capa do filme cartorio das almas
Divulgação/Machado Filmes

Crítica | Cartório das Almas é uma reflexão sobre a vida, a morte e a solidão

Cartório das Almas aborda imortalidade, memória e solidão em uma ficção científica reflexiva.

Cartório das Almas aborda imortalidade, memória e solidão em uma ficção científica reflexiva.

Cartório das Almas chama a atenção por ser um filme de ficção científica que aborda temas densos, como vida, morte, memória e questões existenciais, de maneira simples e, ao mesmo tempo, profunda. Apesar de pertencer ao gênero, o longa aposta em uma abordagem mais sóbria, sem grandes espetáculos tecnológicos. Em vez disso, concentra-se nas decisões dos personagens e explora o livre-arbítrio nesse mundo ou, em alguns casos, a ausência dele.

No filme, Laura é uma “jovem” de 126 anos contratada para trabalhar no Cartório das Almas, local onde são registrados os motivos que levam as pessoas a abrir mão da imortalidade. Sua responsabilidade é ouvir e registrar as razões pelas quais elas tomam essa decisão. No entanto, Laura não pode, em hipótese alguma, tentar convencê-las do contrário ou se aproximar de qualquer uma delas. Embora seu trabalho consista em lidar diariamente com a morte, ela é proibida por contrato de fazer o mesmo, estando condenada a viver para sempre.

O banho da imortalidade

Cartório das Almas não é um filme marcado por grandes espetáculos tecnológicos ou por um mundo mágico. Pelo contrário, nesse aspecto, a obra adota uma abordagem mais realista e sóbria. O elemento que mais se distancia da nossa realidade e se aproxima da ficção científica está nos banhos de imortalidade.

As pessoas vão a uma instituição, cuja natureza, pública ou privada, não fica clara, e tomam um banho em uma banheira com água branca. Esse ritual lhes concede a imortalidade, mas, aos poucos, também apaga suas memórias. Com o passar do tempo, elas deixam de se lembrar do próprio passado, de seus entes queridos e até mesmo dos motivos que as levaram a continuar vivendo. É como se todos passassem a viver no piloto automático, sem ambições e fazendo as coisas simplesmente por fazer.

É nesse ponto que encontramos uma das questões centrais do filme: vale a pena viver pela eternidade sem saber por que se deseja continuar vivendo?

O cartório da solidão

À medida que novas pessoas chegam ao Cartório das Almas, Laura ouve os mais diversos motivos que as levam a abrir mão da vida eterna. Ao mesmo tempo, ela participa do processo pelo qual essas pessoas deixam de existir e se transformam em pássaros pretos. Diante dessa rotina, Laura começa a se sentir cada vez mais sozinha e passa a questionar por que deveria continuar vivendo daquela maneira, em uma existência tão solitária e, por vezes, triste.

O filme não apresenta muita ação, momentos de grande intensidade ou cenas particularmente fortes. Até mesmo os diálogos são mais curtos e diretos. O diretor Leo Bello aposta, acertadamente, em planos mais abertos, que mostram os pássaros, a natureza, os campos descampados e a casa simples onde fica localizado o Cartório das Almas.

Com isso, essas cenas conseguem transmitir a sensação de solidão e vazio que a obra procura explorar. Somada a esse trabalho visual, a atuação brilhante de Gabriela Correa, que interpreta Laura, ajuda a manter a atenção do espectador e desperta a curiosidade sobre os rumos da história.

As expressões corporais de Gabriela também fazem com que o público mergulhe nos sentimentos da personagem e passe a compartilhar as sensações que ela experimenta, como dúvida, tristeza, solidão e o desejo de colocar um fim àquela situação.

Quando Laura decide parar de tomar os banhos de imortalidade, ela começa a se lembrar melhor dos dias que passam. A partir daí, questões como liberdade, memória, livre-arbítrio e solidão ganham ainda mais força, enquanto Laura se torna cada vez mais triste e aumenta seu desejo de colocar um fim àquela existência.

É nesse momento, porém, que surge um problema: por contrato, Laura não pode deixar de viver. Como, então, encontrar uma solução para tudo isso? O final de Cartório das Almas é bonito e conta com uma grande reviravolta.

O roteiro de Leo Bello é muito competente ao trazer questões difíceis e até paradoxais para o centro da narrativa sem tornar o filme desinteressante.

Por outro lado, Cartório das Almas é, em alguns momentos, uma experiência mais demorada, lenta e até repetitiva. O filme poderia se aprofundar mais nos personagens e responder a algumas das perguntas que surgem na cabeça de quem assiste.

Entretanto, em nenhum momento a obra se torna tediosa ou desinteressante. Muito pelo contrário: os temas abordados levam o público a refletir, enquanto a jornada de Laura nesse mundo consegue capturar a atenção do espectador até o fim.

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apaixonado por games, cultura pop e boas histórias. Focado em análises críticas e reflexões sobre cultura pop/nerd em geral, busco ir além da superfície, explorando o impacto do entretenimento na cultura.