Especial | O racismo recreativo tomou Hollywood e as séries

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Que o racismo foi muito presente em Hollywood, isso não é novidade. Contudo, o tempo passou e, com ele, o racismo foi abandonado… Né?

Por incrível que pareça (ironia!), esse assunto é mais complicado do que parece. Com movimentos de resistência e muitas discussões sobre igualdade, as novas produções buscam trazer mais diversidade e, quem sabe, um pouco de crítica social – na medida do possível. 

Se você olhar para trás, vai perceber que de “O Vento Levou”, do diretor Victor Fleming, até os filmes atuais, muitas coisas mudaram. 

Por outro lado, mesmo com todas as alegações de que o fantasma da “Cultura Woke” está rondando o Cinema, ainda existe muito racismo presente – com todas as suas sutilezas.

Isso é ainda mais evidente ao assistir a terceira temporada de American Horror Story: Coven. Essa é uma produção de 2013 – 2014 que se tornou até tema de TCC por conter muita temática, aparentemente, antirracista. 

Vem entender sobre o assunto:

O histórico de racismo em Hollywood

Em 1915, o filme “O Nascimento de uma Nação” foi lançado, compartilhando estereótipos racistas do povo preto. 

Em 1939, “O Vento Levou” trouxe um racismo “diferente”. Nele, as pessoas pretas recebiam casa e alimento de seus senhores (e não apanhavam tanto). Tudo isso em uma tentativa de pintar os brancos como os seres responsáveis pela salvação de um povo que mal tinha direitos. 

Com o passar dos anos, os race movies começaram a surgir. Assim, houve mais personagens pretos que não serviam apenas como estereótipo ou para apoiarem um protagonista branco.

Na Indústria Cultural atual, é possível encontrar maior representatividade e tentativa de falar sobre racismo, que é o que estamos vendo em filmes de super-heróis, como Pantera Negra, Invencível e, mais recentemente, o hype do X-Men. 

Além disso, é possível encontrar filmes dirigidos por pessoas pretas, com protagonistas pretos e que não servem a um estereótipo, como é o caso de “Corra” e “Nós”, do diretor Jordan Peele

Green Book

Logo após o sucesso de “Corra”, houve um aumento de “terror racial” com filmes como “Green Book”, em que o roteiro é raso e, mesmo as lições sobre racismo, são muito caricatas.

Existem muitas críticas relacionadas ao filme. Muitas delas trazem a seguinte reflexão: o que um protagonista branco está fazendo em um filme que pretende denunciar o racismo? Especialmente ao se tratar de uma obra sobre uma figura tão importante.

Além disso, nas tentativas de falar sobre o racismo, o filme demonstra ser superficial e clichê.

Para muitos, o filme não passa de um entretenimento Hollywoodiano. Desde quando, porém, o racismo, temática ainda atual, deve ser tratado com descaso a ponto de ser resumido à mero entretenimento?

É claro que é possível unir crítica, reflexão e entretenimento. Contudo, torna-se difícil falar sobre entretenimento em um filme chamado de “mentiroso” pela própria família de Doc, além de conter polêmicos sobre casos de, atenção, racismo nos bastidores.

Para piorar a situação, o filme ganhou o Oscar nas categoria de melhor filme, roteiro original e ator coadjuvante em 2019.

Them

Quando o assunto é violência no cinema, há uma movimentação para discutir sobre seus limites e demais questões. De modo geral, a violência gráfica pode ser utilizada para fomentar reflexões sobre a vulnerabilidade humana, apresentar algum tipo de realidade ou, simplesmente, chocar.

Alguns exemplos podem ser citados aqui: “Centopeia Humana“, que aparenta tentar alcançar uma discussão sobre ambição científica (vide Frankenstein) e “Martyrs“, que segue na mesma linha. Ambos, porém, alcançaram o choque e tortura recreativa de corpos femininos e homossexuais.

O mesmo acontece na série “Them“, tida por muitos como um terror perturbador e traumatizante. A história acompanha um casal afro-americano em um contexto de segregação racial no sul dos Estados Unidos. Em dado momento, em sua casa, a família sofre uma invasão de uma mulher e três homens brancos. Os invasores abusam sexualmente da mulher e matam a criança, colocando-a em uma bolsa, girando e jogando até a morte.

O que, incialmente, pretendia falar sobre violência e racismo contra pessoas negras nos Estados Unidos, parece ter se transformado pura e simplesmente em um gosto pela brutalidade e só. Não há uma crítica bem-feita. Não há profundidade. Não há reflexão. Apenas violência.

Duna

Um dos filmes mais aguardados de 2024 também possui seus defeitos. Duna parece ser um misto de religiosidade cristã e o complexo de salvador dos Estados Unidos.

Enquanto a Casa Harkonnen é um vilão aparente, a Casa Atreides é retratada como justa e, de certa forma, bondosa. É como se dissesse: “nós estamos explorando o seu planeta mas, pelo menos, respeitamos o espaço de vocês!”. Apesar de pagarem por isso, não é possível falar de exploração sem encostar, pelo menos um pouco, em controle e imperialismo contemporâneo, baseado no acúmulo de capital.

Além disso, Paul Atreides parece assumir uma digura de Jesus Cristo II mas, ao contrário deste, Paul não faz parte do povo originário. Há, então, uma figura salvadora que surgiu de fora do planeta e, claro, merece louvor por parte dos nativos.

O racismo em American Horror Story: Coven 

Da mesma forma, acontece algo parecido em American Horror Story: Coven, em que o diretor Ryan Murphy (branco) quis tratar de questões raciais, bruxaria e Vodu. Spoiler: não deu muito certo. 

A terceira temporada de AHS, Coven, é uma das preferidas das pessoas, especialmente para o público jovem e feminino. Isso até faz sentido, visto que a série aborda um feminismo liberal que estava, relativamente, em alta na época. 

Falar sobre bruxaria também parece ser uma ótima forma de atrair a atenção de pessoas que não se veem dentro de uma espiritualidade e/ou religião “popular”, como todas as cristãs. 

E é assim que nós somos apresentados ao Coven, uma “escola” e “comunidade” de bruxas que estudam sobre seus poderes e descobrem como desenvolvê-los melhor até que uma delas assuma o papel de Suprema, sendo a bruxa mais poderosa do Coven – e com mais responsabilidades também. 

Por outro lado, temos o Vodu, que também é um grupo de bruxas. Contudo, elas são pretas e seu “sistema” não é muito semelhante ao Coven, apesar de existir uma líder. 

Enquanto isso, ainda somos apresentados a uma senhora racista e torturadora de escravos, LaLaurie, “morta” pela líder das bruxas do Vodu, Marie Laveau, mas que retorna à vida pela Suprema do Coven, Fiona, muitos anos depois. 

Ok, já é bastante coisa acontecendo, mas vamos ao que importa: onde está o racismo aí?

A caricatura do Vodu em American Horror Story

Durante toda a temporada, mesmo com todas as atrocidades que acontecem no Coven – com uma Suprema de ego inflado; bruxas completamente inexperientes, egoístas e sem noção; traição, vingança e falta de harmonia – o Vodu consegue ser ainda “pior”. 

A série não economiza na caricatura do Vodu, que é relacionado à magia negra e, portanto, utilizada somente para objetivos egoístas e ruins. 

Além disso, Marie, no Halloween, traz os mortos de volta à vida para matar as bruxas do Coven. Todo o desenvolvimento da personagem é focado em destruir essas bruxas, sendo uma obsessão doentia e a magia negra um meio de conseguir prejudicar suas rivais. 

Com isso, é comum que o público passe a enxergar Marie como uma espécie de vilã – que só vai se unir com a Suprema porque um vilão maior ameaça os dois grupos. 

Persuasão, frieza e sadismo de Marie Laveau

Em dado momento da história, Marie convida Queenie, uma bruxa preta do Coven, a se juntar a ela. 

Seu discurso é extremamente persuasivo, levando a bruxa a abandonar suas colegas no Coven e cometer “atrocidades”, como matar pessoas (assassinos e/ou abusadores) para pegar seus corações e trazer a LaLaurie para ser torturada, mas disso nós falaremos mais tarde. 

Em vários momentos, somos levados a pensar que Marie olha somente através de uma perspectiva racial – como se isso fosse muito errado – enquanto deveria empatizar com as bruxas do Coven. 

A história de redenção mais forçada que já vi

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American Horror Story: Coven

Quando LaLaurie é trazida de volta à vida, ela se depara com um mundo bem diferente do que estava acostumada. Já não há mais escravos e o presidente, na época, era negro. 

No início, ela é extremamente antipática com Queenie, mas elas vão construindo um laço com o passar do tempo, indicando uma mudança de mentalidade por parte de LaLaurie. 

Contudo, quando Queenie se junta à Marie, ela recebe ordens de levar LaLaurie para ser torturada. Isso acontece quando Queenie engana a senhora que, enfim, é cercada pelas mulheres do Vodu para ser torturada. 

LaLaurie fica muito magoada e se sente traída. Esse é o momento em que ficamos com dó da mulher que estava em processo de redenção – porque, claro, uma racista escravocrata mudaria rapidinho. 

E é aí que a situação fica vergonhosa. Queenie coloca um documentário sobre a luta do povo preto nos Estados Unidos para LaLaurie assistir. E é aí que ela começa a, aparentemente, amolecer seu coração novamente – o que, logo em seguida, não acontece e, na verdade, há uma drástica piora e a tortura de pessoas pretas aparece em tela novamente.

A narrativa, ao mesmo tempo em que tenta fazer uma crítica sobre o racismo, faz com que o Vodu seja visto como um vilão menor. 

American Horror Story: Coven virou tema de TCC

A série virou até tema de TCC na Universidade Federal de Uberlândia! Ele se chama “Ambiguidades nas Telas: American Horror Story – Coven e as Relações entre Imagem, Mídia e Questões Sociais”

Nele, João Pedro Rezende Marto comenta sobre escolhas de imagens e como o conteúdo foi representado na série. De modo geral, o TCC reconhece que há críticas válidas na terceira temporada. Por outro lado, também reconhece que há muita contradição na série e muitas críticas foram ambíguas. 

O racismo em Hollywood não acabou

Apesar de muitos avanços, a Indústria Cultural como um todo ainda sofre com as consequências de séculos de racismo que afetam as estruturas sociais e, por sua vez, os filmes e séries. 

American Horror Story não é uma exceção. Isso ainda é presente mesmo quando a intenção dessas produções é ser antirracista, sendo recorrente em produções em que os diretores, produtores e/ou roteiristas não são racializados.

Pois é, pelo visto a “Cultura Woke” não está tão forte quanto pensávamos. Será que um dia essa ameaça vai se tornar real?

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