Antes mesmo de aprender a nomear nossos medos ou desejos, já encontramos versões deles nas histórias que assistimos. Depois, essas histórias continuam conosco. Mudam de formato, ganham novas interpretações, envelhecem junto com quem as viu pela primeira vez. O curioso é que esse movimento nunca acontece em uma única direção. Os filmes pertencem ao público depois que chegam às telas, mas também moldam quem os assiste, reorganizam memórias, alteram afetos e deixam marcas que só fazem sentido muitos anos depois.
É nesse espaço entre aquilo que vemos e aquilo que as imagens fazem conosco que Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte, dirigido por Jane Schoenbrun, encontra sua tese ensaística. Embora o filme recorra a tropos, enquadramentos e mortes que tradicionalmente associamos aos slashers, seria um equívoco reduzi-lo a um filme de terror. Acampamento Miasma é, muito mais, um filme sobre pessoas que foram atravessadas por filmes – sobre aquilo que acontece quando determinadas imagens entram cedo demais em nossas vidas e continuam trabalhando dentro de nós muito depois de a sessão terminar.
Em alguns momentos, quase escorrega para a armadilha do comentário metalinguístico excessivamente autoconsciente. Felizmente, existe um filme muito melhor escondido sob essa superfície.

Acho que assisti filmes demais quando criança e isso fodeu com minha cabeça.
A ideia mais sedutora de Acampamento Miasma não tem nenhuma relação direta com serial killers, franquias de horror ou reboots hollywoodianos. Ela aparece de maneira quase silenciosa, escondida entre uma projeção, uma conversa e um olhar prolongado para uma tela. Imaginamos que interpretamos as obras de arte, mas raramente percebemos que elas também passam décadas nos interpretando.
É uma relação desigual. Entramos numa sala de cinema acreditando ocupar a posição mais confortável da equação. Assistimos, analisamos, gostamos ou rejeitamos. Só depois de muitos anos descobrimos que determinadas imagens permaneceram trabalhando em silêncio, reorganizando memórias, moldando afetos, alterando desejos que sequer sabíamos possuir. O filme muda de lugar dentro de nós enquanto seguimos convencidos de que somos apenas seus espectadores.
Essa inversão de perspectiva atravessa o novo trabalho de Schoenbrun. Em vez de tratar o cinema como objeto de análise, a diretora o apresenta como um organismo vivo, capaz de absorver experiências e devolvê-las transformadas. Não existe consumo passivo. Toda imagem exige alguma coisa de quem a observa. Às vezes pede atenção. Às vezes desconforto. Em outras ocasiões, exige uma transformação que só se torna evidente muito tempo depois.
É curioso que essa reflexão apareça através de uma cineasta encarregada de revitalizar uma franquia de horror. A premissa poderia facilmente resultar numa sátira sobre nostalgia industrial, propriedade intelectual ou a obsessão contemporânea por remakes. O roteiro até flerta com esse caminho. Existem piadas eficientes sobre executivos, sobre o vocabulário corporativo da diversidade e sobre a facilidade com que qualquer clássico pode ser reciclado para uma nova geração. Durante alguns minutos, parece que Acampamento Miasma deseja participar desse grupo de filmes excessivamente conscientes da própria inteligência, sempre prontos para comentar o mercado do qual fazem parte.
Mas Schoenbrun demonstra pouco interesse em permanecer ali – ainda bem! A verdadeira história começa quando o filme abandona a indústria para observar a intimidade construída entre uma pessoa e as imagens que a acompanharam durante a vida inteira.
Kris (Hannah Einbinder) aceita dirigir uma nova versão de Acampamento Miasma porque conhece profundamente aquele universo. Ou, pelo menos, acredita conhecê-lo. Ela domina referências, compreende sua importância cultural, reconhece seus problemas históricos e sabe exatamente como enquadrar tudo isso dentro dos debates contemporâneos. Seu repertório impressiona. Sua leitura também. O que ela desconhece é a parte mais importante dessa relação. Ela sabe explicar por que ama aqueles filmes, mas ainda não sabe sentir esse amor sem transformá-lo imediatamente num discurso acadêmico.
Billy Preston (Gillian Anderson) comenta que Kris vive mais na própria cabeça do que no próprio corpo. Não é apenas um comentário sobre a personagem. É um diagnóstico de uma geração inteira, acostumada a organizar afetos através de conceitos antes mesmo de experimentá-los. Explicar tornou-se mais confortável do que viver. É nesse ponto que Schoenbrun desloca o eixo da narrativa. A protagonista não precisa aprender mais sobre cinema, precisa permitir que o cinema volte a agir sobre ela. Essa mudança altera completamente a maneira como o filme organiza seus símbolos.

Por citar Anderson, o trabalho da atriz no longa é soberbo. Quanto mais ela toma posse do longa, mais a história melhora. Sua personagem, que é uma veterana atriz de pouco sucesso, onde seu auge, foi justamente ser a final girl da primeira versão de Miasma, a coloca numa posição de personagem fetiche/despertar queer da protagonista, mas também como uma mulher profundamente ligada a esse filme de maneira que beira o doentio. Há paralelos com histórias trágicas de jovens atores que não decolaram, mas o que me impressiona, tanto na abordagem da atriz, quando na condução de Schoenbrun, é que ela não necessariamente sofreu, mas que sim, sua relação com o filme criou uma dependência. Ela quer sentir aquilo. Sempre.
Tudo em Acampamento Miasma parece existir simultaneamente como objeto concreto e extensão de um desejo. A lança potiaguda do assassino mascarado continua sendo uma arma, mas também assume um evidente caráter sexual. Sua presença remete tanto à violência quanto à penetração, aproximando duas pulsões que o horror explora desde seus primeiros anos. A diretora nunca transforma essa relação em alegoria simplista. Apenas permite que ambos os sentidos coexistam dentro da mesma imagem.

Os doces espalhados pela narrativa seguem lógica semelhante. À primeira vista, evocam infância, brincadeira e inocência. Aos poucos, passam a funcionar como vestígios de uma adolescência que ainda resiste dentro de uma mulher de 29 anos que ainda tem bloqueios com seu próprio corpo e como explorá-lo. São lembranças materiais de um momento em que assistir a um filme significava apenas brincar de sentir medo. Agora, aquelas mesmas imagens exigem outra resposta. O terror deixa de ser fantasia infantil para dialogar com desejo, identidade e descoberta do próprio corpo.

A fotografia acompanha esse processo com precisão. Os enquadramentos frequentemente recusam uma observação distante. Os super zooms comprimem espaço e profundidade até transformar rostos, objetos e pequenos gestos em acontecimentos físicos. Não parece exagero afirmar que a câmera deseja tocar aquilo que filma. Esse impulso produz um efeito curioso. O próprio ato de olhar torna-se erotizado.
Além disso, a camada fantástica também vai para além da discussão central, ela é aplicada em tela, sobretudo quando somos apresentado ao lado externo do acampamento. A camada artificial da imagem dialoga de maneira antagônica com o discurso do longa, que, ao decorrer da projeção, ele vai misturando cada vez mais a realidade com a fantasia.
Não porque o filme procure sexualizar tudo indiscriminadamente, mas porque entende que o desejo também nasce da aproximação. Observar é invadir. Enquadrar é escolher um corpo entre inúmeros outros possíveis. Aproximar a lente significa eliminar o restante do mundo para concentrar toda a atenção numa superfície específica. Poucos filmes recentes compreenderam tão bem essa dimensão tátil da imagem.

Essa mesma lógica aparece durante as longas cenas em que personagens simplesmente assistem a filmes. Schoenbrun não cria simplesmente momentos de transição, mas acontecimentos dramáticos. A câmera observa quem observa. O gesto aparentemente banal de permanecer diante de uma projeção transforma-se numa experiência profundamente íntima.
Existe uma relação evidente com “Janela Indiscreta”, onde observar também significava participar. Mas Schoenbrun leva essa ideia um pouco além. Não basta reconhecer que o espectador interfere na imagem. A imagem interfere de volta. Essa reciprocidade também aproxima Acampamento Miasma de “Não! Não Olhe!”. Nos dois casos, o cinema funciona como comportamento biológico. As imagens engolem pessoas, reorganizam suas experiências e depois as devolvem diferentes. Como um monstro mesmo. Essa percepção também modifica nossa leitura da relação entre Kris e Billy.
Costuma-se dizer que toda obra pertence ao público depois de concluída. Acampamento Miasma parece sugerir um movimento mais complexo. A obra pertence ao público, mas continua pertencendo ao artista também. Não como posse, mas como presença. Ela permanece transformando quem a criou da mesma forma que transforma quem a contempla.
O roteiro ocasionalmente sofre com a necessidade de explicar símbolos que funcionariam melhor permanecendo apenas como imagens. Algumas conversas verbalizam conflitos que a encenação já havia resolvido silenciosamente. Em determinados momentos, percebe-se a vontade de comentar debates contemporâneos sobre representação, autoria e identidade com uma objetividade que reduz parte da ambiguidade construída anteriormente.
Assistimos a um filme acreditando que estamos organizando seus significados. Escrevemos críticas imaginando que capturamos sua essência. Revisitamos clássicos convencidos de que finalmente os entendemos.
Acampamento Miasma funciona melhor quando fica nesse espaço onde autoria e recepção deixam de ocupar posições fixas. O artista molda a obra. A obra molda o espectador. O espectador retorna ao mundo transformado e, inevitavelmente, produz outras imagens, outras leituras, outras histórias. O ciclo nunca se encerra.
Por isso o cinema permaneça tão próximo da vida. Não porque a reproduza fielmente, mas porque participa dela. Cada sessão acrescenta alguma coisa ao corpo de quem assiste, mesmo quando essa mudança permanece invisível durante anos.
Sangue, doces, lâminas, projeções e lembranças, Schoenbrun não quer discutir o que significa fazer filmes, mas propõe uma reflexão do por que continuamos permitindo que eles nos transformem. Porque, apesar de todo esforço em interpretá-los, seja impossível sair de uma grande experiência cinematográfica exatamente igual à pessoa que entrou na sala alguns minutos antes.
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