O filme, em seus melhores momentos, parece menos preocupado em reconstruir jogadas do que em entender o que aquelas jogadas significam para quem as guarda na memória afetiva. E aí ele faz uma pausa. Larga a bola. Olha para o lado. Quem foi Zico quando nenhuma câmera de TV estava ligada? A resposta não está nos gramados, mas nos registros caseiros que Wainer vasculha com olho de ourives. É ali, na textura granulada do arquivo pessoal, que o documentário encontra sua verdadeira respiração.

A fotografia transita bem entre o presente documental e o passado remasterizado. Não há aquele brilho plástico que tantas produções biográficas usam para maquiar a ausência de alma. Pelo contrário, os depoimentos de Ronaldo Nazário e Carlos Alberto Parreira surgem em tons sóbrios, como se estivessem num confessionário. A trilha sonora, discreta, mas conta com dois detalhes preciosos: o hino do Flamengo cantado por Jorge Ben Jor e a versão de “Your Song”, do Billy Paul. Para além da escolha musical, elas funcionam como transições narrativas importantes para a história que Wainer quer contar do Galinho.
O problema estrutural, se é que se pode chamar assim, é que Zico, o Samurai de Quintino sabe para onde vai desde o primeiro quadro. A trajetória cronológica, da infância em Quintino ao estrelato no Flamengo, passando pela frustrada Copa de 1982 e pela inesperada consagração no Japão, obedece a uma lógica tão previsível que chega a lembrar aqueles livrões de capa dura que ganhamos de presente em aniversário.
Bonitos, respeitosos, mas que você folheia uma vez e guarda na estante. O diretor, talvez por receio de ferir o ídolo, evita esmiuçar os dilemas que realmente doem – a estranha ida para a modesta Udinese no auge, o peso de nunca ter ganho uma Copa, as rusgas políticas dentro do clube que o viu nascer. Esses episódios são mencionados, sim, mas como meros obstáculos de videogame, superados com um aperto de botão. Falta o frame parado, o mergulho no desconforto.
Curiosamente, é quando o filme abandona o Flamengo que ele ganha mais substância. O pós-aposentadoria, a vida como técnico e dirigente, a relação quase zen com a cultura japonesa – aí, sim, o samurai deixa de ser metáfora decorativa e ganha carne. As passagens em que Zico aparece em Tóquio, explicando sua admiração pela disciplina local, ou revisitando velhos amigos num futebol de várzea, têm um sabor de descoberta. É como se o documentário finalmente se permitisse ser curioso, deixando de lado a obrigação de celebrar uma grande carreira já documentada em muitos lugares.

As vozes que se levantam no documentário formam um coro afinadíssimo – bonito, sim, mas que raramente desafina para ensinar algo novo. Talvez faltasse uma nota dissonante, um depoimento que não fosse apenas admiração, mas também dúvida. Alguém que perguntasse, por exemplo, se o Samurai de Quintino não teria sido ainda maior se tivesse sido um pouco menos samurai – menos contido, menos justo, menos fiel a um código que nem sempre recompensa os mais fiéis.
Mas aí estaríamos pedindo outro filme. O que está em cartaz cumpre aquilo a que se propõe: uma experiência afetiva de respeito e delicadeza. Para quem viveu os anos 70 e 80 no Rio de Janeiro, deve ser como revisitar a própria juventude em película. Para os Arthur de plantão – aqueles que conhecem Zico por ouvir dizer – a obra serve como uma introdução elegante e, acima de tudo, generosa. Gera a vontade de saber mais, de buscar os lances que não estão ali.
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