Review | Gothic 1 Remake é gótico e opressor como ele sempre foi

Lançado originalmente em 2001 e desenvolvido pela finada Piranha Bytes, Gothic é um dos grandes “ERPGs” que esse mundo já viu, e dá pra dizer que ele pega bem o espirito de um famoso “Eurojank” mesmo, apesar de ser um RPG complexo e com ótimos conceitos, era repleto de bugs que tornavam a experiência um tanto engraçada, interessante e frustrante.

Anos se passaram e THQ Nordic – que detém os direitos da franquia atualmente, coloca a novata Alkimia Interactive – um estúdio que reside em Barcelona, para desenvolver o remake, sendo o primeiro trabalho do estúdio com jogos e aqui já levantamos a questão, eles fizeram jus ao original? Mantiveram aceso o espirito de Gothic com esse remake? Ou alteraram o jogo a ponto de ele perder sua essência.

Bem, eu poderia dizer que ele fez um pouco dos dois, mas ainda tem a sua parcela de bugs e erros que são um tanto inéditos dele mesmo.

Um mundo opressor com uma pegada direta, e simples

Gothic 1 Remake/THQ Nordic

Na trama de Gothic, o Rei Rhobar II em um movimento de desespero contra o seu inimigo mais poderoso – os Orcs, e para criar armas e outras ferramentas importantes, ele decide usar seus prisioneiros como mineradores para acelerar o processo, para reforçar ainda mais isso, ele pede a diversos magos a lançarem uma barreira magica no vale das minas – que fica em uma ilha chamada de Khorinis, para impedir que os prisioneiros escapem da região, mas, o tiro sai pela culatra e a barreira se expande mais do que deveria, e aproveitando o caos da situação, os prisioneiros tomam a região para eles, forçando Rhobar a aceitar um acordo com eles pelos minérios, e os prisioneiros criam diferentes facções que comandam a área. Então temos na área uma dinâmica de todos podem entrar, mas ninguém pode sair.

Aqui controlamos então um recém prisioneiro encarregado de entregar uma carta ao líder dos Magos de Fogo, dando uma oportunidade no meio da condenação, sendo ela que invés de ser um minerador, nós somos um mensageiro que precisa superar os perigos do Vale das Minas.

Gothic 1 Remake/THQ Nordic

Algo muito bacana de Gothic é esse setting opressor, estamos em uma ilha repleta de monstros e condenados, e apesar da parcela da população não ser formada só por prisioneiros, são eles que dominam a área, então muito NPC tem essa marra que não encontramos em muito jogos. E aproveitando esse gancho, Gothic é um RPG muito a frente do seu tempo com diálogos dos NPCs e escolhas, temos uma árvore bem grande de escolhas aqui com resoluções bem interessantes, que faz o jogo parecer moderno até mesmo nos dias de hoje, mesmo ele tendo diálogos mais robóticos e não naturais.

Ambientação refeita e mais bela, mas que busca respeito do original

Gothic 1 Remake/THQ Nordic

Gothic 1 Remake fez um bom acerto em traduzir áreas do antigo jogo para os gráficos atualizados da Unreal Engine 5, ele mantém a mesma estrutura de level do jogo original, mas busca enfeitar mais os cenários, e as vezes, expandi-los com novas ideias, mas eles sempre buscam manter a mesma estrutura intacta, porém como eu já informei, com novas adições nos cenários que variam de visuais interessantes e bonitos, para muita informação na tela a ponto de incomodar os olhos, e eu acho importante ressaltar isso pois o primeiro Gothic veio de uma era completamente diferente da que temos hoje, então ele buscava ser bonito o máximo que ele podia, mas ele se preocupava em manter uma boa certeza visual do que o jogador está olhando.

Porém, muito da iluminação e atmosfera do jogo original acabou se perdendo nesse processo de embelezamento para a Unreal Engine 5, ainda é fantástico de se olhar e é bastante envolvente, mas o jogo original tinha uma atmosfera muito densa, com um sol que não brilhava tanto e que parecia um fim de tarde eterno até o cair da noite.

Esse vídeo mostra exatamente o que eu quero ilustrar aqui, e é difícil não elogiar o trabalho da Alkimia Interactive em fidelidade, apesar dos pesares.

Já em criaturas e outros NPCs, eles mantiveram a fidelidade onde era possível, o Gothic original tinha um conceito de arte bem interessante, e a Piranha Bytes sabia bem trabalhar com suas limitações, o remake entrega visuais próximos ao original, mas vez ou outra, criaturas parecem até completamente diferentes do conceito delas. Isso não chega a ser um grande problema, mas é um pouco decepcionante ver que não passaram bem alguns desses visuais pra era de jogos de alta definição.

Agora falando na performance do jogo, infelizmente ele peca muito, pelo menos no PlayStation 5, onde mesmo depois de diversos patches de correção, a performance ainda é decepcionante, cravado a 30fps com algumas quedas momentâneas. Infelizmente o uso da Unreal Engine 5 não fez muito bem para a otimização do jogo, apesar dele estar um espetáculo de se visualizar.

Gameplay modernizado, mas ainda ‘oldschool’

Gothic 1 Remake/THQ Nordic

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção em Gothic Remake, é como ele mesmo buscando trazer o jogo pra uma era diferente de jogos, ele é um remake que não pega na sua mão e vai te levando onde ele acha que você deveria ir.

Aqui, o jogador tem uma variedade de coisas para realizar sem muita ideia do que fazer exatamente – temos uma falta de mapas para nos situar, e precisamos acha-los ou compra-los no jogo para que ele possa ter utilidade a nós, as quest não dão markers que nos entrega exatamente com quem nós temos que falar ou onde ir, e sinceramente, isso é maravilhoso. É algo que parece que só atrapalha o jogo, mas muito jogo deveria fazer algo parecido, a adição de coisas como fast travel e mapas com objetivos fáceis nos jogos, acaba nos fazendo perceber menos o mundo do jogo, e nos faz prestar atenção em detalhes mais mecânicos que orgânicos nele, saber se guiar por localizações e saber onde encontrar diferentes personagens no jogo, é algo que foi muito divertido em Gothic pra mim, e é algo que merece destaque nesse remake, pois sem dúvidas era muito fácil deixar o jogo mais “mecânico” para agradar mais pessoas, mas mantiveram o pé firme nessa questão.

Gothic tem um sistema de combate e habilidades até simples, que remetem bastante a jogos como The Witcher. Apesar de uma variedade interessante de builds do personagem, aqui o que consta primeiro é a sobrevivência do nosso personagem, então uma espada com bons status e uma boa armadura são essenciais pro começo da jornada, e com o tempo, o jogo vai se abrindo mais e mais para os jogadores apelarem e experimentarem.

Não tem grandes inovações no combate de Gothic antes mesmo do remake, já que as inovações dele ficaram por parte de um worldbuilding elaborado e diálogos complexos com diversos NPCs, mas o combate não deixa a desejar, ainda mais com uma repaginada moderna, onde eles buscam deixar o jogo ainda mais acessível para os jogadores, contendo uma dificuldade para Novatos, a Gothic – que é a dificuldade normal, e a Hard que dispensa comentários. Mas além delas temos também a possibilidade de ajustarmos a dificuldade de acordo com a nossa vontade, podendo deixar o combate do jogo mais acessível, mas deixando os recursos escassos, ou pode ativar o modo Permadeath – onde uma vez morto, o jogo começa do 0, mas aí vai da sua preferência.

A progressão do jogo é bastante simples, mas bem única, o jogo te recompensa com experiencia por matar monstros e realizar quests, e Gothic não recompensa o jogador por grindar, já que muitos dos monstros e inimigos que encontramos não renascem, impedindo o jogador de apelar pra isso no começo dele, mas sempre é bom parar para enfrentar os inimigos para ganhar experiencia, só é necessário cautela para saber o que você está enfrentando exatamente.

Fonte: TechRaptor

Evoluindo seu personagem, você ganha uma parcela de LPs (Learning Points) que é onde a coisa brilha de verdade. Indo em treinadores de habilidade, você pode gastar esses pontos em diferentes habilidades, seja com armas, ou interação a objetos do mundo, e é com isso que vamos ganhando uma variedade maior no combate e exploração do mundo de Gothic, e vale muito a pena investir esses pontos no uso das armas de combate, já que com pouco esforço, o nosso personagem fica com uma postura diferente e com diversos ataques que ajudam bastante, mas é sempre bom ter uma espécie de foco nas builds que você montar, e não se atente muito a evoluir HP ou Mana, já que explorando o mundo, você é bastante recompensado com poções que aumentam esses atributos, mas tenha um bom foco em que tipo de personagem você vai querer.

Trilha sonora clássica, mas com maturidade

Como eu acabei de dizer no título, a trilha sonora do jogo ganha alguns toques especiais, mas não altera as composições drasticamente, já que o responsável por ela, é o compositor dos três jogos originais.

Então conseguimos ver a maturidade de Kai Rosenkranz como compositor ao longo dos anos, mas como ter mais opções instrumentais o ajudam a redefinir o que ele já tinha feito anteriormente, temos composições mais elevadas para o épico, e outras mais atmosferas que ainda compõem a ambientação do jogo perfeitamente bem.

Temos também uma gama de adições no som ambiente para deixar o jogador mais imersivo em Khorinis.

Considerações finais

Gothic 1 Remake/THQ Nordic

Assim como a nossa finada Bluepoint no inicio da carreira dela, a Alkimia Interactive nos mostra um começo promissor com remakes e remasterizações, eles repaginaram bastante Gothic mas deixaram tudo praticamente com a mesma atmosfera do original, mantendo bastante o level design e a estrutura de mundo, apesar de suas diferenças.

Gothic é um jogo que não tem muita “ação” por assim dizer, ele é um jogo um tanto lento que requer paciência do jogador para ter um bom gancho, e com esse investimento feito, ele começa a te entregar um jogo bastante único e cheio de promessas inovadoras que são bem feitas e bem entregues, mas eu consigo ver muito jogador desistindo dele logo no começo por conta desse ritmo mais desacelerado, e bem, isso não é demérito do jogo, os jogadores que procuram um mundo interessante, um combate que requer cuidado e atenção, e um sistema de progressão curioso, sem pegar na mão do jogador, tem aqui um prato cheio.

Vale citar que o jogo tem legendas em PT-BR, o que ajuda muito a jogadores Brasileiros se localizarem nesse mundo, e não ficarem completamente perdidos.

E quem já amava o jogo original, com certeza vai ter um carinho e respeito enorme por esse remake, que certamente respeita quem aprecia o jogo original.

Um agradecimento a THQ Nordic por terem nos disponibilizado o jogo para análise!

Gothic 1 Remake já está disponivel para PlayStation 5, Xbox Series, e PC via Steam ou GOG.

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Meu prato favorito é JRPGs, mas também gosto de saborear filmes, animações, quadrinhos etc. Um outro prato que adoro é jogo de terror com tempero de ação, mas, na real, eu gosto de tudo relacionado a videogame.