Crítica | A Semente do Mal não colheu o que plantou

Uma incursão no cinema de terror por Gabriel Abrantes (“Diamantino”) num filme estruturalmente clássico, poderia ter sido uma ótima jogada ousada do promissor cineasta português, no entanto, A Semente do Mal, que parte da figura de uma das bruxas dos quadros de Goya, é mais um dos longas atuais que segue religiosamente a cartilha com quase tropos do gênero. O que é chocante vindo do maluco que dirigiu um filme surrealista de futebol que parodia o Cristiano Ronaldo.

Plantando a semente

No cinema de terror há inúmeras histórias sobre segredos de família, parentes perdidos e cenários assustadores. A Semente do Mal é um desses filmes, mas com uma premissa única que tinha o potencial de elevá-la aos demais. Na trama no longa seguimos a vida de Edward (Carloto Cotta), um homem órfão que mora em Nova Iorque, mas que após ter feito um teste de DNA, descobre que tem família em Portugal e decidi descobrir mais sobre suas origens na Europa, ao lado de sua namorada Ryley (Brigette Lindy-Paine).

Em seu país natal ele restabelece a ligação perdida com o seu irmão gêmeo (interpretado pelo mesmo Cotta) e a sua mãe, Amélia (Alba Baptista na juventude; Anabela Moreira na velhice e sob uma grande carga de maquiagem). Acontece que nem tudo é o que parece, e o segredo da família paira sobre a casa no meio da floresta.

Crítica | A Semente do Mal não colheu o que plantou
Trama familiar e clima gótico da mansão são ótimos ingredientes não aproveitados no filme (Imagem: Reprodução/A Semente do Mal)

Em A Semente do Mal, Abrantes retorna aos longas-metragens após um hiato de cinco anos. Embora a qualidade da produção do filme seja inegavelmente impressionante, com uma cinematografia que captura a grandeza gótica da mansão e seus arredores, o filme acaba não atendendo às expectativas. O terror carece do estilo característico e da narrativa ousada que fizeram de Diamantino um filme tão marcante. Em vez disso, parece uma oportunidade perdida de realmente inovar e deixar um impacto duradouro ao gênero.

Um dos aspectos mais decepcionantes de A Semente do Mal é sua dependência excessiva de sustos previsíveis, em vez de construir uma sensação de medo persistente e desconforto. O longa conta com um material rico disponível, com suas dinâmicas familiares perturbadoras, experimentos científicos inquietantes e ambiente florestal atmosférico, parece perfeito para uma abordagem mais imersiva e psicologicamente perturbadora.

Infelizmente, o filme muitas vezes recorre a barulhos repentinos e imagens passageiras de coisas grotescas, o que prejudica o impacto geral da história e deixa o espectador se sentindo enganado.

Dito isso, ainda há momentos de verdadeira originalidade e criatividade no filme. O uso da tecnologia como ferramenta narrativa, particularmente no contexto dos testes de DNA e suas implicações para a identidade e a família, é um tema provocador que adiciona um toque moderno e relevante ao gênero de horror gótico. Além disso, as atuações do elenco, especialmente de Baptista, Moreira e Cotta (num duplo papel), são cativantes e adicionam profundidade aos personagens que, de outra forma, estariam pouco desenvolvidos.

Crítica | A Semente do Mal não colheu o que plantou
Anabela Moreira faz uma personagem extremamente incômoda em A Semente do Mal (Imagem: Reprodução/A Semente do Mal)

Sem dar muitos detalhes, o ato final do filme, quando ele mergulha em um território mais surreal e de pesadelo, também oferece um vislumbre da visão única e ousada que Abrantes é capaz de trazer para a tela. No entanto, esses momentos de brilho não são suficientes para salvar A Semente do Mal de parecer uma oportunidade perdida para uma experiência de horror verdadeiramente distintiva e assustadora. Embora haja lampejos de originalidade e criatividade, o filme frequentemente recai aos desgastados e previsíveis do gênero e seus sustos baratos.

Com uma abordagem mais ousada e inovadora, A Semente do Mal poderia ter sido uma adição marcante ao gênero de terror, mas, como está, é uma entrada decepcionante e, em última análise, esquecível.

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