A expressão “lost weekend” (fim de semana perdido, em tradução livre) carrega em si uma contradição. Um fim de semana perdido pode ser tanto o tempo afogado em vícios e escapismos quanto aquele intervalo inesperado em que você se encontra, pela primeira vez, completamente sem ter para onde ir. É nessa ambiguidade que Phoebe Bridgers instala Lost Weekend, seu terceiro disco solo – um trabalho que, antes mesmo de terminar a primeira faixa, já deixa claro que essa artista de 32 anos, completados nesta segunda-feira (17), não está mais negociando com expectativas alheias. Nem as do público, nem as da indústria, provavelmente nem as suas próprias.
O disco chega carregado de contexto. Seis anos separam este trabalho do antecessor, o aclamado “Punisher”, e nesse intervalo aconteceu muita coisa: a morte do pai, um relacionamento público desfeito com o ator Paul Mescal, o sucesso do boygenius – parceria com as cantoras Julien Baker e Lucy Dacus –, quatro Grammys, um novo amor com o comediante Bo Burnham e a consolidação de um status de voz de uma geração. Tudo isso coube em 16 faixas, que não é apenas um álbum de luto ou apenas um álbum de amor. É os dois, simultaneamente, sem que um anule o outro.
Na abertura de “The Outside”, a voz mais reconhecível do indie americano contemporâneo aparece coberta por um vocoder, mecânica e plural, narrando duas formas distintas de sair do próprio corpo – o enterro do pai e o palco de um show – como se fossem variações do mesmo fenômeno de dissociação. A ironia é precisa demais para ser acidente: Bridgers usa exatamente a dissolução da sua voz para falar sobre o que significa ser vista, observada, existir para os outros enquanto você mesma assiste de fora. A produção de Tony Berg, Ethan Gruska, Jack Antonoff e Alex G sustenta com drones e sintetizadores que funcionam como câmaras de eco emocional.
O que essa geração, nem tão millennial nem tão gen Z, reconhece em Bridgers não é apenas a tristeza. É a arquitetura específica de ter trinta e poucos anos e descobrir que a realidade que você construiu ainda parece estranha demais para habitar com conforto. “Lost Boys”, o primeiro single do disco, funciona exatamente nesse registro. É uma música de reconciliação improvável. Imagens de motos em alta velocidade, birras de adultos que se recusam a crescer, camas de solteiro preservadas como relicários da adolescência. E, mesmo assim, no refrão final, ela chama de volta todos esses lost boys – todas aquelas versões patéticas e adoráveis do masculino que nunca souberam o que fazer com tanto espaço vazio.
É possível se identificar com “Lost Boys” mesmo sem andar de moto, sem arranjar brigas, sem ter guardado a decoração do quarto dos 17 anos como prova de uma época melhor. O ponto de contato é outro – aquele senso de estar sempre ligeiramente atrasado para o próprio amadurecimento, de circular entre lugares e pessoas como se houvesse um manual de instruções que todo mundo recebeu menos você. Bridgers não escreve sobre isso com condescendência. Ela escreve como quem conhece bem o terreno, e é essa proximidade sem julgamento que torna a música dela permeável a experiências que, na superfície, parecem muito distantes da dela.
A produção incorpora texturas de bluegrass americano – banjo, pedal steel, mandolim – não como pastiche regionalista, mas como linguagem emocional. Em “Still Standing”, a transição entre o silêncio quase eletrônico do início e a chegada gradual de violão e banjo opera como metáfora sonora para o luto. Aquelas camadas que se constroem lentamente ao redor de uma ausência até que ela, paradoxalmente, fica ainda mais evidente.
“Never Going Back!” incorpora literalmente uma nota de voz do pai de Bridgers, num gesto que interrompe a canção como se o tempo dobrasse sobre si. É um recurso que poderia facilmente escorregar para o sentimentalismo manipulador. Não escorrega. Funciona porque todo o disco já preparou o terreno para que esse momento tenha peso real, e não apenas simbólico.
“Bobby”, por sua vez, é o tipo de canção que começa num registro e termina em outro sem que a transição pareça calculada. Versos mais contidos, com guitarras minuciosas, cedem espaço a um refrão com qualidade física de aperto no peito, antes que sintetizadores etéreos entrem quase como uma dissolução. É uma música de amor que não tem medo de ser grande – o que, vindo de uma artista cuja reputação foi construída na contenção e na sussurração, é, em si, um gesto significativo.
“I Can’t Wait” funciona como uma das maiores surpresas do disco. Os vocais manipulados de Bridgers derivam pelo campo estéreo antes de a produção eletrônica ceder a uma passagem delicada de banjo, onde uma voz misteriosa creditada como “Son-John Johnson” – fortemente suspeita de ser o cantor Cameron Winter, da banda Geese – aparece para complementar o refrão. É um desses momentos em que o disco se lembra de que pode ser imprevisível sem precisar ser caótico.
O fechamento com “Lost Weekend (Reprise)” traz de volta os temas musicais que circularam pelo trabalho – aquela valsa ora funeral, ora celebratória – e os deixa ir embora sem forçar uma conclusão que o material não pediu. É um encerramento que reconhece que as coisas continuam se movendo depois que a música para.
O luto não tem data de encerramento, o amor não começa com o disco anterior e ter 30 e poucos anos significa, muitas vezes, aprender a viver com mais de uma verdade ao mesmo tempo – sem que nenhuma delas precise ser definitiva para ser real. Bridgers fez as pazes com que um fim de semana perdido também pode ser, dependendo de como você o atravessa, exatamente o tempo que faltava.
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