Lançado originalmente em 26 de setembro de 2024 e desenvolvido pela Wrong Organ, Mouthwashing finalmente chega aos consoles de mesa por uma iniciativa da distribuidora Critical Reflex. O jogo ficou bastante popular pelo boca a boca dos fãs, que lamentarem a exclusividade do titulo para PC. Apesar de ter um breve conhecimento sobre Mouthwashing – principalmente por seu estilo visual peculiar que invoca títulos de PlayStation 1 – esse foi o meu primeiro contato jogando-o. E imagino que muita gente “experimentou” o jogo por meios como assisti-lo no YouTube, ou vendo o seu streamer favorito jogar. Já eu apenas tinha conhecimento do jogo por discussões breves que acompanhava em fóruns, ou algumas vezes que o YouTube me recomendava um vídeo sobre, me deixando bastante curioso sobre Curly – o homem enfaixado meio mumificado – que certamente é o ponto visual que mais chama atenção do jogo.
Mas acreditem em mim, jogar Mouthwashing é uma experiência completamente diferente de assisti-lo. Algo que eu respeito muito do pouco que eu conheço do estúdio Wrong Organ, é que eles visam trazer experiências peculiares e interativas aos jogadores por meio dos jogos para contar a história que eles querem. Além de nos trazer uma experiência visual e narrativa bastante diferente do que estamos acostumados. Como How Fish is Made, outro jogo deles que tem a mesma ideia de Mouthwashing, um até se conecta narrativamente com o outro. Uma pena que ainda não esteja disponível para consoles de mesa, mas não podemos ganhar tudo, né!?.

Pois bem, em Mouthwashing acompanhamos uma narrativa quebrada. O jogador acompanha ao todo, dois personagens diferentes durante o jogo. O primeiro é o capitão da espaçonave de carga – chamada de Tulpar (que por si só é um nome um tanto irônico, visto a situação que o jogo nos apresenta) –, Curly, que logo no começo do jogo sofre terríveis deformações físicas por conta de um acidente ocorrido na nave e fica completamente incapacitado. Já o outro personagem é Jimmy – copiloto do cargueiro que fica encarregado de gerenciar e manusear a Tulpar, além de ajudar Anya – a enfermeira da nave, a medicar Curly, abrindo a sua boca e enfiando analgésicos, em sessões que acontecem com a interação do jogador, onde somos obrigados a abrir a boca de Curly para medica-lo.
Outros membros da tripulação são Swansea – mecânico e engenheiro da espaçonave, e Daisuke, seu ajudante e estagiário. É muito interessante como vamos conhecendo os personagens pouco a pouco durante a narrativa quebrada do jogo, porque Mouthwashing alterna entre dias após o acidente de Tulpar, e dias antes do acidente, além de ocorridos durante o dia do acidente. Isso revela as informações aos jogadores de uma forma muito inteligente e cheia de sutileza, contando com os jogadores para juntar as peças quebradas do que exatamente aconteceu – e está acontecendo ali.

Um elemento muito importante além do elenco principal é também a Pony Express – uma empresa de entrega intergaláctica responsável pela Tulpar, e que também marca presença aqui com o seu mascote Polle. Polle possuí na nave não só uma estátua (que toca um jingle) no meio do Lounge da espaçonave, mas também está estampado em diversos posters pela mesma, cheio de mensagens motivacionais e avisos de como a equipe deve agir e levar o seu trabalho de carga.
Logo de inicio do jogo vemos a situação em que o jogo quer que a gente experimente. Estamos diante de uma equipe em estado de crise por conta do acidente, e por conta de outros assuntos relacionados a Pony Express. A condição precária do objetivo dos tripulantes vem antes mesmo do acidente, impondo regras absurdas anti-trabalhistas, onde os operários recebem descontos salariais por quebra de seus protocolos. A Pony Express é uma empresa de cargas que está a beira de falência, e quer de todas as formas reduzir custos para as suas entregas, precarizando o ambiente dos tripulantes operários, seus recursos e suprimentos, além de colocar regras que os punem severamente como se fosse uma armadilha proposital.
Entre todo o destrato que a empresa faz com seus funcionários, temos também a carga que eles estão levando para o destino, do qual eles dizem ser uma carga de extrema importância. Não vou revelar o que é a carga, mas é uma contribuidora importante para a decadência mental de todos tripulantes da Tulpar, além de um dos principais motivos do problema em diversos níveis, seja físico ou psicológico.

Então toda a relação que temos com a Pony Express não é das melhores, e é muito irônico o quanto ela é superficialmente amigável em sua estética, com um absurdismo tão extremo pegando um pouco da energia dos anos 60 e cheio com um mascote tão fofo que é impossível não se sentir incomodado como os membros da tripulação eventualmente também se sentem.
A situação de Mouthwashing não é original, já vimos diversas histórias de tripulantes que enlouqueceram seja por conta de especificações, do isolamento, ou de tudo isso e mais um pouco. Inclusive, Mouthwashing me remeteu bastante a um episódio especifico da série animada de 1998 – Trigun. O episódio em questão é o 20, onde somos introduzidos a origem do protagonista em uma espaçonave que busca um novo lar longe da terra, e pouco a pouco a paranóia, manipulação e tragédia dominam os tripulantes, a ponto de ser inevitável impedir um desastre. Cito esse episódio em específico pois ele teve um impacto muito profundo em mim na época (que ainda era um pré adolescente). Em um anime onde vemos mensagens positivas sendo propagadas diversas vezes, esse episódio em especifico é extremamente sombrio, lidando com temas que muito eram fora da minha alçada.
Moutwashing teve um impacto parecido que esse episódio teve em mim, mas dessa vez, eu não era só um espectador, eu era Jimmy e também era Curly. O jogo me fez viver por pelo menos umas três horas de puro horror e anseio na pele de duas pessoas extremamente complicadas e com diversos problemas, não só causados pelo ambiente opressor que eles estão, mas também causadas por eles mesmos. Mais especificamente Jimmy nesse ponto – um homem completamente inseguro de si, tendo pouco a pouco um colapso mental, representado de uma forma tão complexa e cuidadosa pelo jogo, que é impossível não elogiar o trabalho feito aqui.
O jogador consegue sentir a pressão de dar uma notícia ruim aos tripulantes, consegue sentir a pressão de ter que cuidar de uma situação extrema, e também a pressão de ser um cuidador. Assim como a frustração, horror e tristeza de ter que cuidar de alguém muito próximo a você em um estado terminal, mas também nos coloca na pele e no controle de um personagem que você não gostaria de simpatizar. E sinceramente, videogame é a única mídia que consegue fazer isso, a forma que um jogo nos deixa desconfortável é em minha opinião, uma que nenhuma outra mídia alcançou até hoje.

Mouthwashing apesar de todo o horror, também tem momentos que faz o jogador sentir outros sentimentos além dos ruins. Diversos momentos descontraídos entre a tripulação aumenta a nossa proximidade e afinidade com eles, principalmente nas sessões que controlamos Curly, onde por ser o capitão da jornada, tenta ter sempre um contato direto e amigável com cada um deles. É por meio dele também que, vamos entendendo melhor os tripulantes, inclusive Jimmy – para o bem ou para o mal dele.
No mais, toda direção artística de Mouthwashing é muito bem colocada, seu estilo gráfico é perfeito para a finalidade do jogo, e sua trilha sonora também compõe absurdamente bem essa experiência. Fora os efeitos gráficos e sonoros utilizados em diversos momentos para que o jogador sinta o que o personagem controlado está sentindo. Mesmo tendo puzzles tão simples e ser mais um jogo de interação, ele consegue te prender com a simplicidade e facilidade, a ponto de apenas a forma em que apertar o botão para prosseguir os diálogos, e o efeito sonoro que essa ação tem para representar o tom sonoro da voz dos personagens, faz um engajamento deleitoso para o jogador seguir adiante. E ainda temos também tradução para pt-br, deixando a história mais acessível para nós brasileiros. Apesar de ter encontrado uma pequena falha de digitação em uma das legendas, toda a tradução é muito bem adaptada.
A atmosfera também faz uma transição genial, enquanto as poucas sessões de Curly estamos com a iluminação artificial setada com um sol ensolarado e um céu azul, após o acidente a nave está completamente travada em um ambiente de pôr do sol perpétuo, transmitindo a sensação que o tempo nunca passa, e que estamos vivendo eternamente nesse crepúsculo.

Não esperava engajar tanto como engajei com Mouthwashing, já sabia que era um título que merecia atenção, mas não imaginava que ele fosse me deixar tão ligado na tela assim. É até um pouco estranho pensar isso, principalmente estando na pele de Jimmy em diversos momentos da jornada, definitivamente, não é uma experiência agrádavel. E Mouthwashing não quer ser agradável, ele quer que você sinta esses sentimentos dubios, do que você acabou de jogar, das suas ações, e de como você simpatiza com o que você controla.
Mouthwashing traz a força artística de um videogame como mídia interativa a tona, e explora mesmo com seus recursos limitados, todos os sentimentos que só eles podem retratar.
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