Por que as cinebiografias dominaram os filmes brasileiros?

Registrar a memória das vidas e feitos humanos para as futuras gerações é uma prática antiga, iniciada pelo grego Heródoto (484-425 a.C.). Cerca de 600 anos depois, no primeiro século da era cristã, surge Plutarco de Queroneia, nascido em 46 d.C., considerado o maior biógrafo da Antiguidade. Plutarco dedicou-se a estudar a vida dos grandes personagens do passado sob uma perspectiva psicológica e ética. Sua obra mais famosa, “Vidas Paralelas”, compara 23 pares de biografias, colocando um herói grego ao lado de um romano. O objetivo principal era moralista: apresentar vidas exemplares para a humanidade, algumas a serem imitadas, outras a serem evitadas.


Cada vez mais, vemos uma crescente quantidade de filmes que abordam de forma ficcional a vida de notáveis personalidades da nossa cultura. Essas produções têm se destacado no cenário audiovisual e conquistado o público, atendendo à crescente demanda por histórias desse tipo. Mas afinal, por que produzimos tantas cinebiografias no Brasil?

As trajetórias das cinebiografias no Brasil

Cada vez mais, vemos uma crescente quantidade de filmes que abordam de forma ficcional a vida de notáveis personalidades da nossa cultura. Essas produções têm se destacado no cenário audiovisual e conquistado o público, atendendo à crescente demanda por histórias desse tipo.

As cinebiografias desempenham um papel crucial na preservação e divulgação da história e cultura brasileiras, educando e inspirando novas gerações. Algumas produções brasileiras ganharam reconhecimento internacional, participando de festivais e premiações, e elevando o cinema nacional a um patamar global. Nos anos 1990, o sucesso de “O Quatrilho” (1995), dirigido por Fábio Barreto e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, impulsionou a produção de cinebiografias, valorizando as histórias pessoais e coletivas.

A popularidade das cinebiografias no Brasil cresceu, resultando em produções de alta qualidade e grandes bilheterias. Alguns exemplos notáveis incluem:

  • “Olga” (2004): Dirigido por Jayme Monjardim, conta a história de Olga Benário Prestes, militante comunista alemã de origem judaica.
  • “2 Filhos de Francisco” (2005): Dirigido por Breno Silveira, narra a trajetória da dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano, visto por mais de 5 milhões de espectadores.
  • “Cazuza: O Tempo Não Para” (2004): Dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho, retrata a vida do cantor e compositor Cazuza.
  • “Lula, o Filho do Brasil” (2009): Dirigido por Fábio Barreto, mostra a vida do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
  • “Elis” (2016): Dirigido por Hugo Prata, conta a história da cantora Elis Regina.
  • “Gonzaga: De Pai para Filho” (2012): Também dirigido por Breno Silveira, retrata a vida de Luiz Gonzaga e seu filho Gonzaguinha.

“2 Filhos de Francisco” foi um dos filmes mais vistos e reconhecidos pelos brasileiros, visto por mais de 5 milhões de pessoas na época do seu lançamento. Após isso, o filme passou diversas vezes na televisão e hoje é um dos filmes mais conhecidos pelos brasileiros. Para escolher quais personagens merecem uma cinebiografia, é fundamental que eles despertem o interesse dos diretores e tenham um forte apelo na memória coletiva do público.

A crescente vontade de transformar biografias em sucessos cinematográficos é evidente pelo número de projetos registrados na Ancine nos últimos anos, incluindo títulos como “Minha Fama de Mau”, “Mamonas Assassinas”, “Nosso Sonho”, “Tim Maia”, “Marighella”, “Elis” e “Bingo: O Rei das Manhãs”.

Por que fazemos tantas cinebiografias?

O Brasil conta com excelentes atores, mas enfrenta limitações financeiras. Grandes blockbusters com cenas de explosões ou muito CGI são caros de produzir. Em contraste, comédias e cinebiografias dependem mais de bons atores, histórias envolventes e da curiosidade do público. Assim, aproveitamos nossos maiores recursos: boas atuações e cenários do dia a dia, tocando o coração dos brasileiros que, muitas vezes, não se interessam pelo cinema nacional.

As cinebiografias atendem ao interesse do público pela vida alheia e alimentam uma certa esperança, mostrando personagens que transformam suas vidas, superam adversidades e se reinventam. Eles são verdadeiros super-heróis humanos, eternizados pelo talento, determinação e crença em um ideal. Essas histórias estimulam as pessoas, que se identificam de alguma forma.

A vida dos outros é um assunto que sempre atrai. Quando a biografia de alguém famoso chega aos cinemas, já traz um alto nível de reconhecimento. Um exemplo é “Carlota Joaquina — Princesa do Brasil” (1995), de Carla Camurati, que inaugurou a retomada do cinema nacional.

A influência da legislação brasileira nas cinebiografias

Mas acredite se quiser, a legislação brasileira também influenciou nosso cinema. Até 2015, os cineastas brasileiros enfrentavam desafios legais para produzir cinebiografias, pois a legislação exigia autorização da figura pública retratada ou de seus familiares. Essa exigência era vista como uma forma de censura prévia e restrição à liberdade de expressão.

Em 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional essa exigência, entendendo que a liberdade de expressão e o direito à informação prevalecem sobre o direito à privacidade em casos de interesse público. Desde então, é permitido publicar biografias sem necessidade de autorização, desde que não haja ofensa à honra, imagem, intimidade e vida privada da pessoa biografada. Caso haja abusos, a pessoa retratada pode buscar reparação na Justiça.

Essa decisão do STF foi um marco importante, ampliando a liberdade para a produção de biografias e cinebiografias no Brasil.

É de cinebiografia que você gosta? Então aqui vão algumas:

E para finalizar, aqui estão algumas cinebiografias que você não pode deixar de ver:

Madame Satã: Dirigida por Karim Aïnouz, essa cinebiografia conta a história de João Francisco dos Santos, mais conhecido como Madame Satã. O filme retrata a vida desse icônico artista, drag queen e figura lendária da cena noturna carioca nas décadas de 1930 e 1940. É um dos filmes brasileiros mais elogiados pelos críticos deste século.

Tim Maia: Nas mãos do diretor Mauro Lima, a vida de um dos músicos mais amados, icônicos e importantes da música brasileira ganha vida. Baseado no livro “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia” de Nelson Motta, a trama segue a vida de Tim Maia desde sua infância conturbada no Rio de Janeiro, passando pelo auge de sua carreira musical, até sua morte.

Chico Xavier: Disponível no Amazon Prime Video e Globoplay, este filme biográfico, dirigido por Daniel Filho, retrata a vida do famoso médium brasileiro. Com roteiro elaborado por Marcos Bernstein e baseado no livro “As Vidas de Chico Xavier” de Marcel Souto Maior, a trama narra a trajetória de Chico Xavier, desde seus talentos mediúnicos até seu trabalho como médium.

Meu Nome é Gal: Este filme acompanha a trajetória de Maria da Graça Costa Penna Burgos antes de se tornar a famosa cantora Gal Costa. Desde sua infância tímida até a decisão de se mudar para o Rio de Janeiro aos 20 anos de idade, o filme conta com a impressionante atuação de Sophie Charlotte e direção de Dandara Ferreira e Lô Politi.

Bingo: O Rei das Manhãs: Augusto sempre sonhou com o estrelato e finalmente tem sua chance ao se tornar Bingo, um palhaço apresentador de um programa infantil. Com atuações de Vladimir Brichta e direção do icônico Daniel Rezende, essa é uma das cinebiografias mais fortes do nosso cinema, com uma narrativa visceral.

Minha Fama de Mau: Esta cinebiografia do cantor e compositor Erasmo Carlos, um dos ícones da música popular brasileira, é uma adaptação do livro homônimo escrito pelo próprio “Tremendão”. Dirigido por Lui Farias, o filme conta com Chay Suede no papel de Erasmo.

Elis: Dirigida por Hugo Prata, esta cinebiografia da renomada cantora brasileira Elis Regina é estrelada por Andréia Horta. O filme retrata a vida e carreira de Elis Regina, uma das maiores vozes da música popular brasileira, que fez contribuições significativas para a música do país.

Marighella: Disponível no Globoplay, esta adaptação da biografia “Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo” de Mário Magalhães é um drama biográfico dirigido por Wagner Moura e protagonizado por Seu Jorge. O filme retrata a vida do guerrilheiro, escritor e político Carlos Marighella.

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