A travessia infantil por um país em ruínas sempre carregou, no cinema, um poder de revelar a violência sem precisar encená-la como espetáculo. O Bolo do Presidente compreende isso desde seus primeiros minutos e encontra um parentesco direto com “O Balão Branco”, de Jafar Panahi. Assim como no clássico iraniano, a câmera acompanha crianças em deslocamento constante, percorrendo ruas, mercados e pequenos espaços domésticos enquanto tentam cumprir uma tarefa aparentemente banal. Em ambos, a simplicidade do objetivo esconde um retrato social muito maior. A diferença é que, aqui, a delicadeza da infância atravessa um cenário marcado pela fome, pelo medo e pela presença sufocante de um regime que transforma até um bolo em ferramenta política.
Ambientado no Iraque dos anos 1990, durante o período de sanções econômicas e crescente instabilidade social sob o governo de Saddam Hussein, o longa acompanha a pequena Lamia (Baneen Ahmad Nayyef), uma garota convocada pela escola a preparar um bolo em homenagem ao aniversário do presidente. A missão, aparentemente simples, se transforma numa verdadeira peregrinação pelas ruas da cidade ao lado de seu amigo Saeed (Sajad Mohamad Qasem) e da protetora Bibi (Waheed Thabet Khreibat), figura maternal que tenta equilibrar afeto e sobrevivência em um cotidiano esmagado pela pobreza.
A diretora Hasan Hadi – em um longa de estreia que impressiona pela maturidade estética – evita a tentação de transformar a opressão em discurso fácil e inflamado. O filme prefere observar. As crianças caminham, negociam, improvisam, inventam soluções. Enquanto isso, o Estado ocupa os espaços silenciosamente. Rostos do governante surgem estampados em murais, cartazes e paredes desgastadas; slogans aparecem naturalizados no cotidiano escolar; figuras de autoridade falam com uma serenidade quase automática sobre dever patriótico. Não existe histeria. O terror nasce justamente da normalidade.

O olhar infantil altera completamente como esse universo é percebido. A guerra, o embargo econômico e a fome não aparecem como conceitos geopolíticos abstratos, mas como obstáculos concretos; falta açúcar, falta farinha, falta dinheiro, falta tempo. Uma menina não pensa em sanções internacionais ou disputas diplomáticas; ela pensa no bolo que precisa entregar porque aprendeu que decepcionar o poder é perigoso. O roteiro de Hasan se utiliza dessa perspectiva reduzida, quase mínima, onde o absurdo político ganha contornos ainda mais cruéis por ser compreendido através de necessidades simples.
As cenas na escola funcionam para reforçar a ideia de que obedecer é uma virtude moral absoluta. O condicionamento aparece diluído em pequenas frases, em gestos, em símbolos repetidos até perderem a aparência de imposição. O filme entende algo essencial sobre regimes autoritários: eles funcionam melhor quando deixam de parecer extraordinários.

A fotografia de Tudor Vladimir Panduru merece atenção especial. O trabalho visual constrói uma contradição permanente entre beleza e devastação. As ruas empoeiradas são captadas com uma luz quente quase acolhedora; interiores pobres ganham textura e profundidade; o enquadramento frequentemente encontra poesia em ambientes marcados pela escassez.

Essa escolha estética, definitivamente, não suaviza a tragédia, mas amplia seu impacto. É desconcertante ver imagens tão belas acompanhando personagens submetidos à privação constante. O resultado lembra certas obras do neorrealismo italiano, embora o filme preserve uma identidade própria ao aproximar lirismo e vigilância política.
A câmera demonstra enorme sensibilidade ao filmar as duas crianças protagonistas. O vínculo entre elas sustenta emocionalmente a narrativa inteira. Em meio à brutalidade do contexto, surgem momentos de cumplicidade que parecem suspender temporariamente o peso externo: brincadeiras discretas, olhares silenciosos, pequenas provocações, risos. São instantes curtos, mas decisivos, porque impedem que o longa transforme seus personagens apenas em símbolos de sofrimento. Elas continuam sendo crianças, mesmo cercadas por adultos consumidos pelo medo.
Essa dimensão afetiva ganha ainda mais força porque o filme compreende como a infância absorve a violência sem necessariamente entendê-la por completo. O medo já faz parte da rotina desses personagens, mas ainda não foi totalmente racionalizado. O longa evita qualquer exploração melodramática. A tensão nasce da percepção de que a pobreza reorganiza valores morais, transforma corpos em moeda de troca e empurra sobrevivência e dignidade para lados opostos da mesma equação.
A trilha sonora acompanha essa lógica de contenção. Em vez de manipular emoções de maneira evidente, o som trabalha ausências. Muitos momentos são conduzidos apenas por ruídos ambientes: passos, vozes distantes, movimentações de rua, explosões ao fundo. Quando a música surge, ela aparece quase como memória afetiva, nunca como condução emocional forçada. Essa discrição sonora contribui para a sensação de que o horror não interrompe a vida cotidiana; ele se mistura a ela.
Também chama atenção como O Bolo do Presidente recusa simplificações políticas. O filme não organiza sua crítica numa estrutura confortável de culpados únicos. O regime ditatorial aparece como força esmagadora, mas o contexto externo – especialmente os impactos da pressão internacional e da ameaça militar permanente, sobretudo dos Estados Unidos – também atravessa a experiência dos personagens. A fome não vem de um único lugar. O medo tampouco. Existe um sistema inteiro produzindo miséria enquanto discursos patrióticos tentam convencer a população de que o sacrifício é honra.

A mise-en-scène reforça constantemente essa ideia de aprisionamento coletivo. Personagens são enquadrados entre grades, corredores estreitos, paredes rachadas e janelas pequenas. Em diversos momentos, o espaço parece apertar os corpos dentro do quadro. Mesmo quando as ruas se abrem visualmente, há sempre a sensação de vigilância. O olhar do poder nunca desaparece completamente.
O longa encontra uma de suas imagens mais devastadoras no final, quando a inocência infantil e a brutalidade da guerra coexistem no mesmo plano. Não há catarse, apenas um silêncio emocional difícil de dissipar. Bombas podem cair ao fundo enquanto duas crianças continuam tentando entender o mundo da única maneira que conhecem: observando uma à outra.
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