Crítica | 'Diva Futura' é um ensaio sobre a indústria do desejo e seus fantasmas
Imovision/Divulgação

Crítica | ‘Diva Futura’ é um ensaio sobre a indústria do desejo e seus fantasmas

Quando o ato final de Diva Futura confirma que aquela sucessão de personagens extravagantes, crises emocionais, disputas de ego e sonhos embalados em erotismo existiu de fato, o filme de Giulia Louise Steigerwalt muda discretamente de eixo. Até aquele momento, a sensação predominante é a de acompanhar uma fábula decadente sobre pessoas que tentavam vender fantasia enquanto eram consumidas por ela. A revelação documental apenas reorganiza o desconforto, não se trata mais de perguntar até onde a diretora exagera determinadas situações, mas de perceber o quanto aquela atmosfera de descontrole talvez fosse inerente ao universo que ela deseja retratar.

Baseado no livro escrito por Debora Attanasio, secretária histórica da agência Diva Futura, o longa mergulha na indústria pornográfica italiana entre os anos 1980 e 1990, período em que figuras como Ilona Staller, eternizada como “Cicciolina”, e Moana Pozzi extrapolaram os limites do cinema adulto e se transformaram em fenômenos culturais e políticos. O filme, entretanto, não escolhe observá-las exatamente como protagonistas absolutas. O centro gravitacional da narrativa é Riccardo Schicchi, interpretado por Pietro Castellitto, fundador da agência e personagem tratado simultaneamente como idealista, empresário desorganizado, romântico compulsivo e homem incapaz de compreender plenamente o próprio impacto.

Crítica | 'Diva Futura' é um ensaio sobre a indústria do desejo e seus fantasmas
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Essa escolha narrativa talvez seja o ponto mais provocador do filme – e também o mais controverso. A direção parece interessada em construir Schicchi como alguém deslocado dentro da própria engrenagem pornográfica. Enquanto produtores rivais aparecem associados a práticas violentas, exploração explícita e fetichização da brutalidade feminina, Riccardo surge frequentemente como um homem obcecado por erotismo afetivo, quase artesanal. Há uma sequência em que ele rejeita um conteúdo baseado em violência sexual com evidente repulsa. A cena funciona menos como absolvição moral e mais como tentativa de estabelecer fronteiras internas dentro de um mercado historicamente associado ao abuso.

Só que Diva Futura nunca encontra estabilidade total nesse argumento. Conforme a narrativa avança, a imagem quase ingênua atribuída a Schicchi começa a colidir com a própria estrutura que ele ajudou a sustentar. O filme parece consciente dessa contradição, embora nem sempre saiba como aprofundá-la. Existe um esforço contínuo para apresentá-lo como alguém que valorizava as atrizes, zelava por conforto e segurança e acreditava numa espécie de pornografia sentimental, mas o roteiro frequentemente esbarra no fato inevitável de que tudo ainda girava em torno da mercantilização do corpo feminino.

É justamente nesse atrito que o longa encontra seus momentos mais interessantes. Não quando tenta inocentar seus personagens, mas quando deixa escapar as ambiguidades deles. A relação de Riccardo com Debora, vivida por Barbara Ronchi, talvez seja o melhor exemplo disso. Enquanto ele parece tratar atrizes como musas etéreas, a secretária absorve silenciosamente o peso burocrático e emocional daquela máquina caótica. Debora organiza, protege, administra crises e sustenta uma estrutura inteira enquanto observa homens transformarem desejo em negócio. Há um cansaço acumulado na personagem que o filme capta com enorme sensibilidade.

Ronchi trabalha essa exaustão com uma atuação de contenção admirável. Seu olhar frequentemente comunica mais do que os diálogos permitem. Em muitos momentos, Debora funciona quase como uma testemunha do colapso emocional coletivo que ronda a agência. Ela observa pessoas confundindo liberdade sexual com liberdade emocional, glamour com afeto, exposição com autonomia. O filme encontra humanidade justamente nesses instantes menores, menos performáticos.

Curiosamente, embora o longa trate de figuras icônicas da cultura italiana, algumas delas parecem existir mais como espectros do que como personagens plenamente desenvolvidas. Cicciolina, por exemplo, carrega um peso simbólico enorme dentro da história política e midiática da Itália, mas recebe menos aprofundamento do que se imaginaria. Sua presença é magnética, porém mínima. O filme parece mais interessado no efeito que ela provoca ao redor do que nela mesma. Já Eva Henger, interpretada por Tesa Litvan, ocupa um espaço emocional mais consistente, especialmente na maneira como o roteiro explora as relações afetivas atravessadas pela indústria pornográfica.

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Existe também uma sensação constante de dispersão estrutural. Steigerwalt opta por uma narrativa fragmentada, marcada por idas e vindas temporais que nem sempre acrescentam densidade dramática. Em determinados trechos, a montagem parece acreditar que ritmo frenético equivale automaticamente à intensidade emocional. Não equivale. Algumas transições interrompem o fluxo das relações justamente quando elas começam a ganhar complexidade. A impressão é a de um filme dividido entre a vontade de construir uma memória afetiva daquele período e o desejo de reproduzir formalmente o caos mental de Riccardo.

Essa inquietação estética se manifesta com força na fotografia e na trilha sonora. A câmera raramente repousa. Os enquadramentos frequentemente abraçam excesso, saturação e artificialidade, como se tentassem encapsular uma época inteira movida por exagero performático. Há cenas que se aproximam deliberadamente de estética publicitária, criando um brilho plástico que reforça a ideia de desejo industrializado. Em alguns momentos, isso produz imagens fascinantes; em outros, sufoca o drama humano que o filme parece querer preservar.

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Ainda assim, determinadas sequências possuem um poder imagético difícil de ignorar. Uma delas, particularmente onírica e desconfortável, evoca diretamente a atmosfera de “Immortality”, jogo de Sam Barlow – sim, um jogo! – que também utiliza erotismo, imagem e performance como ferramentas para discutir apagamento feminino e fabricação de mitologias. O paralelo não surge apenas pela estética, mas pela sensação de que todos aqueles personagens estão presos dentro de representações de si.

O aspecto talvez mais intrigante de Diva Futura está na forma como ele evita simplificações completas, mesmo quando parece tentado a romantizar Schicchi. O longa critica claramente a indústria pornográfica tradicional e sua lógica predatória, especialmente na maneira como transforma mulheres em produtos descartáveis. Ao mesmo tempo, demonstra fascínio por figuras que acreditavam estar reinventando esse mercado de forma mais humana. Essa tensão impede leituras confortáveis.

Porque existe algo contraditório no coração do filme; a tentativa de separar exploração de afeto dentro de um sistema construído justamente sobre consumo do corpo. Steigerwalt parece interessada menos em responder essa contradição e mais em observá-la corroendo lentamente seus personagens. Talvez por isso ninguém em Diva Futura pareça plenamente realizado, mesmo quando alcança fama, dinheiro ou reconhecimento público. O erotismo aqui nunca surge como libertação absoluta. Surge como performance, disputa, sobrevivência e, frequentemente, solidão.

Ao acompanhar aquela sucessão de festas, gravações, campanhas políticas improvisadas e crises domésticas, o filme constrói uma espécie de retrato melancólico de pessoas tentando transformar desejo em identidade permanente. E té justamente por isso que a obra permaneça reverberando depois dos créditos, por causa dessas zonas desconfortáveis que se recusa a limpar.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.