'Todo Mundo em Pânico'
Foto: divulgação/paramount

Crítica | ‘Todo Mundo em Pânico’ volta a ser ofensivo, caótico e engraçado — exatamente como deveria ser

Franquia abandona anos de mediocridade e entrega sua melhor sequência em décadas

Franquia abandona anos de mediocridade e entrega sua melhor sequência em décadas

Durante anos, Todo Mundo em Pânico se tornou uma sombra da franquia que revolucionou as paródias cinematográficas nos anos 2000. Após a saída dos Irmãos Wayans, a série foi lentamente transformada em um produto sem identidade, sustentado por referências preguiçosas, humor reciclado e uma tentativa constante de reproduzir uma fórmula que já não funcionava. O resultado foram sequências esquecíveis que pareciam não compreender o que havia tornado o original tão popular.

Felizmente, o novo filme corrige esse problema ao trazer os Wayans de volta ao comando da franquia. O retorno da dupla devolve a personalidade que desapareceu ao longo dos anos e permite que a série reencontre sua principal característica: a capacidade de satirizar a cultura pop sem qualquer compromisso com o bom gosto ou com a coerência narrativa.

A trama acompanha o retorno de Cindy Campbell (Anna Faris) e Brenda Meeks (Regina Hall), que mais uma vez se veem envolvidas em uma nova ameaça ligada ao Ghostface. No entanto, tentar analisar a narrativa com seriedade seria ignorar completamente a proposta do filme. A história existe apenas como um fio condutor para conectar uma sequência interminável de piadas, referências e situações absurdas.

'Todo Mundo em Pânico'
Foto: divulgação/paramount

Ao contrário de muitas comédias contemporâneas, que parecem preocupadas em justificar cada acontecimento do roteiro, os Wayans entendem que o absurdo funciona justamente por não precisar fazer sentido. O filme abraça o caos e transforma sua falta de compromisso com a lógica em uma ferramenta cômica.

As paródias também demonstram mais criatividade do que se poderia esperar. O roteiro encontra inspiração em produções recentes como “A Substância”, “M3GAN”, “Premonição”, “John Wick” e os novos capítulos da franquia “Pânico”, mas raramente se limita a reproduzir cenas famosas. Existe um esforço genuíno para exagerar os elementos mais absurdos dessas obras e encontrar humor onde muitas produções do gênero se contentariam apenas com referências superficiais.

Outro aspecto que chama atenção é a completa ausência de receio em provocar. Em uma indústria cada vez mais preocupada em evitar controvérsias, os Wayans escolhem satirizar praticamente tudo. Influenciadores digitais, cultura das lives, machosfera, geração Z, celebridades e figuras envolvidas em alguns dos maiores escândalos recentes aparecem como alvos das piadas. Nem todas funcionam com a mesma eficiência, mas existe algo nostálgico em assistir a uma comédia que não parece pedir desculpas pela própria existência.

'Todo Mundo em Pânico'
Foto: divulgação/paramount

Isso não significa que o filme esteja livre de problemas. O roteiro é extremamente fragmentado e muitas vezes se assemelha a uma coleção de esquetes conectadas de maneira improvisada. Personagens entram e saem da narrativa sem qualquer desenvolvimento, conflitos surgem apenas para serem abandonados minutos depois e a reta final se torna tão desorganizada quanto divertida.

Curiosamente, aquilo que seria um defeito fatal em quase qualquer outro filme acaba funcionando dentro da proposta da franquia. O grande diferencial desta nova sequência é que ela finalmente compreende sua própria identidade. Durante anos, Todo Mundo em Pânico tentou sobreviver apenas acumulando referências populares. Agora, existe novamente uma voz por trás das piadas e um olhar crítico sobre a cultura pop e sobre o próprio gênero que ajudou a popularizar.

O retorno de Anna Faris e Regina Hall reforça ainda mais essa sensação. As duas continuam sendo o coração da franquia e demonstram uma química que nenhuma das sequências produzidas sem os Wayans conseguiu reproduzir. Sempre que dividem a cena, lembram por que Cindy e Brenda permanecem muito mais memoráveis do que grande parte dos protagonistas das comédias atuais.

O mais curioso é que Todo Mundo em Pânico continua sendo um filme objetivamente ruim em diversos aspectos. A narrativa é bagunçada, a estrutura é irregular e algumas piadas parecem saídas diretamente de uma conversa entre adolescentes. Ainda assim, o filme funciona porque nunca tenta ser sofisticado, inteligente ou importante. Seu único objetivo é fazer o público rir.Ao recuperar a franquia das mãos de quem a transformou em uma caricatura de si mesma, os irmãos Wayans entregam algo que parecia impossível: um novo Todo Mundo em Pânico que realmente justifica sua existência. Não porque seja um grande filme, mas porque finalmente entende que a melhor forma de satirizar a cultura pop é ser tão ridículo quanto ela.

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Jornalista e formada em Cinema, apaixonada por cultura asiática e por contar histórias. Provavelmente já assisti tanto aos filmes do Adam Sandler que poderia atuar em qaulquer um sem precisar de roteiro.