Crítica | 'Insaciável' foi difícil de engolir
Diamond Films/Divulgação

Crítica | ‘Insaciável’ foi difícil de engolir

Insaciável não é uma palavra escolhida ao acaso para provocar no cartaz, ela carrega o peso literal e simbólico de tudo o que a produção de Natalie Erika James tenta – com esforço genuíno e tropeços consideráveis – construir ao longo de seus pouco mais de cem minutos. A ironia é que um filme sobre compulsão, excesso e a incapacidade de saber a hora de parar acaba sendo, ele mesmo, vítima dessas mesmas armadilhas.

O longa chega ao circuito carregando o peso de uma comparação difícil de evitar com “A Substância”, da francesa Coralie Fargeat, cuja explosão crítica e comercial abriu espaço para um ciclo renovado de filmes de terror centrados no corpo feminino, nos padrões de beleza impostos e na violência silenciosa exercida pela sociedade sobre as mulheres. James, porém, recusa seguir o mesmo caminho de Fargeat, apostou num body horror visceral e escancarado, quase operístico em seu excesso visual, a diretora de Insaciável opta por uma abordagem mais internalizada – alucinações, pesadelos e uma tensão psicológica que, em seus melhores momentos, funciona. Uma pena que só às vezes.

Midori Francis interpreta Hana, uma universitária que carrega uma relação profundamente traumatizada com o próprio corpo. Ela tenta academia, conta calorias, olha para o espelho e sente que nada é suficiente. Quando uma antiga amiga reaparece em sua vida irreconhecível, muito mais magra, trazendo consigo a promessa de uma pílula milagrosa ainda não aprovada por qualquer órgão regulador, Hana não resiste por muito tempo. A premissa é, convenhamos, absolutamente contemporânea. Num contexto em que as timelines estão repletas de relatos de resultados com canetas emagrecedoras e os consultórios de endocrinologia vivem com filas na porta. E aí reside tanto o seu maior acerto quanto sua frustração mais central.

Crítica | 'Insaciável' foi difícil de engolir
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O filme levanta uma questão que o próprio roteiro, ao que tudo indica, não sabe responder. O que significa tratar a compulsão alimentar como monstro? Existe algo eticamente nebuloso numa narrativa que pega uma condição real, sentida e sofrida por milhões de pessoas, e a transforma em combustível para sustos e sequências de tensão? A resposta não é simples, e seria ingênuo exigir que um terror se afastasse completamente dos mecanismos do seu gênero.

O problema não está em usar o medo como ferramenta; o problema aparece quando ele substitui completamente a compreensão – quando o roteiro se interessa apenas no aspecto grotesco do sofrimento do que nas pessoas reais que esse sofrimento habita. Em nenhum momento o texto parece genuinamente disposto a acolher Hana ou, por extensão, as mulheres que ela representa.

O roteiro ainda comete o equívoco de jogar na mesa um punhado de conceitos ao mesmo tempo – distúrbios alimentares, fat shaming, body positivity, heranças genéticas, pressões familiares, a sedução perigosa dos atalhos – sem jamais encontrar uma forma de tecê-los em algo que diga alguma coisa de concreto. A sensação é de um texto que se preparou para muitas conversas, mas não conseguiu escolher qual delas ter de verdade.

Inchado e repetitivo, o filme perde fôlego à medida que avança e se arrasta em direção a um desfecho que não honra nenhuma das promessas feitas nos primeiros atos. O que salva a experiência é a inteligência com que James trabalha certos elementos técnicos. A trilha sonora, em especial, merece atenção destacada.

Em “Tubarão”, o leitmotiv famoso de John Williams avisa ao espectador que o perigo está se aproximando por baixo da superfície. Em Insaciável, essa lógica é subvertida de maneira engenhosa quando os momentos musicalmente mais aterrorizantes não coincidem com as aparições paranormais, mas com a presença de comida em cena. O som de um estômago roncando serve como sinal sonoro para eventos sobrenaturais. É um trabalho sofisticado de design de som que coloca a necessidade fisiológica de se alimentar no centro do horror – o que é, conceitualmente, mais perturbador e mais original do que qualquer jump scare.

Crítica | 'Insaciável' foi difícil de engolir
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A fotografia também entrega momentos de mérito real. Há um plano aéreo, no último ato, que enquadra Hana cercada por uma montanha de lixo e comunica de forma quase silenciosa o tratamento que ela havia dado ao próprio corpo até então. Reflexos, câmera lenta, tomadas em reverso: James tem olho e não tem medo de usá-lo. O problema é que esses recursos às vezes parecem existir para preencher o espaço deixado pelo roteiro, que perde confiança quando mais precisaria de firmeza.

Crítica | 'Insaciável' foi difícil de engolir
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Francis entrega uma performance de comprometimento genuíno, com camadas de vulnerabilidade que a câmera capta com sensibilidade real. Mas Hana existe num roteiro que parece mais interessado no espetáculo do seu sofrimento do que em sua humanidade. Os efeitos colaterais da pílula surgem como punições narrativas; o corpo que ela tanto odeia torna-se, gradualmente, o palco do horror – e o filme raramente se pergunta se está sendo justo com ela, ou com quem se vê nela.

Insaciável, portanto, existe num espaço curioso. O de um filme que tem mais a dizer do que consegue articular. Natalie Erika James demonstra um talento visual consistente e uma compreensão aguçada de como o som pode construir tensão de maneira criativa e original. O paralelismo com a realidade contemporânea do uso indiscriminado de medicamentos emagrecedores é pertinente, inevitável e necessário. Mas o longa tropeça quando precisa transformar tudo isso em narrativa coesa, quando precisa decidir que tipo de obra quer ser. Terror genuíno, crítica social, drama de personagem ou espetáculo body horror. Insaciável tenta abraçar todos ao mesmo tempo, e, nessa ânsia que o próprio título já anunciava, arrisca não se tornar completamente nenhum deles.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.