Crítica | Akira em 4k não muda o que já está perfeito

Crítica | Akira em 4k não muda o que já está perfeito

Akira é dirigido e produzido pelo próprio autor do mangá, Katsuhiro Otomo, e se encaixa em muitos aspectos no gênero cyberpunk. Porém, mesmo com suas pegadas futuristas, hologramas vivos, neon intenso e uma cidade colossal, populosa e extremamente violenta, o filme apresenta uma visão muito particular do gênero. A versão remasterizada em 4K não muda aquilo que já fazia de Akira uma obra-prima da animação: sua direção, sua ambientação, sua animação e, principalmente, a maneira como constrói uma Neo-Tokyo assustadoramente realista.

Akira passa uma atmosfera um tanto específica e diferente de outros filmes do gênero. Ele não se escora tanto na tecnologia pesada e irreal que faz parte de uma identidade forte do cyberpunk. Temos, sim, uma cidade mais futurista — afinal, o filme foi lançado em 1988 e a história se passa em 2019 —, mas ela, de certa forma, não é tão futurista quanto imaginamos. Não temos uma ambientação repleta de carros voadores, robôs tecnológicos e humanos com partes cibernéticas pelas ruas, mas, sim, uma cidade contemporânea e bastante “pé no chão”, que reflete muito os anos 80. Aqui temos uma visão diferenciada dessa época, com um toque um tanto fantástico, contudo, bastante familiar. Neo-Tokyo é assustadoramente realista, quase como um reflexo obscuro do que vivemos em nossa própria realidade.

No meio dessa cidade em crise, reconstruída com muito suor após uma bomba misteriosa explodir no dia 16 de julho de 1988, conhecemos uma gangue de motoqueiros se preparando para entrar em confronto com outra gangue rival. Aqui conhecemos Shotaro Kaneda, Shima Tetsuo, Yamagata e Keisuke, delinquentes sem perspectiva de futuro, que são puramente reflexos de seu ambiente. Eles vivem uma vida de violência e despreocupação com o que os espera no futuro, vivendo apenas o calor do momento, envolvendo-se em intensos confrontos, passeando com suas motocicletas, consumindo drogas e saindo com garotas.

Akira / Sato Company

Akira mostra um ótimo retrato da adolescência inconsequente em um mundo que não nos dá nenhum tipo de esperança ou direcionamento. Seus tutores são igualmente terríveis, resolvendo os problemas dos delinquentes não à base de orientação, mas de violência – punindo-os com um soco na cara por seus atos. A classe média-baixa de Neo-Tokyo é ditada por essa falta de perspectiva, em um mundo onde a corrupção e a crise política estão explodindo. Para completar toda essa loucura, existem seitas e cultos que propagam que um ser extraordinário vai voltar à vida e dar uma punição à cidade – este é Akira.

Em uma das recorrentes brigas de gangue que acontecem na cidade, Tetsuo acaba se deparando com uma criança com aparência de um idoso, e sua moto explode com a força psíquica que o garoto possui. Por conta desse contato, Tetsuo acaba sendo levado como experimento pelo Coronel do exército japonês, a fim de usá-lo como cobaia, com o propósito de despertar os mesmos poderes que o atingiram e transformar Tetsuo em uma espécie de arma, o que, claro, traz consequências graves.

Pouco a pouco, é revelado que a explosão de 1988 não foi causada por uma bomba, mas, sim, por esses poderes extraordinários. Mais precisamente, ela foi causada por Akira, que é uma das crianças usadas como experimento para despertar poderes telecinéticos, assim como o garoto idoso já citado, Takashi, Masaru e Kiyoko.

A obra retrata, de certa forma, um fenômeno curioso que aconteceu no Japão – e que também foi bastante explorado em diversos filmes japoneses –, quando, durante as décadas de 70 e 80, o país passou por um problema de sensacionalismo na mídia, que começou a propagar a ideia de que poderes da mente, telecinese e outros tipos de habilidades extraordinárias eram, de fato, reais.

Truques ilusórios e outras formas de ilusão eram apresentados em canais televisivos, e isso causou não só problemas na sociedade, como também foi responsável por diversas tragédias e pelo surgimento de movimentos perigosos, cujos líderes carismáticos afirmavam possuir controle sobre essas forças. Esse foi um tema bastante explorado em animes, mangás e outras mídias japonesas dessas décadas, e vemos isso sendo abordado de uma forma mais científica e fictícia em Akira, mostrando o efeito dessa onda na sociedade e como esses poderes são perigosos nas mãos de um jovem sem controle emocional, como Tetsuo.

A relação de Tetsuo com o restante da gangue – e, mais precisamente, com Kaneda – é um dos pontos focais mais fortes da obra como um todo. Tetsuo é um jovem extremamente inseguro, que busca provar que pode se virar em diversas situações sem a ajuda de seus camaradas, possuindo uma relação curiosa de respeito, inveja e camaradagem com Kaneda. Ao decorrer do filme, suas emoções vão se tornando puramente negativas e, pouco a pouco, seu ego vai crescendo junto ao controle desses poderes.

Akira / Sato Company

Ao rever Akira depois de muito tempo, comecei a enxergar Tetsuo de uma forma um tanto diferente da que eu tinha anteriormente. Eu sempre me mantinha focado nesse laço que ele possui com Kaneda, mas não havia percebido algo muito óbvio: Tetsuo é apenas uma criança. Quando ocorre seu momento de maior desespero e vulnerabilidade, ele clama por ajuda como uma criança que acabou de derrubar ou quebrar algo de extrema importância. O filme deixa isso bem evidente.

Kaneda – que, apesar dos pesares, é um líder nato, com uma confiança um tanto ingênua, cheio de uma criatividade juvenil e uma falta de amadurecimento inacreditável – carrega consigo algo que é muito importante: ele ama todos os seus amigos como parte de seu próprio ser, como parte de sua razão de viver. Ele passa boa parte do filme totalmente indignado com Tetsuo, mas sua intenção real aqui não é apenas julgá-lo e acabar com a raça do amigo na base das pancadas. Ele quer colocá-lo nos eixos novamente, mostrar a ele que não é o dono do mundo, independentemente do que seja capaz de fazer. Ele é apenas mais uma fração do que compõe a vida em geral. Porém, ainda é seu amigo, e Kaneda não é alguém de quem ele precisa ter raiva ou inveja, mas, sim, alguém capaz de estender a mão e ajudá-lo sempre que precisar, independentemente da situação em que se encontre.

As desventuras de Kaneda com Kei – membra de um grupo de rebeldes liderados por Ryo –, que aqui não tem tanta relevância quanto na obra em quadrinhos, mas também possui sua parcela de importância, vão se desenrolando de forma desenfreada. Kei é a presença feminina mais predominante no filme, junto à já citada Kiyoko e Kaori, namorada de Tetsuo. Tudo isso compõe bastante o filme. A relação entre Kaneda e Kei amadurece de forma rápida, mas um tanto satisfatória. Kaneda, sendo um jovem com os hormônios à flor da pele, se interessa por Kei e a segue em missões designadas pelos rebeldes, envolvendo-se em diversas instalações de Neo-Tokyo. Pouco a pouco, ambos também vão se envolvendo.

Apesar de Akira ser um filme com um ritmo frenético, ele também possui seus momentos contemplativos e belos – e agora ainda mais evidentes com a resolução aumentada. Os panoramas de Neo-Tokyo são absurdamente lindos e repletos de detalhes minuciosos, que fazem você querer pausar o frame e ficar horas observando cada detalhe dos cenários. Tudo isso é acompanhado de uma animação surreal, cheia de movimentos extremamente claros, que não machucam os olhos e nos fazem processar as ações e os movimentos de uma forma muito clara. Isso é impressionante, visto o tanto de acontecimentos que temos em cada frame de cada cena.

Akira sempre brilhou nisso e, apesar de não termos grandes diferenças na versão em 4K em relação à animação, às cores ou a outros elementos, Akira continua sendo uma animação atemporal, mostrando a força da animação feita à mão e todo o comprometimento da equipe em cada quadro. Aliás, jogando um pouco de conversa fora: vocês sabiam que foi criado um tom de vermelho especificamente para esse filme? Chamam o tom de “Vermelho Akira”. Para terem uma ideia do trabalho que a equipe teve para trazer Neo-Tokyo à vida.

Akira / Sato Company

A direção de Akira, entretanto, não é perfeita. Muitos temas, infelizmente, ficam um tanto jogados no filme, apesar de eu acreditar que tudo o que é importante da obra foi condensado com bastante cuidado em um filme de 1 hora e 30 minutos. Temos aqui um passeio pelas noites badaladas de Neo-Tokyo, as rodas de debate político – e, junto disso, ficamos por dentro de toda a crise que a cidade está passando – e até mesmo a cidade chegando a um ponto de transformação, em que começa a entrar em colapso e a se destruir por completo. Claro que o mangá desenvolve esses cenários muito mais, explicando e explorando os temas com maior profundidade, porém, o filme consegue, sim, condensar tudo.

Uma mentalidade que acho importante ter ao assistir a essa adaptação é entender que o filme Akira e a obra original em quadrinhos são complementares entre si, e não apenas uma adaptação da obra original. Vemos os personagens em situações e extremos diferentes da cidade que, apesar de tudo, não são vistos no mangá. Por isso, sempre acho interessante enxergar o filme como um material complementar à obra Akira como um todo.

Foi a primeira vez que vi Akira em um telão de cinema, e foi tão mágico quanto na primeira vez em que assisti ao filme. Algo que certamente me chamou bastante atenção foi como consegui ouvir os efeitos sonoros com uma clareza absurda. É difícil não se sentir imerso em Neo-Tokyo com o som ambiente ao nosso redor. Porém, não sei dizer ao certo se isso é por conta dessa nova versão remasterizada ou se é por conta do áudio que encontramos apenas nas salas de cinema. Como essa foi a minha primeira vez vendo o filme em um telão, não sei responder bem a essa pergunta. Independentemente disso, é admirável o trabalho incrível de Geinoh Yamashirogumi e Shōji Yamashiro, responsáveis por uma trilha sonora um tanto diferente para um filme desse porte.

Não vi o filme dublado em português brasileiro dessa vez, mas o trabalho da dublagem original japonesa é um dos melhores que já vi. Ela possui um trabalho fora do convencional que vemos em dublagens de animações. Nesse filme, a dublagem foi feita antes de a animação ocorrer e de uma forma quase teatral, com os atores atuando em tempo real enquanto liam o roteiro do filme. Esse método é pouco convencional em animações, nas quais temos a dublagem feita para acompanhar a sincronia labial dos personagens.

Porém, aqui, os atores atuavam e os animadores sincronizavam a animação de acordo com suas falas. Isso fica muito evidente na forma como os personagens são expressivos e como suas bocas se mexem enquanto falam. Otomo também preferiu usar dubladores e atores pouco conhecidos para dar voz aos seus personagens, com o objetivo de que eles trouxessem à tona uma interpretação única dessas figuras, dando um realismo pouco visto antes em animações.

Akira / Sato Company

A última coisa que tenho a acrescentar sobre essa nova versão de Akira não é nem sobre o filme em si, mas sobre a legenda em PT-BR. Temos algumas inconsistências esquisitas já nas dublagens em português brasileiro que tivemos do filme, mas a legenda também apresenta alguns erros de tradução. Quem já viu o filme diversas vezes e conhece o mínimo da língua japonesa vai perceber que, em alguns momentos, o que está escrito não bate com o que foi dito na cena. Isso pode quebrar um pouco a imersão, mesmo não acontecendo tantas vezes.

Para encerrar, recomendo fortemente a quem nunca viu Akira antes que assista a essa versão nos cinemas e, claro, a quem já assistiu anteriormente, que reveja o filme dessa vez. Se ver Akira em uma TV de tubo chiando no canal Bandeirantes foi uma experiência transformadora, eu nem imagino como vai ser para quem assistir ao filme pela primeira vez em um telão de cinema.

E, no mais, recomendo fortemente que leiam o mangá após o filme, pois, como disse acima, são materiais que se complementam e se enriquecem bastante. Hoje em dia, temos acesso ao mangá facilmente em plataformas como a Amazon e outras livrarias.

Previsto para ser lançado nos cinemas brasileiros no dia 27 de agosto, Akira retorna às telas do cinema com uma remasterização em 4K e uma produção de áudio mais amplificada e aprimorada.

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Meu prato favorito é JRPGs, mas também gosto de saborear filmes, animações, quadrinhos etc. Um outro prato que adoro é jogo de terror com tempero de ação, mas, na real, eu gosto de tudo relacionado a videogame. Se quiser me seguir no twitter, fique a vontade! As vezes eu posto opinão lá > @vannbrood