Atriz de Hilda Furação junto do ator de Frei Malthus abraçados

Seria o fim dos clichês estadunidenses? A comunidade amante de Cinema está produzindo edits (edições com cenas de filmes e séries) em redes sociais, gerando maior reconhecimento ao Cinema Nacional e à obras que fogem do mainstream. Ou seja, séries e filmes populares, geralmente de Hollywood.

Com isso, até mesmo novelas, que eram tidas como entretenimento para mulheres de meia-idade, entraram na lista dos jovens, como Hilda Furacão. Além da novela, muitos outros tesouros da cultura nacional estão sendo “descobertos” por pessoas que, aparentemente cansados do “mais do mesmo” estadunidense, preferem respirar novos ares. Mas por que isso está acontecendo agora?

X e TikTok: veículos que mais produzem curiosidade

Hilda Furacão virou um hit entre os edits

À primeira vista, os edits parecem mais aguçar aquela curiosidade do desconhecido do que, realmente, gerar espectadores interessados e reflexivos. Afinal, esse é também um fenômeno comum na música: as trendings — ou tendências — do TikTok viralizam músicas que, em pouco tempo, são esquecidas.

Pode ser que os filmes recebam o mesmo (e cruel) destino, visto que os edits selecionam trechos “estratégicos” para gerar curiosidade no público jovem. Contudo, já é um fato que as gerações mais jovens estão cansadas do mesmo clichê de sempre.

Com a popularização do serviço de streaming Mubi, o interesse pelo Cinema Nacional e por outros países além dos EUA parece ter crescido. A plataforma, que escolhe à dedo todos os filmes por lá disponibilizados, tornou-se muito popular, especialmente no último ano, aumentando o interesse por obras que fogem do padrão hollywoodiano.

Isso, juntamente com o poder das redes sociais, transformou o gosto por filmes em um estilo de vida cada vez mais comum. Além disso, a separação entre obras de puro entretenimento e arte parece ser uma discussão cada vez mais presente nas redes sociais: no X (Twitter), a Disney parece ter sido substituída pela produtora e distribuidora A24.

Apesar da A24 não se ser independente, pode-se dizer que é o mainstream para os interessados em se aprofundar no Cinema. Com maior senso estético e histórias diferentes do que estávamos acostumados nos últimos anos, ela roubou o coração de muitas pessoas.

Contudo, todo esse comportamento também tem seus pontos negativos: a arte foi transformada em mercadoria.

Até que ponto isso é positivo?

De ecobags (sacolas sustentáveis) da Mubi, aos livros de diretoras como Sofia Coppola (“Priscila”), o que antes começou como um interesse em arte, transformou-se em consumo.

Fugir do consumo é uma tarefa impossível mas, nesse caso, é ainda mais “interessante”, pois trata-se da comercialização de uma personalidade construída a partir de um passatempo.

Em outras palavras: gostar de filmes virou traço de personalidade, mas não em um bom sentido. E, para falar a verdade, nem é necessário gostar mesmo de filmes: basta repetir o que outros dizem, instalar o Letterboxd – rede social de catalogação de filmes e séries – e fazer suas avaliações.

Isso acontece devido ao fenômeno dos “aesthetics” (estética), que são utilizados para caracterizar gostos, um conjunto de coisas e também pessoas. O gosto por filmes entra nessa tendência como uma forte estética capaz de construir uma personalidade “culta”.

Contudo, o resultado é o contrário: com a sensação dos filmes, as pessoas os “maratonam” sem absorver seu conteúdo, colecionando apenas números em seus aplicativos de avaliações.

E para fazer parte da comunidade, consumir também é necessário. É nesse momento que assinar a Mubi e comprar sua ecobag se torna tão importante.

O efeito que isso pode gerar é um interesse temporário no Cinema Nacional apenas para contribuir com essa sensação de pertencimento, reduzindo nossas obras cinematográficas à estética e mercadoria. Ou seja: tudo o que muitos dos artistas latino-americanos não queriam.

Falando em cinema nacional, leia: O Auto da Compadecida 2 | Trailer da sequência é divulgado

A arte como distração

O filósofo Walter Benjamin, em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, fala sobre como a arte era feita para a eternidade na Antiguidade. O exemplo disso são as estátuas. Atualmente, as obras são rápidas, e o Cinema é o maior exemplo disso: você assiste a um filme e, depois, acabou.

Apesar do filósofo estar falando sobre o caráter da Sétima Arte, nós podemos estender a discussão para falar sobre a nossa rapidez de consumo. É verdade que o Cinema surgiu com o capitalismo e, portanto, é fácil tratá-lo como mero entretenimento. Sendo assim, os filmes “poucas vezes “raramente” são feitos com a intenção de serem contemplados, mas sim de distraírem as massas.

Por isso, muitos filmes são verdadeiras sensações por um curto período para, logo depois, serem esquecidos e cederem seu lugar ao próximo. Além disso, filmes que pretendem ser uma arte mais contemplativa, como “O Espelho”, do diretor Andrei Tarkovsky, são tidos como chatos, lentos, onde “nada acontece”.

Assim, apesar do súbito interesse pelo cinema menos “popular” por parte dos jovens, se tudo não passar apenas de uma tendência, pode ser que todo o alarde em cima do Cinema Nacional não produza efeito a longo prazo. O que nos resta é torcer para que essa previsão esteja errada.

Reconhecimento nunca é demais

De qualquer modo, vale lembrar que reconhecimento nunca é demais. Tratando-se de algo passageiro ou não, é importante que o Cinema Nacional seja valorizado. Vale lembrar que o diretor Daniel Rezende (“Turma da Mônica: Laços”) reforçou que seu filme “Bingo: O Rei das Manhãs” – um dos longas que mais viralizaram nas redes sociais – provavelmente foi mais assistido durante o período que “explodiu” nas redes sociais do que em toda sua carreira pregressa, tanto no cinema, quanto nos streamings. Sim há esperança.

Por isso, com esse primeiro incentivo dos edits das redes sociais, a nossa missão é garantir que esse reconhecimento não termine agora, mas cresça cada vez mais. Afinal, com o crescente bombardeio de produções estadunidenses, é comum que desconheçamos a cultura cinematográfica de nosso próprio país – além de desconhecermos muitas outras de todo o mundo.

Não existe apenas uma forma de fazer cinema.

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