotesco e surpreendente. Quando começa a explicar demais, a maquinaria fica visível. E, diante de criaturas que parecem ter atravessado uma tela de videogame diretamente para uma superprodução sul-coreana, talvez seja menos importante entender todas as regras desse universo do que observar como Na Hong-jin transforma uma estrada, uma montanha ou um carro em palco para um espetáculo de violência quase sem freio.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.