Crítica | Rivais é sedutor, tenso e acertos tecnicamente atraente

Em 2018, durante a final do US Open, Serena Williams acusou a arbitragem de sexismo após ter sido punida por discutir com o juiz durante a final contra a japonesa Naomi Osaka, de 20 anos, que conquistou seu primeiro Grand Slam. Após perder alguns sets para Osaka, a tenista quebrou sua raquete no chão e tomou uma advertência do técnico, porém a americana não sabia que já tinha levado uma primeira advertência no jogo devido a “coaching”, quando um técnico passa uma informação para uma das jogadoras, algo totalmente proibido no tênis. Situação que deixou Williams extremamente irritada e em que ela disparou contra o juiz “Você é um ladrão, mentiroso! Me deve desculpas!”

O roteiro do novo filme de Luca Guadagnino (“Me chame pelo seu nome”), Rivais foi inspirado nessa final do torneio de tênis US Open de 2018. “Houve uma decisão realmente polêmica no final da partida, em que Serena Williams foi penalizada por receber treinamento lateral”, diz o roteirista do filme Justin Kuritzkes para o The Upcoming durante a premiere do filme em Londres. Ele achou o momento extremamente cinematográfico.

O sonho do roteirista aconteceu, e nela podemos acompanhar três prodígios do tênis — amigos, amantes e adversários — ao longo dos anos, acompanhando suas vitórias e derrotas, algumas delas compartilhadas. No início da história, Tashi (Zendaya), a ex-promessa brilhante do trio, já está aposentada do jogo há algum tempo e agora treina seu marido, Art (Mike Faist), um campeão do Grand Slam que está rapidamente em declínio. Eles decidem que a melhor maneira para ele se recuperar é competir em um campeonato de menor escala em New Rochelle. É durante essa estadia nessa pequena cidade de Nova York que ele e Tashi se reconectam dramaticamente com Patrick (Josh O’Connor), o membro canalha de seu complicado envolvimento a três.

Ambientado principalmente no mundo do tênis profissional, Rivais é um filme leve, sexy e divertido, e embora tenha alguns corações partidos (ou pelo menos machucados), em sua maior parte é emocionalmente impessoal.

Não importa a quadra, Rivais sabe jogar

Rivais demonstra conhecer bem as regras do “manual dos filmes de esporte”. Estão lá os protagonistas em um momento de virada, tanto na carreira quanto na vida pessoal, em meio a uma jornada atribulada, cujo destino inevitável é a grande partida decisiva. Mas o longa-metragem de Luca Guadagnino guarda alguns excelentes truques na manga.

Por falar nisso, um dos principais destaques é o talento do trio central. Assim como sua personagem Tashi, Zendaya trouxe uma aura de glamour ao filme, que cativa você mesmo quando a escrita a mantém frustrantemente distante. Apesar de demonstrar maestria nos conflitos da personagem, não ficamos realmente sabendo de onde vem esse amor obstinado pelo tênis, a não ser pelo fato de que ela é incrível nisso. Tashi deveria ser a figura central aqui, mas muitas vezes parece ser uma personagem secundária ou um prêmio pelo qual esses dois estão lutando.

Crítica | Rivais é sedutor, tenso e acertos tecnicamente atraente

Isso pode ser interpretado não como um problema na atuação, mas sim no roteiro, pois Zendaya assume seu papel de forma mais madura, interpretando uma personagem extremamente manipuladora e que claramente não tem respeito por nenhum dos outros personagens. A atriz demonstrou estar pronta para papéis mais desafiadores, especialmente no drama, onde permite que a emoção flua com mais facilidade, dominando todas as cenas em que está presente.

Já os outros protagonistas, mesmo com todo o brilho de Zendaya, conseguem mostrar todo o seu talento. Faist transmite a insegurança e a resignação necessárias a Art, deixando você ver a vulnerabilidade do personagem, o que o torna simpático até se tornar apenas triste. Mas é O’Connor quem leva o material em direção a algo próximo da profundidade. Patrick é um tipo completamente diferente de perturbador; ele sorri de forma presunçosa e, não sente nenhum remoso por suas ações. É um jogo de astúcia e flerte. Sua confiança lhe confere uma carga erótica que estimula Art e Tashi, e nenhum dos dois parece capaz de abandoná-lo mesmo após o drama e o desastre virarem de cabeça para baixo o trio.

No início do filme, ela explica para eles que não vê o tênis apenas como bater em uma bola com uma raquete, mas sim como um relacionamento. Essa é a linha de diálogo mais marcante durante o primeiro encontro deles na praia, e ao longo do filme, essa ideia é explorada, mostrando como a dinâmica entre os três influencia suas partidas de tênis. 

O filme também utiliza idas e vindas no tempo para explicar o que levou à tensão e brigas entre eles. Por exemplo, quando Patrick está namorando Tashi, ele ganha o set; quando Art começa a ficar com ela, ele ganha o set. É muito interessante observar que quando não sabemos quem Tashi vai escolher, o jogo fica em “empate”, nenhum dos dois tem vantagem. Isso é especialmente evidente quando Tashi ainda está indecisa entre os dois, pois nenhum deles possui uma vantagem sobre o outro, mesmo que um deles esteja casado; eles estão em igualdade de condições.

É possível perceber uma mudança completa na atmosfera, nos diálogos e no estilo do filme conforme ele transita entre passado e presente. Quando estão no passado, o filme assume um tom de comédia romântica, com jovens sendo engraçadinhos, lembrando um pouco “Clube dos Cinco”. Já na fase adulta, há o peso das responsabilidades refletido nos diálogos e na forma de se portar dos personagens, além das cores mais frias e músicas com maior tensão, que contribuem para essa mudança de vibe.

O dramaturgo Justin Kuritzkes surpreende em sua estreia no cinema. Rivais é bastante direto apesar de sua narrativa cronológica conscientemente torturada. A partir desse roteiro Guadagnino sente prazer, provocando, deixando os telespectadores completamente confusos. A trama passeia pelo presente (2019) e passado (2006) com a tranquilidade de uma bola de tênis que vai de um lado para o outro da quadra. Essa construção não linear é fundamental para não entregar o desfecho logo de cara, mas com o tempo ela se torna exagerada, com o filme indo e voltando por tempos como 2h ou15 dias. Porém, é perceptível que o diretor é bem melhor em deslizar tranquilamente sobre as superfícies da vida do que em cavar muito fundo abaixo delas.

O filme mantém um tom de fala extremamente sensual. No entanto, ele também sabe equilibrar diálogos dramáticos e momentos engraçados, mantendo-se dentro do contexto da história e evitando exageros. Com uma escrita habilidosa e diálogos excelentes, o filme não recorre a cenas eróticas explícitas, apesar de mostrar corpos em diversas ocasiões. Ainda assim, sua abordagem é carregada de uma tensão sexual palpável, em alguns momentos parece que, se o espectador levantar as mãos, conseguirá tocá-la, proporcionando um estímulo na medida certa. É essa habilidade de trabalhar com a imaginação que talvez torne o filme tão provocante. Ele quase não apresenta nudez, mas quando o faz, contraria o padrão hollywoodiano ao focar mais nos homens, do que em hipersexualizar Zendaya.

Algo também interessante de notar é como o filme não perde tempo com histórias paralelas e nem dá destaque para personagens coadjuvantes. Em quadra (ou melhor, em cena), apenas o trio, uma bola e algumas raquetes. Tudo isso somado a uma sonoplastia sensacional que mescla Caetano Veloso cantando em espanhol e uma trilha sonora eletrônica crescente que cria uma tensão capaz de rivalizar com a monotonia do esporte. 

A escolha das músicas e instrumentais que acompanham o filme pode ter sido boa, mas há um único erro perceptível: em algumas cenas, a música fica excessivamente alta e, por vezes, seu encaixe parece um pouco fora de lugar, talvez distraindo o espectador em vez de reforçar a tensão das cenas.

No entanto, Rivais conta com uma infinidade de acertos técnicos, sendo o principal deles no jogo de câmeras. Guadagnino opta por contrastes entre planos fechados e abertos, cenas aceleradas e outras em slow motion que destacam detalhes como gotas de suor escorrendo do rosto e do corpo, convidando o público a visualizar e imaginar as sensações físicas dos personagens em suas próprias peles. 

Outro elogio vai para o time de caracterização, que não poupou esforços para retratar a passagem do tempo. Desde as roupas até os cabelos, tudo muda conforme o trio envelhece e isso é fundamental para situar o espectador na história. Além disso, a atmosfera dos anos 80, com sua aura de old money (tendência de moda que faz referência ao estilo dos nascidos herdeiros de famílias burguesas, que vivem uma vida luxuosa a base de fortunas acumulada há gerações), é bastante perceptível. O tênis por si só já remete a essa época, mas as escolhas de cores e a saturação utilizadas no filme acentuam ainda mais essa vibe dos anos 80, especialmente nas cenas que se passam há 13 anos, com um leve toque granulado.

Um dos outros prazeres do filme é que, apesar de tapas na cara, feições de desgosto e sua cronologia complicada, o filme não está tentando dizer nada importante, o que é um alívio. Ele quer te envolver e entreter, e faz isso muito bem. Rivais passa como um raio. Seu final é um estrondo erótico. Quando termina, você não sabe o que te atingiu, mas parece tesão.

Leia também:

One Comment

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *