Sou um homem solteiro, sem filhos e sem sobrinhos para levar a reboque a uma sessão pensada, de fato, para o público infantil. Confesso: só fui assistir a Minions & Monstros porque o ofício de crítico exigiu. Numa cabine de imprensa, encarei o filme em condições que provavelmente jamais teria coragem de enfrentar numa sessão comum, lotada de pipoca voando e de uma euforia em decibéis pouco amistosos aos ouvidos de quem já passou da idade de rir sem motivo aparente.
Conheço os Minions apenas de ouvir falar. Lembro vagamente de ter visto o primeiro Meu Malvado Favorito, mas nunca acompanhei as continuações nem os spin-offs protagonizados pelas criaturinhas amarelas.
É justamente um lugar curioso para avaliar o sétimo capítulo de uma franquia tão longeva: o de um espectador que chega sem bagagem afetiva, mas também sem abrir mão da curiosidade sobre o que esse tipo de animação vem entregando ao público nos últimos anos.
A primeira cena já sinaliza ambição. Em preto e branco, com bonecos em stop motion, o filme recria momentos fundacionais do cinema – a icônica sequência dos operários deixando a fábrica em “A Saída dos Operários da Fábrica”, dos irmãos Lumière, e a viagem lunar de “Viagem à Lua”, de Georges Méliès. É uma abertura que aposta na cinefilia como isca, e funciona como declaração de intenções. Aqui, os Minions não serão apenas mascotes de merchandising, mas personagens inseridos dentro da própria história do cinema.

O roteiro parte de um artifício simples, um grupo de crianças está visitando um museu dedicado a Hollywood, entre relíquias que remetem a “E.T.” e “Matrix”, com o intuito de introduzir a lenda de James, o Minion sonhador que, ao lado dos companheiros Henry e Dick, atravessa milênios em busca de vilões a servir. O mote de sempre – encontrar um chefe, falhar, repetir o ciclo – aqui ganha um destino inusitado: Hollywood dos anos 1930, onde o trio é confundido com crianças doentes e acaba contratado para atuar.
É nesse ponto que o filme começa a se dividir entre duas ambições nem sempre conciliáveis. De um lado, há a vontade evidente de celebrar a era do cinema mudo, citando Chaplin – a sequência dentro da engrenagem industrial que remete a “Tempos Modernos” é um dos pontos altos visuais do longa – e Harold Lloyd, com sua imagem pendurado no ponteiro do relógio recriada quase à risca. De outro lado, há a estrutura de comédia pastelão que sustenta a franquia desde sempre, com o humor físico e as confusões linguísticas que fizeram os Minions se tornarem ícones pop. Essa fricção entre homenagem cinéfila e comédia infantil despretensiosa é, talvez, o elemento mais interessante para se discutir aqui: até que ponto uma criança na plateia percebe as citações a “Cidadão Kane” ou a “Casablanca”, e até que ponto isso importa para o filme funcionar?
O diretor Pierre Coffin, que assume sozinho o comando pela primeira vez na franquia – depois de dividir a cadeira em produções anteriores –, afirmou publicamente em entrevistas que a intenção nunca foi transformar o longa numa aula de história do cinema, mas sugerir que ícones como o relógio de Lloyd talvez tenham sido, dentro dessa lógica de fábula, “causados” pelos próprios Minions. É uma ideia cheia de humor e um tanto irônica, que evita o tom professoral e aposta na irreverência.

Vale reparar também no tratamento sonoro do “minionês”, o idioma inventado que mistura fragmentos de inglês, francês, espanhol e português. Coffin, que dubla os personagens, buscou simplificar a compreensão dessa língua nesta edição – decisão que talvez explique por que as piadas parecem mais imediatas, menos dependentes de tradução mental do espectador. A trilha sonora, ambientada na estética suingue e orquestral dos anos 1930, reforça a ambientação de época sem se tornar mero pano de fundo, dialogando ativamente com as gags visuais.
Enquanto James tenta produzir seu próprio filme para conquistar a estatueta dourada, que aqui é reimaginada como banana, numa piada que soa ao mesmo tempo, óbvia e eficaz, o restante do grupo – sob a liderança de outro Minion – se envolve com um robô alienígena chamado Dort, dividido entre destruir a Terra ou se apaixonar por uma sufragista. É curioso como essas subtramas, que poderiam parecer dispersivas, acabam funcionando como válvulas de escape para o humor mais desconexo e menos preso à narrativa central sobre cinema.

A questão mais interessante levantada por Minions & Monstros está menos relacionada ao funcionamento de sua narrativa e mais à maneira como observa o próprio cinema enquanto indústria de sonhos. Existe um comentário discreto sobre fama, descartabilidade, mudanças tecnológicas e permanência da imaginação. Os Minions tornam-se celebridades quase por acidente e deixam de interessar ao mercado quando uma inovação altera as regras do jogo. A trajetória parece absurda justamente porque guarda alguma familiaridade com a própria história de Hollywood.
Saí da sessão pensando que meu distanciamento da franquia acabou funcionando quase como vantagem. Sem compromisso afetivo com os filmes anteriores, encontrei uma obra interessada em olhar para trás, revisitando o nascimento do cinema através de personagens que sempre sobreviveram ao excesso de movimento, ao humor físico e ao caos organizado. Existe algo simbólico nisso. Criaturas que praticamente dispensam palavras acabam encontrando seu lugar justamente na fase da história em que o cinema também aprendia a contar histórias quase sem precisar delas.
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