Crítica | 'Alma Negra - Do Quilombo ao Baile' revisita os bailes black como espaços de resistência e afeto
Synapse Distribution/Divulgação

Crítica | ‘Alma Negra – Do Quilombo ao Baile’ revisita os bailes black como espaços de resistência e afeto

É praticamente inevitável iniciar qualquer reflexão sobre Alma Negra – Do Quilombo ao Baile sem passar pela tensão que acompanha sua própria existência. Um documentário idealizado por uma equipe criativa majoritariamente branca, propondo-se a investigar a história da música negra periférica brasileira – dos bailes soul e funk dos anos 70 e 80 às conexões entre cultura, identidade e luta antirracista – naturalmente desperta desconfiança. Existe um desconforto legítimo nesse ponto de partida, sobretudo em um país acostumado a ver experiências negras frequentemente atravessadas pelo olhar externo. O que torna o filme particularmente interessante, porém, é perceber como Flavio Frederico e Mariana Pamplona parecem conscientes desse impasse desde o início e optam menos por ocupar o centro da narrativa do que por construir um espaço de escuta, memória e circulação de vozes, transformando o documentário em algo mais próximo de um encontro coletivo do que de uma tese fechada.

O primeiro movimento do filme é o da ampliação. O que começou como um recorte sobre os bailes blacks – aquele fenômeno de pista e identidade que pegou Rio e São Paulo com o Chic Show e o Black Rio – vai se transformando em algo mais denso. De repente, não se trata mais apenas de coreografias e discotecagem. O documentário abre alas para Lélia Gonzalez, para Beatriz Nascimento, para a noção de quilombo como território de liberdade, respeito e, principalmente, encontro. O quilombo, aqui, não é metáfora: é princípio estrutural. O filme se espalha em diferentes núcleos, abraça nuances e até eventuais conflitos entre os movimentos negros da época, mas jamais perde de vista o senso de união que movia aquela gente. O objetivo comum, fica claro, era um só: resgatar a autoestima de um povo.

Crítica | 'Alma Negra - Do Quilombo ao Baile' revisita os bailes black como espaços de resistência e afeto
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Acontece, porém, um descompasso de ritmo. Alma Negra às vezes parece querer provar o óbvio – que o Brasil é racista – e se perde em tangentes que repetem diagnósticos já gastos. Quem acompanha minimamente o debate sobre cinema e raça no país sente um cansaço de tese quando o filme insiste em explicar o que já está mais do que sabido. A saída, felizmente, vem do mergulho no particular. Quando o longa se permite errar, divagar e ocupar o campo da memória pessoal, ele se torna outro. É o caso da passagem com Zezé Motta. A atriz conta, com uma economia de gestos que dói, a história do próprio cabelo durante uma viagem nos Estados Unidos. Não há ali ilustração de argumento. Há corpo, há afeto, há a pequena anedota que carrega décadas de violência e reinvenção. Momentos assim são a verdadeira assinatura do documentário.

Crítica | 'Alma Negra - Do Quilombo ao Baile' revisita os bailes black como espaços de resistência e afeto

Do ponto de vista técnico, a equipe caprichou em camadas. As imagens de arquivo são impressionantes – não pela raridade apenas, mas pela qualidade da restauração e pela escolha de fotografia que as emoldura. Cada frame respira textura. O som e a mixagem, então, merecem parágrafo à parte: as músicas não são apenas ouvidas, elas são sentidas, com graves que invadem a sala e agudos que transportam direto para um baile de domingo. Até as cartelas coloridas que descem a cada nova faixa musical demonstram um cuidado com a experiência sensorial do espectador. Não há desperdício.

Outro golpe de excelência está no diálogo que Alma Negra estabelece com a própria história do cinema brasileiro. O filme resgata pedaços de “Quilombo”, “Abolição”, “Alma no Olho”, “Compasso de Espera”, “Na Rota dos Orixás”, “Tudo Bem” e “Jardim de Guerra” – e não os utiliza como mera citação de autoridade. A montagem alterna esses fragmentos ficcionais com depoimentos contemporâneos, criando uma conversa geracional pouco vista no documentário nacional. O cinema negro que durante décadas ficou restrito a mostras de preservação ganha aqui uma nova circulação, uma nova chance de ser visto como obra viva.

Comparações, nesse terreno, são inevitáveis. Quem viu “Black Rio! Black Power!” vai notar semelhanças de tema, mas Alma Negra opera em outro patamar de complexidade. Enquanto o filme anterior se concentra sobretudo na cena carioca, Frederico e Pamplona ampliam o olhar para São Paulo, para o Chic Show, para as disputas internas e para as alianças que nem sempre cabem em uma narrativa única. O resultado é um mosaico mais fiel à diversidade do movimento negro daqueles anos, sem nunca sacrificar a clareza política.

Crítica | 'Alma Negra - Do Quilombo ao Baile' revisita os bailes black como espaços de resistência e afeto
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Fica suspensa no ar uma questão que o filme não resolve – e talvez nem devesse resolver: é possível construir um documento histórico sobre cultura negra a partir de mãos brancas? Alma Negra parece responder menos com afirmações diretas do que com método.

Pesquisa cuidadosa, escuta generosa e disposição para abrir espaço às próprias vozes que atravessam o filme acabam se tornando parte essencial da experiência. O documentário não busca encerrar um debate, tampouco assumir a posição de obra definitiva sobre o tema. Assim como qualquer investigação viva sobre memória e identidade, o longa prefere funcionar como passagem, deslocamento e convite. Afinal, o quilombo nunca foi apenas um lugar. Também sempre foi movimento.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.