Divulgação

Crítica | Medley mergulha nas feridas e descobertas da adolescência, mostrando como respirar fundo diante das dores de crescer

Nem toda conquista tem o mesmo valor quando não temos com quem compartilhá-la. Em Medley, Lola (Mel Maia) conhece bem essa sensação. Apesar de acumular medalhas e se destacar nas competições de natação, a jovem de 16 anos convive com a ausência do pai e a distância emocional da mãe, que parece sempre ocupada demais para dar atenção às ambições da filha. Durante as férias em Salto Bonito, no interior, ela encontra uma oportunidade de recomeçar ao entrar para uma equipe de natação competitiva, mas também acaba se aproximando de segredos familiares que ajudam a entender suas próprias feridas.

Baseado no livro Medley ou Os Dias em que Aprendi a Voar, de Keka Reis, o filme transforma esse período de descobertas em uma história sobre amadurecimento, afeto e a dificuldade de entender os próprios sentimentos.

O que mais chama a atenção é a maneira como o filme lida com assuntos delicados sem abandonar a leveza que ele se propõe a passar. A história de Lola envolve abandono, conflitos familiares e sofrimento emocional, mas não passa o tempo inteiro tentando te arrancar lágrimas. O filme encontra espaço para romances desajeitados, situações engraçadas e aqueles clichês de filmes adolescentes que remetem diretamente às tardes de Sessão da Tarde que conhecemos tão bem. A simplicidade funciona a favor da trama, que encontra um equilíbrio agradável entre os momentos mais descontraídos e aqueles em que a personagem precisa encarar questões que preferia evitar.

Lola, aliás, está longe de ser uma protagonista perfeita. Em vários momentos, suas atitudes podem irritar, e algumas de suas decisões parecem precipitadas ou egoístas. Mas o que esperar de uma adolescente de 16 anos que ainda está tentando entender o mundo e o próprio lugar nele? Ela erra, fala o que não deveria e nem sempre sabe lidar com as pessoas ao redor. Em vez de transformar esses comportamentos em defeitos que precisam ser corrigidos imediatamente, o filme permite que eles façam parte de sua personalidade. Lola não precisa estar certa o tempo todo para que o público compreenda suas frustrações, afinal, todos nós já tivemos 16 anos um dia.

A atuação de Mel Maia, que comprou muito bem a personagem, transmite a melancolia de uma jovem que tenta seguir em frente, mesmo carregando decepções que nem sempre consegue expressar. Lola pode demonstrar confiança quando está na piscina, mas essa segurança não se estende necessariamente às relações pessoais, as quais ela demonstra ter bastante dificuldade.

A relação com a mãe é um dos pontos que ajudam a entender esse comportamento. Lola sente falta de atenção e reconhecimento, mas não consegue simplesmente ignorar o ressentimento que acumulou ao longo dos anos. A ausência paterna também pesa, especialmente porque ela cresceu sem compreender completamente os motivos que levaram o pai a sair de sua vida. Suas medalhas, que deveriam representar orgulho e satisfação, acabam perdendo parte do significado quando não há alguém por perto para comemorar suas conquistas. A solidão nem sempre se manifesta de maneira evidente. Às vezes, ela aparece justamente quando alguém parece ter todos os motivos para estar feliz.

Por trás do clima descontraído, Medley também aborda questões importantes de saúde mental. Uma pessoa pode carregar um sorriso contagiante e, ainda assim, conviver com uma tristeza que ninguém ao redor consegue perceber. Essa contradição atravessa a experiência de Lola e ajuda a dar mais profundidade a uma história que, à primeira vista, poderia parecer apenas mais um filme clássico de superação pessoal ou romance adolescente. Não é necessário transformar cada conflito em uma grande tragédia para mostrar que a dor emocional merece atenção, inclusive quando quem sofre não sabe como pedir ajuda.

A natação funciona como uma metáfora especialmente interessante para esse processo. Lola é uma atleta talentosa, mas enfrenta um bloqueio que a impede de nadar no estilo borboleta. Para superar essa dificuldade, não basta ter força ou vontade. Ela precisa encontrar o ritmo, controlar a respiração, entender os seus próprios limites e confiar no próprio corpo. Existe uma relação clara entre essa luta e o momento de vida que ela atravessa. Crescer também exige fôlego, concentração e coragem para mergulhar em sentimentos que nem sempre conseguimos compreender. E, assim como na piscina, não dá para permanecer submerso para sempre. Em algum momento, é preciso voltar à superfície e respirar.

Se pararmos pra pensar, a sensação é que muitas vezes a adolescência costuma ser vivida com uma mistura de urgência e insegurança. Tudo parece acontecer rápido demais, enquanto as respostas que buscamos demoram a aparecer. Lola quer entender o passado, resolver os conflitos com a mãe e descobrir o que sente, mas nem tudo depende apenas dela. O amadurecimento passa justamente por reconhecer que algumas respostas levam tempo e que nem sempre podemos controlar as circunstâncias que nos machucam.

Medley possui uma temática e um conjunto de problemáticas muito interessante de se abordar, mas infelizmente não encontra tempo o suficiente para concluir todos eles. Naturalmente, a abordagem leve também tem suas limitações. Algumas situações seguem caminhos previsíveis, e certos conflitos poderiam ganhar mais espaço para se desenvolver. A presença dos clichês é parte do charme da produção, mas nem sempre a trama se permite ir além deles. Ainda assim, o filme encontra sinceridade suficiente em seus personagens para que essas escolhas não comprometam a experiência.

Medley encontra sua força na combinação entre simplicidade e sensibilidade. É um filme sobre uma garota que tenta descobrir quem é enquanto aprende a lidar com as ausências que marcaram sua vida. Mel Maia sustenta essa jornada com uma atuação delicada, e a metáfora da natação funciona muito bem e transmite com leveza todas essas questões. Nem todas as dores desaparecem de uma hora para outra, e nem toda relação encontra uma solução perfeita. Às vezes, crescer significa aceitar essas incertezas e continuar tentando. Como uma boa história adolescente, Medley lembra que amadurecer não é deixar de errar, mas aprender a respirar fundo e seguir em frente, mesmo quando ainda não sabemos exatamente para onde estamos indo.

Leia também:

Apenas mais um entusiasta de jogos eletrônicos, apaixonado por explorar novos mundos que me ajudam a compreender melhor o mundo que eu vivo. Também estudante de psicologia e um amor de pessoa nas horas vagas.