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Crítica | Love Kills e a São Paulo que sangra em neon

Num exercício de deslocamento que diz muito sobre nossos desejos cinematográficos mais recalcados, Love Kills surge na cartilha do cinema de gênero brasileiro como um objeto que exige menos uma avaliação tradicional e mais uma sondagem de suas intenções. Dirigido por Luiza Shelling Tubaldini, o longa adapta uma história em quadrinhos de Danilo Beyruth para o coração noturno de São Paulo e, nesse gesto aparentemente simples de transposição geográfica, revela tanto suas fragilidades quanto seu trunfo mais precioso: uma relação quase simbiótica com o ambiente urbano que o abriga.

Love Kills não ambiciona revolucionar a mitologia vampiresca – e talvez quem espere isso esteja no endereço errado – mas se permite um diálogo curioso entre o arcaico e o contemporâneo, entre a cafonice teatral de certos diálogos e a beleza estonteante de uma cidade que nunca dorme.

O longa acompanha Helena, uma vampira que ronda um café no Centro de São Paulo e atrai a atenção de Marcos (Gabriel Stauffer), um garçom ingênuo que acaba sendo puxado para um submundo de intrigas entre imortais. À medida que se envolve com esse universo perigoso, ele vê sua própria mortalidade colocada em risco. O filme mistura romance e fantasia para explorar temas como trauma, dependência, relações abusivas e exclusão social.

Crítica | Love Kills e a São Paulo que sangra em neon
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A adaptação de um universo em quadrinhos não busca esconder suas origens. Pelo contrário, assume essa herança como parte do seu corpo estético. O que interessa aqui não é a complexidade da mitologia vampírica, mas a sua reinterpretação em um espaço urbano específico, onde a fantasia encontra fissuras no concreto. A cidade aparece recortada por luzes artificiais, sombras longas e uma arquitetura noturna que transforma ruas conhecidas em algo ligeiramente estranho, como se fossem lembranças distorcidas de um lugar que se acredita dominar.

O que sustenta esse deslocamento é, em grande parte, como a direção conduz o olhar para a cidade. A São Paulo de Love Kills não é apenas pano de fundo; ela se insinua como personagem secundária, pulsando entre bares, becos iluminados por néon e uma vida noturna que parece sempre à beira de um colapso elegante. Há uma sofisticação visual que se impõe, especialmente na fotografia, que parece interessada em transformar o urbano em algo quase mítico, ainda que sem abandonar sua concretude.

Nesse cenário, Helena surge como figura central de atração e estranhamento. Interpretada por Thais Lago, a personagem não se limita ao arquétipo da vampira sedutora. Existe nela uma camada de ambiguidade que escapa à simplificação, como se sua presença carregasse uma beleza que não se oferece de maneira confortável. Há algo de perigoso na forma como ela ocupa o espaço, e esse magnetismo não se constrói apenas pelo figurino ou pela estética, mas por uma atuação que parece equilibrar fragilidade e ameaça com certa precisão instável. Em alguns momentos, sua presença remete, em proporções distintas, ao impacto de Aaliyah em “A Rainha dos Condenados”, especialmente na forma como o sobrenatural se mistura à presença física.

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O roteiro, por sua vez, transita por caminhos já conhecidos do gênero. Há romances atravessados por tensão, confrontos entre mundos distintos e uma mitologia que não se aprofunda o suficiente para se tornar estrutura sólida. Em muitos momentos, a sensação é de que a narrativa opta por não expandir suas próprias possibilidades, preferindo permanecer em uma superfície segura. Ainda assim, essa escolha não impede que o filme encontre momentos de impacto, sobretudo quando a estética assume protagonismo.

Os diálogos, por vezes, escorregam para um registro excessivamente teatral, quase consciente de sua própria artificialidade. Em outra chave, poderiam soar deslocados, mas aqui acabam incorporados ao tom geral da obra, que nunca se propõe a esconder seu caráter performático, que resulta numa estranheza que se acomoda dentro da lógica vampiresca-fantasiosa, como se a linguagem também estivesse sob influência da mesma atmosfera que envolve os personagens.

A trilha sonora acompanha essa proposta estética com discrição e intensidade pontual. Em vez de se impor, ela parece surgir como extensão do ambiente, reforçando a ideia de que a cidade está sempre em movimento, mesmo quando os personagens estão parados em seus conflitos internos. Não há grandiloquência desnecessária, mas uma tentativa de costurar o clima entre tensão e melancolia urbana. No entanto, não posso deixar de registrar que senti falta de algo mais ousado. A imagem pedia isso, mas a música parece muito tímida em comparação.

Os efeitos e as maquiagens, em especial, chamam atenção pelo cuidado técnico. Existe um esforço visível em construir uma materialidade para o fantástico, mesmo quando ele se apoia em convenções já conhecidas. O corpo vampírico, aqui, não é apenas símbolo: ele é superfície trabalhada, textura que dialoga com a proposta visual do filme e reforça sua identidade estética.

Ainda assim, é na relação entre a fantasia e a cidade que o filme encontra sua zona mais interessante. São Paulo não é tratada como cartão-postal, mas como organismo vivo, atravessado por contradições e intensidades. Existe uma tentativa de capturar a cidade em sua complexidade noturna, ainda que essa exploração pudesse ir mais fundo em determinados momentos. A sensação de que há mais a ser visto permanece, como se o filme abrisse portas que não chega a atravessar completamente.

Embora a ambientação se destaque, o filme ainda sofre com algumas limitações técnicas, sobretudo quando flerta com a ação. Luiza entende isso e evita que essas cenas sejam feitas em planos abertos ou com poucos cortes. Os efeitos de superforça dos vampiros funcionam, mesmo que denotem uma sensação de lentidão, o que deveria causar o efeito inverso.

Crítica | Love Kills e a São Paulo que sangra em neon
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Por sorte, Love Kills opta por não ser um filme essencialmente de ação. Ele é um experimento de gênero que carrega as marcas de seu contexto: recursos limitados, ambições grandes, soluções criativas que brilham às vezes e às vezes tropeçam. Sua existência, mais do que sua execução, levanta questões pertinentes sobre os rumos do cinema fantástico brasileiro. Que imaginários estamos construindo? Que monstros nos habitam e que cidades os abrigam?

O longa não responde a essas perguntas, mas tem o mérito de formulá-las em uma sintaxe visual que nos desacostuma do óbvio. A vampira de Thais caminha pelo ‘Centro Sujo’ de São Paulo como quem atravessa séculos e esquinas, e nesse deslocamento aparentemente simples, se insinua a promessa de que nosso cinema de gênero pode, enfim, fincar os dentes em alguma coisa viva.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.