Assim como o recém-lançado Digger, Sacrifício, novo filme estrelado por Chris Evans, constrói sua trama em torno de uma ameaça ambiental com proporções apocalípticas. Por meio do humor, o filme busca satirizar o comportamento humano diante da crise climática, expondo como muitas atitudes aparentemente motivadas pela preocupação com o meio ambiente são, na verdade, artificiais e guiadas por interesses próprios.
No entanto, apesar do potencial de sua premissa, a obra acaba esbarrando na superficialidade de seu roteiro e de seus personagens, comprometendo o desenvolvimento da própria crítica que pretende construir.
No início do filme, o público é apresentado a Mike Tyler (Chris Evans), um ator de cinema que teve sua imagem manchada após um vídeo seu ser publicado nas redes sociais. Em um momento de vulnerabilidade e insegurança, Mike participa de um evento beneficente relacionado à causa ambiental, buscando restaurar sua reputação.

Porém, um grupo radical liderado por Joan (Anya Taylor-Joy) invade o local em busca de três reféns com características distintas, que seriam oferecidos em sacrifício a um vulcão prestes a entrar em erupção que possivelmente causaria a extinção da espécie humana. Entre os reféns está Mike, que precisa fazer uma escolha decisiva ao longo de sua jornada.
O filme não esconde seu tom cômico, apresentando-o desde o início com piadas que podem arrancar algumas risadas, e esse não é o problema; filmes de sucesso como O Show de Truman já conseguiram equilibrar isso com a crítica abordada. O que realmente se torna um ponto prejudicial em Sacrifício é a superficialidade e a unilateralidade dos personagens e do roteiro, assinado pelo diretor Romain Gavras e ao lado de Will Arbery.

Apesar de divertido, ao longo do filme, é difícil se conectar com qualquer personagem além do protagonista. Os demais são esquecíveis, mal desenvolvidos e sem personalidade. Falta profundidade para que o público compreenda suas motivações, seus conflitos e o que os leva a agir da maneira como agem.
Com isso, acabam parecendo apenas esboços de pessoas, caricatos e sem camadas que os tornem cativantes. Não que a culpa seja dos atores. A própria Taylor-Joy faz um ótimo trabalho com o material que lhe foi entregue, mas não dá para fazer milagres. Quando um personagem não cativa nem apresenta profundidade suficiente para despertar o interesse do público, não há atuação que consiga compensar.

Além disso, a narrativa começa de maneira promissora, mas vai perdendo força durante o segundo ato. Somente o final recupera o impacto, encerrando o filme de maneira ousada. Muito dessa perda de força se deve justamente à superficialidade dos personagens, que não conseguem sustentar a narrativa.
A impressão que fica é que Sacrifício aposta mais no peso comercial de seu elenco do que na força de seu próprio roteiro. Com nomes como Chris Evans, Anya Taylor-Joy e Vincent Cassel, o filme reúne atores capazes de atrair a atenção do público, mas pouco faz para desenvolver os personagens que eles interpretam.
Justamente por isso, parece que é mais um filme feito para os acionistas do que para o próprio público, sendo fruto da hiperprodução de Hollywood. Por mais irônico que pareça, essa percepção também encontra respaldo em sua estratégia de distribuição, já que o filme ficará nos cinemas apenas na estreia e depois será disponibilizado pela Netflix para preencher catálogo e cumprir o cronograma.

Portanto, o problema de Sacrifício não está em seu conceito, mas na maneira como ele é executado. É um filme divertido, porém esquecível, que busca provocar reflexões por meio do humor. Além disso, sua proposta acaba perdendo força ao longo da trama, principalmente devido à superficialidade dos personagens e do roteiro. Ainda assim, o desfecho ousado recupera parte do impacto da narrativa e encerra a história com uma mensagem que reforça o potencial da ideia, mas evidencia o quanto ela poderia ter sido melhor desenvolvida.
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