Uma casa guarda ruídos. Alguns vêm dos canos, da madeira que dilata, das janelas que respondem ao vento. Outros atravessam gerações. Em Criadas, a casa não funciona apenas como cenário, ela se torna um organismo que absorve tensões, memórias e ressentimentos acumulados ao longo do tempo. Quando duas primas voltam a dividir um mesmo espaço, o que se rompe não é apenas uma convivência delicada. O próprio tecido da realidade parece ceder, permitindo que dores antigas encontrem novas formas de se manifestar.
A diretora Carol Rodrigues constrói um filme interessado em materializar sensações. Seu olhar encontra no realismo mágico uma ferramenta particularmente fértil para lidar com experiências que frequentemente escapam à lógica objetiva. Não se trata de abandonar a realidade, mas de expandi-la. Os fantasmas que atravessam a narrativa não pertencem exclusivamente ao sobrenatural. São presenças produzidas por uma história social que insiste em permanecer viva, mesmo quando seus mecanismos se tornam invisíveis aos olhos mais distraídos.
A tensão entre as protagonistas Sandra (Mawusi Tulani) uma mulher negra retinta, e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), uma mulher negra de pele clara, nasce de uma relação marcada por afeto, ressentimento, admiração e disputa.

A dinâmica entre elas nunca encontra repouso porque o filme compreende que vínculos familiares podem carregar contradições impossíveis de serem resolvidas por uma simples conversa conciliatória. Existe amor, mas também existe uma violência estrutural que antecede qualquer escolha individual. A proximidade não elimina as diferenças. Pelo contrário, as torna mais evidentes.
Essa percepção atravessa uma das reflexões mais instigantes do longa. Em diferentes ambientes sociais, parece haver espaço para apenas uma mulher negra ocupar determinada posição de reconhecimento. Essa engrenagem silenciosa transforma pertencimento em competição. O filme observa esse mecanismo sem o reduzir a uma tese sociológica ilustrada por personagens. O conflito emerge das relações, dos olhares, das ausências e das expectativas depositadas sobre essas mulheres.
Dentro dessa lógica cruel, a promessa de ascensão individual frequentemente vem acompanhada pela sensação de que qualquer conquista é precária, provisória e ameaçada pela presença de alguém semelhante. Criadas observa os efeitos emocionais desse processo. O ressentimento não surge do nada. Ele é produzido por estruturas que distribuem oportunidades de maneira desigual e depois responsabilizam indivíduos pelas consequências dessa desigualdade.

A fotografia de Julia Zakia desempenha papel fundamental na construção desse universo. As imagens parecem oscilar entre o concreto e o espectral, como se os ambientes estivessem constantemente prestes a revelar algo oculto. Há uma textura que aproxima o cotidiano de uma dimensão onírica sem jamais romper completamente com o mundo reconhecível. A casa ganha profundidade não apenas física, mas histórica. Cada corredor parece guardar uma memória. Cada cômodo carrega uma camada invisível de acontecimentos passados.
As sombras e as luzes – sobretudo um roxo que invade um cômodo da casa –, recursos “emprestados” de longas de terror tão uma dimensão maior, e, até mesmo, assustadora para essa casa mal assombrada.
Essa atmosfera encontra eco na encenação, que frequentemente sugere mais do que mostra. O sobrenatural aparece como uma infiltração dentro da casa. Ele invade os espaços de maneira gradual, contaminando a percepção dos personagens e também do espectador. Os fantasmas se acumulam nos cantos, habitam silêncios e retornam quando menos se espera.
A trilha sonora acompanha esse movimento de maneira discreta, evitando conduzir emoções de forma excessivamente programada. Ela frequentemente contribui para ampliar a sensação de estranhamento que atravessa a narrativa. Resultando numa experiência que provocar estados de espírito. Mas também é justo dizer que, depois da sessão, já não lembro tanto dela.
A presença de Raquel (Rudimira Fula), empregada doméstica estrangeira que tenta apenas cumprir sua rotina, amplia o alcance da narrativa. Sua trajetória funciona como um lembrete de que determinadas estruturas sociais ultrapassam experiências individuais. O passado que assombra aquela casa não pertence exclusivamente às primas. Ele atravessa outras mulheres, outros corpos e outras histórias. O filme conecta diferentes trajetórias sem as transformar em símbolos abstratos.
Ao mesmo tempo, o longa revela certa dificuldade em confiar plenamente na força de suas próprias imagens. Em alguns momentos, aquilo que já foi elaborado visualmente retorna em diálogos excessivamente explicativos. Certas metáforas reaparecem com insistência, como se houvesse receio de que o público não compreendesse o já foi sugerido pela mise-en-scène. Esse movimento produz uma curiosa contradição: um filme profundamente interessado no poder simbólico da imagem que, ocasionalmente, sente necessidade de reafirmar verbalmente aquilo que ela já havia comunicado.
Essa escolha não anula a força da obra em sua totalidade, mas cria atritos interessantes dentro de sua própria estrutura. Afinal, parte do fascínio do realismo mágico reside justamente na capacidade de sustentar ambiguidades. Quando uma imagem é excessivamente explicada, algo de seu poder interpretativo inevitavelmente se reduz. Ainda assim, mesmo nesses momentos, percebe-se uma cineasta disposta a correr riscos. O filme prefere o excesso à neutralidade. Prefere experimentar a permanecer confortável.
Essa disposição para o risco aparece também na forma como a narrativa lida com ancestralidade e memória. O trauma histórico não surge como contexto distante. Ele habita os corpos, interfere nos afetos e reorganiza os espaços. Os “fantasmas de carne e osso” mencionados algumas vezes no longa não são apenas figuras metafóricas. São marcas deixadas por séculos de violência, hierarquias raciais e disputas por pertencimento.

O aspecto mais instigante da obra está na recusa em simplificar suas personagens. Nenhuma delas existe para representar uma ideia única. Elas carregam contradições, incoerências e zonas cinzentas. O filme compreende que questões relacionadas a raça, identidade e pertencimento dificilmente cabem em categorias rígidas. São experiências atravessadas por contextos históricos, disputas simbólicas e vivências particulares.
Entre as presenças espectrais, reencontros familiares e feridas herdadas, Carol tenciona a narrativa e transforma o espaço doméstico num campo de confronto, não mais de abrigo. O que emerge desse embate não é uma conclusão definitiva sobre identidade, racismo ou ancestralidade, mas uma série de perguntas que continuam reverberando.
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