Crítica | Obsessão utiliza do ressentimento do 'cara legal' para criar horror
Blumhouse Productions/Divulgação

Crítica | Obsessão utiliza do ressentimento do ‘cara legal’ para criar horror

Existe uma parcela do público masculino contemporâneo que aprendeu a interpretar rejeição como humilhação pessoal. Não uma tristeza comum, não uma frustração emocional legítima, mas um roubo. Como se afeto fosse recompensa por bom comportamento. Como se simpatia, escuta e delicadeza fossem investimentos destinados inevitavelmente ao retorno sexual ou romântico. Quando esse retorno não vem, surge o ressentimento. E ressentimento masculino, historicamente, raras vezes permanece apenas como ressentimento. Ele se reorganiza em controle, culpa, manipulação, perseguição emocional e, nos casos mais extremos, violência. Obsessão, dirigido por Curry Barker, parece entender isso de maneira assustadoramente íntima.

O desconforto provocado por Obsessão não nasce exatamente do sobrenatural. O horror do filme está no reconhecimento. Está naquela memória específica – especialmente feminina – de perceber que um homem aparentemente gentil talvez nunca tenha enxergado você como pessoa. Apenas como possibilidade. Como prêmio. Como promessa.

A experiência mais angustiante do longa é perceber que o protagonista, Bear (Michael Johnston), não se vê como ameaça. E o cinema passou décadas ensinando o espectador a não o enxergar assim também. O garoto tímido, emocionalmente desajeitado, inseguro, carente, apaixonado pela amiga: Hollywood transformou essa figura num arquétipo romântico. Aprendemos a torcer por homens assim. Aprendemos a acreditar que insistência é sinceridade. Que persistência emocional é prova de amor. Que a mulher eventualmente perceberá “quem realmente se importa com ela”. Obsessão pega esse imaginário inteiro e o apodrece lentamente diante da câmera.

O personagem de Michael Johnson não opera na chave da monstruosidade explícita. Não é agressivo no sentido tradicional. Não performa masculinidade violenta da maneira como o cinema costuma enquadrar seus homens perigosos. Ele fala baixo, hesita, demonstra fragilidade. É aí que o filme encontra sua camada mais indigesta, quando a percepção de que misoginia nem sempre se apresenta através da brutalidade escancarada. Às vezes, ela surge mascarada de vulnerabilidade masculina.

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Blumhouse Productions/Divulgação

Bear acredita amar Nikki (Inde Navarrette). Mas o filme insiste o tempo inteiro em perguntar outra coisa: é possível amar alguém sem reconhecer sua autonomia? Existe amor quando a liberdade da outra pessoa se torna obstáculo?

O desejo sobrenatural que impulsiona a trama funciona quase como uma materialização grotesca de algo socialmente banalizado. Quantos homens não desejam, secretamente, uma mulher que exista apenas em função deles? Quantos relacionamentos não operam sob essa lógica silenciosa em que o afeto feminino precisa girar permanentemente em torno das inseguranças masculinas? Barker transforma essa dinâmica em horror corporal, psicológico e simbólico sem jamais abandonar o terreno do reconhecimento cotidiano.

Nikki deixa de ser uma pessoa aos poucos. Esse é o movimento mais cruel do filme. Ela continua fisicamente presente, continua falando, sorrindo, olhando, tocando. Mas existe algo progressivamente morto dentro daquela presença. O longa trata a perda de autonomia como uma mutilação invisível. A personagem vai sendo reduzida a instrumento emocional de Bear enquanto ele continua convencido de que está apenas vivendo uma história de amor difícil.

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Nenhum aspecto do roteiro é mais perverso do que essa recusa masculina em compreender a própria violência. Quando Nikki ultrapassa limites grotescos. Bear ainda parece incapaz de reconhecer sua responsabilidade total naquilo. Há sempre uma justificativa emocional disponível. Uma desculpa. Um “ela está enlouquecendo”. Um deslocamento constante da culpa para a mulher transformada em monstro pelo desejo masculino.

O filme entende a cultura do ‘nice guy’: muitos homens acreditam sinceramente serem bons apenas porque não praticam formas explícitas de agressão. Como se misoginia só pudesse existir através do grito, da ameaça física ou da brutalidade aberta. Só que Obsessão trabalha justamente sobre violências menos visíveis – aquelas que sequestram subjetividade enquanto ainda performam afeto.

O horror do filme está em perceber que ela foi condenada a existir apenas através do desejo dele. Não há metáfora discreta aqui. O longa praticamente esfrega no rosto do espectador a ideia de uma mulher privada da própria humanidade para satisfazer a carência masculina.

A provocação mais amarga de Barker está na recusa de qualquer conforto moral simples. Porque Bear não é tratado como aberração isolada. O filme o reconhece como produto de uma lógica cultural extremamente familiar. Ele foi educado sentimentalmente por narrativas que confundem obsessão com romantismo. Aprendeu que amor verdadeiro exige insistência. Que homens emocionalmente “puros” merecem recompensa afetiva. Que sofrimento masculino é argumento suficiente para atravessar limites femininos.

E o mais desconcertante: muita gente provavelmente ainda verá Bear como vítima. Isso diz tanto sobre o filme quanto sobre o mundo ao redor dele.

A direção de Barker potencializa essa sensação de aprisionamento emocional através de escolhas técnicas extremamente conscientes, embora o filme nunca transforme estética em vaidade. A câmera fsufoca frequentemente ospersonagens em closes apertados, como se o espaço estivesse desaparecendo junto da individualidade de Nikki.

A baixa profundidade de campo, recurso frequentemente usado de maneira preguiçosa no cinema contemporâneo apenas para criar “beleza”, aqui ganha função dramática real. O fundo desaparece porque o mundo ao redor da personagem também desaparece. Tudo vira extensão da obsessão masculina.

A fotografia trabalha constantemente com sombras e silhuetas para transformar Nikki numa presença parcialmente ilegível. Inde Navarrette contribui enormemente para isso através de uma atuação física perturbadora. Seu corpo parece gradualmente abandonar comportamentos humanos reconhecíveis. O sorriso demora além do normal. O olhar permanece aberto tempo demais. Os movimentos carregam uma artificialidade inquietante, como se ela estivesse permanentemente tentando performar humanidade a partir de lembranças fragmentadas do que isso significa.

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Mas Barker nunca trata essa monstruosidade como espetáculo vazio. O corpo deformado de Nikki não existe para entretenimento gore ou choque gratuito. Ele é consequência visual de um apagamento subjetivo. Ela vira criatura porque deixou de poder existir enquanto pessoa.

A trilha sonora amplia esse desconforto ao brincar com referências afetivas muito específicas das comédias românticas americanas. Canções suaves atravessam diálogos tensos como se o filme ironizasse constantemente a estética do amor idealizado. É cruel assistir a cenas emocionalmente violentas embaladas por uma atmosfera sonora que remete ao conforto sentimental do cinema adolescente.

Obsessão trabalha com muitos códigos tradicionais do romance cinematográfico que sempre estiveram perigosamente próximos do horror. A insistência masculina é celebrada. O ciúme tratado como intensidade amorosa. A incapacidade de aceitar rejeição romantizada como persistência apaixonada. O desejo de possuir alguém integralmente vendido como prova máxima de amor. Barker apenas remove o verniz. O que aparece por baixo não é exatamente novidade, mas esse é justamente o problema.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.