Review | Ratatan
Imagem: Conecta Geek

Review | Ratatan acerta o ritmo, mas perde o compasso

Ratatan recupera uma fórmula que marcou época com Patapon, mas tenta levá-la além da simples combinação de comandos musicais e movimentação de tropas. Desenvolvido pela Ratata Arts em parceria com a TVT Co. Ltd., o jogo mistura ação, ritmo e progressão roguelike em uma aventura na qual o jogador precisa comandar pequenos exércitos enquanto controla diretamente seu próprio personagem.

O ritmo é a base de tudo

A principal diferença entre Ratatan e um jogo de ritmo tradicional está na maneira como a música influencia a jogabilidade. Em vez de simplesmente apertar botões para acompanhar uma melodia, o jogador utiliza instrumentos mágicos chamados Melodium para comandar grupos de Cobuns. Cada sequência rítmica corresponde a ordens que orientam as tropas durante os confrontos, enquanto o Ratatan escolhido continua sob seu controle direto pelo cenário. Na prática, você assume o papel de uma espécie de mestre de cerimônias que precisa coordenar seu exército sem deixar de participar ativamente da batalha.

Essa combinação é o que torna os confrontos tão interessantes. Não basta acompanhar a música mecanicamente, pois também é necessário observar os inimigos, posicionar-se adequadamente e entender o momento certo de ordenar uma ação. A atenção fica dividida entre o ritmo e o combate, mas os dois elementos trabalham juntos em vez de parecerem sistemas separados.

Ratatan é um sucessor espiritual de Patapon, mas não uma continuação oficial da franquia. O projeto reúne nomes importantes da série original, como Hiroyuki Kotani, ligado à criação e ao conceito de Patapon, e o compositor Kenmei Adachi. A equipe não queria simplesmente produzir um quarto jogo da franquia, mas descobrir como evoluir sua ideia central. A inclusão do controle direto do personagem, da ação em tempo real e da estrutura roguelike demonstra essa intenção de construir uma identidade própria sem abandonar aquilo que tornou a fórmula original tão especial.

Oito Ratatans para encontrar seu favorito

Um dos pontos mais interessantes está na seleção de personagens. Ratatan oferece oito Ratatans jogáveis, cada um com características, equipamentos e Ratabilidades próprias. Essas habilidades especiais influenciam a maneira como você encara os confrontos e permitem encontrar personagens que combinam melhor com seu estilo de jogo. O Funguita Mashuma, por exemplo, possui uma habilidade que aumenta em 50% o dano causado por efeitos de estado. Já o Miauzito, meu favorito, pode aumentar a velocidade de movimento e a chance de acertos críticos em 10%.

Essas diferenças ajudam a dar personalidade aos personagens e oferecem motivos para experimentar alternativas ao longo da campanha. A escolha não fica restrita à aparência, já que as habilidades também podem influenciar suas decisões durante as runs. Além disso, o design dos Ratatans é um dos pontos altos do jogo. Todos apresentam visuais únicos, expressivos e cheios de personalidade, com aquele estilo cartunesco que combina perfeitamente com o universo colorido do jogo.

A variedade de personagens, equipamentos e melhorias também conversa diretamente com a progressão roguelike. Cada tentativa pode ajudar você a compreender melhor as possibilidades de sua equipe e encontrar combinações mais eficientes. Ainda assim, seria interessante que essa diversidade tivesse um impacto maior na variedade geral das partidas, já que escolher outro Ratatan não elimina a sensação de percorrer novamente sequências de áreas bastante familiares.

Uma jornada com destino ao Além

A história se passa em Rataport, uma ilha que parece uma caixa de brinquedos viva e abriga os diferentes Ratatans. Apesar de suas particularidades, todos compartilham um sonho: chegar ao Além e encontrar a Deusa, que acreditam viver nesse lugar. A jornada funciona como o fio condutor da aventura, te levando por diferentes regiões até o destino desejado. A narrativa não é o principal atrativo de Ratatan, mas oferece uma motivação simples e coerente para a progressão.

O caminho até o Além, entretanto, não é percorrido de uma só vez sem preparação. Como em outros roguelikes, cada tentativa exige que o jogador aproveite os recursos conquistados para fortalecer suas possibilidades nas próximas runs. O lobby funciona como um espaço de preparação, onde os upgrades ajudam a tornar a jornada mais viável. Evoluir o suficiente é fundamental para conseguir avançar por todo o percurso, especialmente quando os confrontos começam a exigir mais do jogador.

Repetição constante e maçante quebra boa parte do ritmo

Durante uma run, cada mundo é dividido em segmentos, e a conclusão de uma área leva a um Portão de Guloseimas. Nesse ponto, você escolhe qual tipo de encontro deseja enfrentar em seguida e qual recompensa prefere. As opções incluem batalhas comuns, minibosses, lojas, desafios, altares, recompensas, cartas de melhoria e recursos. Essas decisões ajudam a definir o caminho de cada tentativa e permitem priorizar aquilo de que você mais precisa naquele momento.

O sistema funciona bem como estrutura de progressão, mas a variedade entre as runs deixa a desejar. Embora os cenários sejam visualmente bonitos, as sequências de áreas acabam se repetindo com frequência, e a sensação de novidade diminui depois de várias tentativas. Para conseguir recursos e chegar novamente aos chefes, você precisa refazer trechos que já conhece, mesmo quando sua vontade é avançar para os confrontos mais desafiadores.

Esse problema fica ainda mais evidente quando uma tentativa termina em derrota. Dependendo de quanto você já avançou, pode ser necessário repetir uma parte considerável da jornada para voltar ao ponto em que estava. A repetição faz parte da proposta roguelike, mas Ratatan nem sempre oferece variedade suficiente para tornar esse retorno interessante. Em vez de sentir que cada nova tentativa traz uma experiência diferente, você pode acabar encarando os mesmos encontros como etapas obrigatórias antes de chegar à parte realmente divertida.

Chefes que fazem a fórmula brilhar

As lutas contra chefes estão entre os melhores momentos de Ratatan. É nesses confrontos que a combinação de ritmo, movimentação e comando das tropas demonstra todo o seu potencial. Você precisa prestar atenção aos padrões dos adversários, encontrar oportunidades para atacar e coordenar suas unidades sem perder o controle do próprio personagem.

Nem todos os chefes apresentam o mesmo nível de desafio, e alguns podem ser enfrentados com relativa facilidade. Ainda assim, as batalhas costumam ser os momentos em que o jogo melhor aproveita suas mecânicas. É como se as lutas contra chefes te recompensassem por ser paciente com as repetições dos caminhos até elas. Enquanto as áreas intermediárias podem parecer familiares demais, os chefes conseguem renovar o interesse e mostrar por que a mistura de ritmo e ação funciona tão bem.

É justamente esse contraste que escancara o principal problema do jogo. Quando Ratatan coloca você diante de um chefe, sua fórmula funciona muito bem. Quando exige que você percorra novamente o mesmo caminho para chegar até ele, a experiência perde parte da diversão. Uma maior variedade de encontros, eventos e situações durante as runs ajudaria a manter o ritmo da aventura e tornaria cada tentativa mais interessante, mesmo quando você não consegue chegar tão longe em uma run.

Uma trilha sonora que fica na cabeça

Em um jogo que utiliza o ritmo como parte fundamental da jogabilidade, a trilha sonora precisa fazer mais do que preencher o silêncio. Felizmente, Ratatan faz jus ao gênero que faz parte. As melodias acompanham a identidade colorida do jogo e ajudam a transformar os combates em momentos marcantes. É inevitável, passar algum tempo jogando vai fazer com que determinadas músicas e melodias continuem na sua cabeça mesmo depois de sair do jogo.

Como os comandos dependem do ritmo, as composições fazem parte da experiência de jogar, e não apenas da ambientação. Isso ajuda a tornar os confrontos mais envolventes e dá personalidade à aventura. Mesmo quando a repetição das áreas começa a cansar, a música continua sendo um dos elementos que mantêm a experiência agradável.

Existe, porém, uma questão de acessibilidade que merece atenção. Ratatan não oferece localização em português brasileiro, contando apenas com a versão em português de Portugal entre as opções do idioma. Isso não é um impedimento para aproveitar a jogabilidade, mas pode ser um obstáculo para quem prefere jogar com a localização brasileira ou depende de uma tradução mais familiar para compreender seus sistemas.

Um bom sucessor espiritual que precisa variar mais

Ratatan parte da fórmula de Patapon para construir uma experiência que mistura comandos rítmicos, ação direta e progressão roguelike. A combinação funciona especialmente bem durante os combates contra chefes, que exigem atenção ao ritmo e bom uso das habilidades das tropas. Somados à variedade dos oito Ratatans e à excelente trilha sonora, esses elementos dão personalidade ao jogo e mostram como a proposta pode render batalhas criativas e divertidas.

Essa qualidade, porém, não se mantém durante toda a jornada, o que é uma pena. Entre os confrontos mais interessantes, a repetição de áreas e a pouca variedade entre as runs tornam a progressão cansativa. A situação piora quando uma derrota te obriga a refazer trechos longos para chegar novamente aos momentos mais interessantes.

Mesmo com essas limitações, Ratatan consegue mostrar que o estilo de Patapon ainda tem espaço para evoluir. O combate funciona, os personagens têm carisma e a música contribui diretamente para tornar cada confronto mais envolvente e divertido. Para quem sente falta da série original, há aqui uma experiência que recupera parte de seu encanto sem depender apenas da nostalgia. O problema é que a repetição impede o jogo de aproveitar tudo o que tem de bom. Com mais variedade entre as runs, Ratatan poderia transformar uma boa ideia em uma aventura muito mais consistente.

Ratatan chega em 15 de outubro de 2026 para PlayStation 5, PlayStation 4, Xbox Series X|S, Nintendo Switch 2 (e Switch original) e PC (Steam).

Agradecimento ao estúdio por nos fornecer uma cópia para review.

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Apenas mais um entusiasta de jogos eletrônicos, apaixonado por explorar novos mundos que me ajudam a compreender melhor o mundo que eu vivo. Também estudante de psicologia e um amor de pessoa nas horas vagas.